Qual a função sintática do termo sublinhado na frase: "Um a...

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Q3294204 Português
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética.

É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.

(Pertencer, Clarice Lispector)
Qual a função sintática do termo sublinhado na frase: "Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente"?
Alternativas

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Tema central: A questão exige o reconhecimento da função sintática de um termo na oração, mais especificamente, a identificação do adjunto adverbial, conceito fundamental de sintaxe normativa.

Justificativa da alternativa correta (A):

O termo desde o berço expressa a circunstância do tempo em que a ação verbal ocorre (“a criança sente o ambiente”). Pela gramática normativa (Cunha & Cintra, Bechara), adjunto adverbial é o termo da oração responsável por modificar o sentido do verbo, adjetivo ou advérbio, indicando circunstâncias como tempo, modo, causa, lugar etc.

Nesse contexto, desde o berço responde claramente à pergunta "desde quando?", evidenciando um adjunto adverbial de tempo. Compare:

  • Cheguei ontem. (adjunto adverbial de tempo);
  • Estudei durante a noite. (adjunto adverbial de tempo).

Desde o berço atua exatamente da mesma maneira, localizando no tempo o início da percepção da criança.

Análise das alternativas incorretas:

B) Objeto direto: Inadequado. O objeto direto completa o verbo sem preposição e responde "o quê?", "quem?". Exemplo: "Ele viu o filme." – "o filme" = objeto direto. Desde o berço não exerce essa função, pois não completa o sentido do verbo “sentir”, e sim indica circunstância.

C) Objeto indireto: Incorreto. Esse termo exige preposição regida pelo verbo e também responde "a quem?", "de quem?". Por exemplo: "Ela gosta de música." (“de música” = objeto indireto). "Desde o berço" não responde a esse tipo de pergunta nem é exigido por regência verbal.

D) Complemento nominal: Errado. O complemento nominal completa o sentido de nomes (substantivos, adjetivos, advérbios), não de verbos. Exemplo: "sede de justiça" (de justiça = complemento nominal). "Desde o berço" só modifica o verbo da oração.

Dica para concursos: Sempre identifique se o termo em análise responde “quando?”, “onde?”, “como?”, “por quê?” — quase sempre, ele será um adjunto adverbial, distinguindo-se de objetos e complementos nominais, que completam verbos e nomes, respectivamente.

Referências: Bechara, Moderna Gramática Portuguesa; Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo.

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Comentários

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Gab: A

"desde o berço" funciona como um adjunto adverbial de tempo ou de origem,

Ainda que minha mente e meu corpo enfraqueçam, Deus é minha força, ele é tudo o que eu preciso. Salmos 73:26

Frase ainda está errada pois "desde o berço" é adjunto adverbial de longa extensão e está deslocado. Deveria estar entre vírgulas.

Ordem direta: A criança sente o ambiente desde o berço.

desde o berço exerce a função sintática de adjunto adverbial de tempo..

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