Marque o excerto em que não há ironia, sentido oposto para e...
O texto seguinte servirá de base para responder às questões de 1 a 10.
O bebê infrator.
Otto Lara Resende.
Não quer fazer julgamento precipitado nem falar de cadeira, isto é, sentado com todo o conforto e longe da tragédia. Mas me pergunto em que é que mudou esse problema que já nem sei como chamar. Sei que foi massificado com a legião dos meninos de rua. Botar uma etiqueta num problema ajuda a esquecê-lo.
Menor, inicialmente, era menor de idade. Daí apareceu a palavra "demenor" pronunciada "dimenor" pelos próprios meninos. "Sou dimenor" é um prévio perdão.
São cada vez mais precoces, os meninos. Aos 14 anos, um garoto dirige como gente grande. O videogame não tem segredo para uma criança de sete anos. A idade da razão é hoje a idade do computador. Se é assim para os que têm videogame e carro, não é diferente para os que não têm. Ou têm caco de vidro e estilete, faca e pedaço de pau. São também precoces os chamados "despossuídos". Um antigo relatório dos anos 50 falava em "desvalidos". Da sorte acrescentava.
Era o tempo do SAM, uma abjeção. Uma denúncia dramática liquidou a sigla e o respectivo Serviço de Assistência ao Menor. No lugar veio a Funabem. Outra sigla, outra torpeza. Agora é a Febem. Duas sílabas. "Fe" de felicidade e "bem" de bem-estar. Ou de bem aventurança. Era isto, presumo, o que estava na cabeça dos que bolaram o Estatuto da Criança e do Adolescente. Absoluta prioridade para a criança, garante a Constituição.
Aí a gente vê o que vê na televisão. Tatuapé é um filme de horror. Ao vivo e real. O drinque desce redondo, como se diz. E o jantar está na mesa. Ainda bem que é fácil apagar das nossas retinas fatigadas aquele trecho do inferno. Tatuapé mancha, nódoa social, se desmancha. Não será um tatu a pé que vai atrapalhar nossa digestão. Viva o trocadilho. Mais um pouco e um grupo de extermínio é apenas um esportivo grupo de caça. Ao tatu, por exemplo.
Quando a República foi proclamada, há 102 anos já estava no ar o discurso. Podem checar. Uma bela retórica. A república ía alfabetizar e pôr na linha todos os brasileirinhos, livres enfim do atraso. E começou o enxurro de exposição de motivos, discursos, leis e códigos. Hoje é difícil saber o que é maior. Se o papelório ou se o problema. Aí vem a ideia luminosa: por que não baixar a idade? Aos 16 anos, o menor pode, sim, ser responsável.
Criminalmente responsável. Deixa de ser menor. Por que não aos 14 anos? Ou aos sete? Por que não ao nascer? É isto mesmo: todo bebê é um criminoso. E nato!
Folha de São Paulo. 10 abr. 1992. Acervo Instituto Moreira Salles.
Marque o excerto em que não há ironia, sentido oposto para enfatizar o discurso.
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Tema central: Interpretação de Texto, com foco na identificação de ironia, uma figura de linguagem comum em textos opinativos e críticos.
Conceito-chave: Ironia ocorre quando se expressa uma ideia para, na verdade, sugerir ou enfatizar o sentido oposto do que se diz explicitamente – geralmente de forma crítica ou sarcástica. Como destaca Evanildo Bechara, a ironia “consiste em dar às palavras sentido contrário ao seu significado usual”.
Análise da alternativa correta:
D) "Era o tempo do SAM, uma abjeção."
Esse trecho apresenta um juízo de valor direto sobre o SAM, chamado literalmente de “uma abjeção” (algo desprezível). Não há sentido oposto, exagero com finalidade crítica, nem sarcasmo – é uma crítica explícita. Dessa forma, não há ironia, pois o autor não disfarça sua opinião, apenas a afirma categoricamente.
Análise das alternativas incorretas:
- A) "Não será um tatu a pé que vai atrapalhar a nossa digestão."
Usa o trocadilho com “Tatuapé” e minimiza ironicamente o problema, tratando-o como algo irrelevante para a vida cotidiana, embora seja grave. - B) "Tatuapé mancha, nódoa social, desmancha."
Pretende ironizar ao sugerir de modo falso que problemas sérios (manchas sociais) se apagam facilmente do imaginário da sociedade. - C) "É isto mesmo: todo bebê é um criminoso."
Aqui, o absurdo da afirmação expõe sua ironia: o autor critica a proposta de punição de crianças dizendo o extremo oposto ao bom senso. - E) "Uma bela retórica."
Ironiza ao afirmar que a retórica é “bela”, quando, pelo contexto, critica discursos vazios.
Dica de prova: Sempre que o trecho utilizar exageros, afirmações aparentemente absurdas, trocadilhos ou elogios não condizentes com o contexto, desconfie de ironia. Faça a leitura invertida: “O autor quis realmente dizer isso ou está criticando algo?” Isso evita pegadinhas e fortalece sua interpretação.
Entender e identificar ironias é fundamental para o trabalho do pedagogo, pois desenvolve olhar crítico sobre textos e discursos – habilidade essencial para interpretar documentos, legislações e produções acadêmicas.
Alternativa correta: D
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Comentários
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O termo abjeção se refere a degradação que foi o temo do SAM, ou seja, ironia.
A questão quer uma que não seja irônica, ou seja, o sentido é literal!
a) não sei explicar só sei q não é letra A
b) a frase é irônica quando chama o tatuapé de mancha
c) ninguém pensa que um bebê é criminoso, esse contraste reflete a ironia
d) gabarito. a frase é literal e direta quando chama o SAM de abjeto. não há ironia, apenas verdade.
e) fala da república (algo importante) e chama-a de uma retórica (sugere algo vazio)
Marquei letra A (acredito ser "Cacofonia")
__
Quem é "SAM"?
D
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