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Q2044623 Português
Os homens que se transformavam em barbantes
Moacyr Scliar

Havia uma cidade, grande, desenvolvida. As pessoas que moravam lá eram saudáveis, simpáticas e alegres. Não me lembro o nome da cidade, porque eu tinha quinze anos quando passei por ela, levado por meu pai. Nessa época, não me preocupava com o nome, mas sim com os lugares propriamente. Acontece que, certo dia, um habitante desta cidade saiu de casa, pela manhã, dirigindo-se alegremente ao emprego. Fez todas as coisas de praxe. Cumprimentou os vizinhos, o barbeiro da esquina, o vendeiro, os colegas no ponto de ônibus, agradeceu ao motorista, ao ascensorista, sentou-se em sua mesa. Nesse dia, no fim do expediente, o homem notou que seu pulso esquerdo parecia mais fino. ―Bobagem. Impressão. Acho que estou cansado demais.‖ Foi para casa, jantou, viu telenovela, dormiu. Na manhã seguinte, o pulso tinha se afinado mais. E suas canelas pareciam de criança. Chamou a mulher. Ela ficou tão impressionada, que o homem se arrependeu de ter mostrado. Não havia dor, apenas fraqueza. Partiu para o emprego. Contente, cumprimentando as pessoas e agradecendo ao motorista e ao ascensorista. No meio da tarde, porém, não conseguiu trabalhar. O pulso estava fino e dobrava-se. Maleável, sem consistência. O homem, envergonhado, puxou a manga da camisa. O mais que pôde, para que os colegas não vissem. Mas viram. Porque o homem tinha o corpo transformado. A cabeça, única coisa normal, caiu sobre a mesa. O torso não era mais grosso que um lápis, suas pernas e braços, finos como cordéis. Mas ele estava lúcido, coerente, o cérebro não tinha sido perturbado. Além do impacto, e da surpresa ante o estranho, o homem continuava o mesmo. Levado para casa, chamaram o médico. E o médico chamou outro médico. Porque:

— Não é o primeiro. É o terceiro, nesta semana.

Os jornais noticiaram o fato e as notícias trouxeram à luz novos casos. Pela cidade inteira, acontecia aquilo, as pessoas se adelgaçavam, tornavam-se frágeis. Em pouco tempo, outro fato surgiu, ao lado dos homens que se transformavam em barbantes. Eram os que se transformavam em vidro. Tinham que ter muito cuidado, ao andar pela rua, ao trabalhar, porque podiam se quebrar com qualquer batida. Vez ou outra, os homens de vidro se desfaziam. Em plena rua, à vista de todos. Como o vidro blindex que se estilhaça por inteiro. Aquela população alegre, saudável, descontraída, começou a viver apavorada. Sem saber se, a qualquer momento, o vírus (seria vírus?) podia atacar. Mudando a pessoa em vidro ou barbante. Muitos começaram a se mudar, indo para cidades distantes. A secretaria de saúde analisou o ar, a água, tudo, em busca das causas. Mas o ar era bom, não poluído. E as águas vinham de nascentes puras ou de poços artesianos límpidos. Pensou-se que algumas pessoas podiam estar colocando elementos venenosos na comida ou em caixas de água. Investigações nada concluíram. E até hoje, nada se sabe. A cidade parece estar se habituando à possibilidade de eventualmente alguém se transmutar. Não causa mais surpresa quando um barbante é levado pelo vento ou, em dias de chuva, é tragado pela enxurrada. Ou quando os vidros se liquefazem, no momento em que uma pessoa vira a esquina ou dá um esbarrão noutra. A população se acostumou. Parece que o homem se adapta às piores condições, conformando-se com os acontecimentos. Naquela cidade, tudo é muito frágil, a vida humana tem a espessura de um fio. Ou é delgada como um vidro. Mas isto vai se constituindo na normalidade.

Extraído de: BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Cadeiras proibidas. São Paulo: Global, 1998.
Na oração "Chamou a mulher.", o elemento destacado exerce a função sintática de:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: A questão aborda a função sintática do termo destacado na oração “Chamou a mulher.”, tratando especificamente de objeto direto, conceito básico e essencial para interpretação de estrutura frasal, especialmente relevante para cargos como Agente Fiscal.

Justificativa da alternativa correta (D – Objeto direto):

Na oração, o termo “a mulher” é um complemento do verbo “chamou”. Conforme a norma-padrão, o objeto direto é o termo que completa o sentido de um verbo transitivo direto e se conecta a ele sem preposição. De acordo com Evanildo Bechara, na obra “Moderna Gramática Portuguesa”, “O objeto direto é o complemento verbal que se liga diretamente ao verbo transitivo, sem preposição, indicando o ser ou a coisa sobre a qual recai a ação verbal”.

Veja o exemplo:

“Ela comprou um presente.” – Neste caso, “um presente” é objeto direto do verbo “comprou”. Do mesmo modo, em “Chamou a mulher.”, “a mulher” é o objeto direto do verbo “chamou”.

Análise das alternativas incorretas:

A) Sujeito: Incorreta. O sujeito é oculto (“ele/ela”). “A mulher” é quem sofre a ação, não quem a pratica.
B) Adjunto adnominal: Incorreta. Adjunto adnominal serve para caracterizar ou especificar um substantivo, não para complementar o sentido do verbo, como é o caso aqui.
C) Predicativo do objeto direto: Incorreta. Predicativo do objeto atribui característica ao objeto e geralmente ocorre com verbos que indicam estado ou mudança, o que não se aplica aqui.

Estratégia para provas: Ao se deparar com verbos de ação (“chamar”, “comprar”, “ver”, etc.), verifique se o termo relacionado está sendo afetado pela ação (objeto direto) ou está praticando a ação (sujeito). Além disso, atente-se ao uso ou não de preposição: objeto direto dispensa preposição, já o objeto indireto exige.

Resumo prático: Sempre pergunte: “O termo destacado completa o verbo? Há preposição?” Se completa e não há preposição, trata-se de objeto direto.

Portanto, a alternativa correta é: D) Objeto direto.

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Comentários

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Predicativo do Objeto: É uma característica atribuida pelo sujeito ao objeto.

Sujeito: Neste caso o sujeito é indetermininado, QUEM CHAMOU? ele(s) ou ela(s) (se esta na 3° Pessoa Singular ou Plural se torna indeterminado).

Adjunto Adnominal: São o que estão em volta do núcleo do SUJEITO, podendo ser adjetivos, locuções adjetivas, artigos, pronomes e numerais

Objeto Direto: Quem chama, chama alguém! (GAB D)

Alternativa D

Obs.: O sujeito é oculto, pois está na 3ª pessoa do singular.

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