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Q3918159 Português
O GRUPO DE MENSAGENS DA ESCOLA E A AVALANCHE DE ÁUDIOS



    O grupo de mensagens da escola tinha um nome que prometia serenidade: “Famílias 2026”. O diretor Miguel até acreditou, no começo. Salvou o contato, fixou no topo e pensou que, agora, a comunicação ia fluir como água em bebedouro novo. Durou duas manhãs.

    Na terceira, às 6h12, apareceu o primeiro áudio. Era curto, só oito segundos, e começava com aquela frase que sempre vinha antes de um terremoto: “Bom dia, gente, rapidinho…”. O assunto era simples, um lembrete sobre a reunião pedagógica que, por algum motivo, tinha virado tema de famílias. Alguém respondeu com um emoji de polegar. Outro mandou “Ok”. Aí nasceu o efeito dominó. Às 6h18, surgiu um áudio de 1 minuto e 47 segundos, com ruído de panela ao fundo, explicando que a reunião não podia ser na quarta porque “na quarta tem natação, e natação é saúde”.

    Às 6h21, um áudio de 2 minutos e 10 segundos, com o cachorro participando, avisou que “não é reclamação, é só uma observação”, seguida de uma reclamação bem organizada, em tópicos, sem a parte dos tópicos. Às 6h24, alguém perguntou se “reunião pedagógica” envolvia os alunos, porque “pedagógico” parecia coisa de criança. Às 6h30, a mesma dúvida voltou, só que agora em caixa alta, como se a letra maior ajudasse a tirar a confusão do caminho.

    Miguel olhava aquilo com o café esfriando e um pensamento insistente: a escola tinha sinal de internet melhor do que de bom senso, e isso era uma descoberta dolorosa. Tentou ser racional. Escreveu um texto curto, com três linhas, bem objetivo. Antes de enviar, chegou mais um áudio, de 3 minutos e 52 segundos, explicando que textos “dão margem” e que áudio “é mais humano”. Miguel respirou fundo, porque, se aquilo era humano, ele estava pronto para virar planta.

    Às 7h05, um pai novo no grupo mandou “bom dia” e perguntou qual era o tema. Recebeu, em resposta, vinte mensagens, quatro áudios e uma figurinha de um gato digitando furioso. A partir daí, a conversa começou a se dividir em subgrupos invisíveis. Um falava de uniforme. Outro falava de lanche. Um terceiro tinha certeza de que tudo era sobre a saída mais cedo na sexta, embora ninguém tivesse mencionado sexta.

    Miguel decidiu que precisava salvar o dia sem brigar com ninguém. Gravou, então, um único áudio. Colocou o celular perto da janela, para o vento não entrar, e falou devagar, com calma de quem tenta apagar incêndio com um copo d’água. Explicou o que era a reunião, para quem era, por que existia e o que mudava na rotina. No fim, prometeu enviar um resumo por escrito, com tópicos, data e horário. 

    Apareceu uma mensagem: “Diretor, obrigada. Só uma coisa: pode mandar em áudio também? Fica mais fácil.” Miguel sorriu, daquela maneira de quem ri para não chorar, e pensou que liderança, às vezes, é escolher qual barulho vale a pena organizar.


Fonte: Banca Examinadora
Considerando a organização do texto e o modo como o cotidiano escolar é narrado com humor, o gênero é:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o reconhecimento de uma narrativa breve do cotidiano com humor e fecho reflexivo, traço de crônica. Isso se evidencia em “Miguel sorriu, daquela maneira de quem ri para não chorar, e pensou que liderança, às vezes, é escolher qual barulho vale a pena organizar.”: o texto transforma um episódio banal da rotina escolar em observação mais ampla, com subjetividade e ironia, o que conduz ao gênero crônica e afasta edital, manual e notícia.

Tema central: gênero textual
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque o texto apresenta os traços centrais da crônica indicados na base: recorte de uma situação comum da vida escolar, personagem identificado, sequência temporal organizada, humor crítico e encerramento reflexivo. A abertura já instala uma cena cotidiana com ironia, o desenvolvimento explora o comportamento coletivo com comicidade, e o final extrai um sentido mais amplo da experiência narrada. Não se trata de comunicar oficialmente, instruir tecnicamente ou informar com impessoalidade, mas de recriar com leveza um episódio reconhecível do cotidiano.
B
Errada
Está errada porque edital é gênero oficial e normativa, com finalidade pública formal, linguagem objetiva e caráter prescritivo. O texto-base não convoca, regulamenta nem oficializa nada. Ao contrário, organiza-se como narrativa subjetiva e humorística, com comentários como “se aquilo era humano, ele estava pronto para virar planta”, incompatíveis com linguagem de edital.
C
Errada
Está errada porque manual exige finalidade instrucional e sequência injuntiva, com orientações de uso ou procedimentos. O texto não ensina a usar aplicativo, não apresenta passos de ação nem estrutura técnica. O grupo de mensagens é apenas o cenário do episódio narrado, não o objeto de instrução.
D
Errada
Está errada porque notícia pressupõe relato informativo com apuração e foco em fatos verificáveis, com impessoalidade relativa. Aqui, embora haja marcação de horários e sequência de fatos, esses elementos servem à progressão narrativa e ao efeito cômico. O predomínio é de subjetividade, ironia, exagero e reflexão final, não de informação jornalística.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre tema escolar e gênero institucional, além da falsa impressão de notícia causada pelos horários. Mas a marca decisiva é a combinação de cotidiano, humor e reflexão final, própria da crônica.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique primeiro a finalidade do texto: observar e recriar uma cena comum com humor não é o mesmo que informar oficialmente ou instruir.
  • Se houver personagem, sequência de ações e desfecho reflexivo sobre um episódio banal, a leitura deve se voltar para a crônica.
  • Não confunda marcação de horários ou tema factual com notícia; verifique se esses elementos servem à apuração ou à construção narrativa.
  • Antes de marcar gênero institucional, confirme se há linguagem normativa, prescritiva ou formal de comunicação oficial.

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