“A mãe, os tios, os avós, todos a cercavam, nervosos e inqu...
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Festa de aniversário
Leonora chegou-se para mim, a carinha mais limpa deste mundo:
– Engoli uma tampa de Coca-Cola.
Levantei as mãos para o céu: mais esta agora! Era uma festa de aniversário, o aniversário dela própria, que completava seis anos de idade. Convoquei imediatamente a família:
– Disse que engoliu uma tampa de CocaCola.
A mãe, os tios, os avós, todos a cercavam, nervosos e inquietos. Abre a boca, minha filha. Agora não adianta: já engoliu. Deve ter arranhado. Mas engoliu como? Quem é que engole uma tampa de cerveja? De cerveja, não: de Coca-Cola. Pode ter ficado na garganta – urgia que tomássemos uma providência, não ficássemos ali, feito idiotas. Peguei-a no colo: vem cá, minha filhinha, conta só para mim: você engoliu coisa nenhuma, não é isso mesmo?
– Engoli sim, papai – ela afirmava com decisão. (...)
Batemos para o pronto-socorro da cidade. (...)
Tirada a chapa, ficamos aguardando ansiosos a revelação. Em pouco o médico regressava:
– Não engoliu coisa alguma. O senhor pode ir descansando.
– Engoli – afirmou a menininha.
Voltei-me para ela:
– Como é que você ainda insiste, minha filha?
– Que eu engoli, engoli.
– Pensa que engoliu – emendei.
– Isso acontece – sorriu o médico. – Até com gente grande. Aqui já teve um guarda que pensou ter engolido o apito.
– Pois eu engoli mesmo – comentou ela, intransigente.
– Você não pode ter engolido – arrematei, já impaciente: – Quer saber mais do que o médico?
– Quero. Eu engoli, e depois desengoli – esclareceu ela.
Nada mais havendo a fazer, engoli em seco, despedi-me do médico e bati em retirada com toda a comitiva.
SABINO, Fernando. Festa de aniversário. Disponível em https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/13185/festa-de-aniversario
No trecho acima, transcrito do texto, ocorre:
Gabarito comentado
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Comentário da Questão – Interpretação de Texto
Tema da questão: Interpretação de texto – identificação de vozes narrativas e estratégias discursivas.
Neste exercício, o aluno deve analisar um trecho do texto e perceber quem está falando e como o texto constrói a sensação de confusão e nervosismo no momento narrado. A questão exige atenção à presença de diferentes vozes (autor e personagens) e ao efeito de sentido provocado pela mistura dessas falas.
Estratégia para interpretação: Sempre que encontrar um trecho com várias falas ou pensamentos, observe:
- Quem está falando? (narrador? personagem? ambos?)
- Há marcas de oralidade? (perguntas, interrupções, mudanças de sujeito?)
- O texto apresenta confusão ou mudanças rápidas? Isso pode indicar mistura de vozes e emoções.
Palavras-chave e elementos de coesão: No trecho citado (“A mãe, os tios, os avós, todos a cercavam, nervosos e inquietos. Abre a boca, minha filha. Agora não adianta: já engoliu...”), perceba:
- Uso do discurso direto: “Abre a boca, minha filha.” – fala de um personagem.
- Discurso indireto livre: “Agora não adianta: já engoliu. Deve ter arranhado...” – mistura da voz do narrador com pensamentos do grupo.
- Alternância rápida: O texto transita entre o narrador e falas dos personagens, criando o efeito de confusão.
Análise das alternativas:
Alternativa C (Correta): “uma mistura de falas, entre a do autor e de um ou mais personagens, retratando a confusão e o nervosismo do momento da história.”
Justificativa: O trecho apresenta claramente falas dos personagens (por exemplo, a ordem "Abre a boca, minha filha") misturadas ao discurso do narrador (ao descrever a reação da família e os pensamentos que circulam). Essa alternância evidencia a confusão e o nervosismo do momento, pois há sobreposição de vozes e interrupções, recurso típico da crônica e do discurso indireto livre, como explica a Gramática Normativa de Bechara. Portanto, a alternativa C é a correta.
Por que as demais estão incorretas?
A: Diz que são exclusivamente falas dos personagens, sem a voz do autor. Errado! O trecho mescla narração (voz do autor) e falas dos personagens.
B: Afirma que é exclusiva do autor, mas confusa. Errado! Não é só o autor que fala; há falas diretas dos personagens.
D: Diz que é uma apresentação simples dos fatos, sem retratar confusão ou nervosismo na linguagem. Errado! O texto usa linguagem que transmite confusão e nervosismo.
E: Afirma que há mudança injustificada no ritmo e que não era momento de confusão. Errado! O momento é de confusão e nervosismo, e a mudança no ritmo é justificada pelo contexto.
Dica para provas: Sempre que houver alternância entre falas e narração, procure identificar as vozes presentes e como o autor utiliza a linguagem para criar efeitos de sentido. Isso ajuda a evitar pegadinhas!
Gabarito: C
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