Há falha no emprego da regência verbal em:

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q4115105 Português
Leia o texto e responda o que for solicitado no comando da questão.


Vocação: Guru.


A profissão de palpitar na vida alheia continua sendo um sucesso.


    Ser guru sempre foi uma excelente carreira. Houve a época dos gurus indianos como o Maharishi que, impulsionados pelos Beatles, se projetaram no mundo, passaram a ganhar em dólares e dificilmente mantiveram a dieta de arroz integral. Bandos de jovens ocidentais foram para India onde entravam em conexão com o cosmo limpando e lavando o espaço da seita, os aposentos do guru e tudo mais - para adquirir transcendência.

    Há gurus de marketing, de preparação física, de vida amorosa. Tornar-se um é muito lucrativo. Não é preciso jejuar, dormir sobre tábuas e dar exemplos diários de humildade e elevação, como os mestres indianos. Pelo contrário. Adotam a máxima de que cuidar bem do corpo é um ato espiritual - e nisso estão incluídos os menus degustação.

    Já assisti ao surgimento de vários gurus. Um deles era analista de marketing. Perdeu o emprego careta. Fiquei sem vê-lo por algum tempo. Quando nos reencontramos, ele se especializara num tratamento alternativo que, com alguns apertões em certas áreas do corpo faria a pessoa esquecer todos os traumas e desabrochar como ser humano. Não fui experimentar, não posso opinar sobre a qualidade. Mas ele estava pleno, tendo alcançado seu lugar no mundo. Os que explodem com livros e palestras ficam até ricos. Seu escopo é jogar as pessoas para cima, propor superações.

    Em geral um guru, desde novinho, fala o que é certo, errado, do que se deve fugir, e o que abraçar. Um bom livro de literatura é mais profundo sobre a vida do que qualquer um dos seus textos. Mas eles facilitam, simplificam, mastigam ideias.

    Qual a fórmula para se tornar um guru? Em primeiro lugar, a atitude de querer dar palpite na vida alheia. É preciso ter o prazer de aconselhar, encaminhar, até mesmo ameaçar com uma vida horrível caso as pessoas não sigam suas instruções.


    Fundamental também é conhecer a área sobre a qual estabelecer seus tentáculos. É preciso estar presente no que se acredita. Nunca vou esquecer do meu trauma ao conhecer um professor de ioga barrigudo. Sei muito bem que ioga não é para emagrecer. Mas... foi uma surpresa.

    Gostar de ganhar bem é um ponto importante. É preciso fazer contas, vender palestras, livros, cursos. Hoje em dia vivese uma explosão de cursos on-line, e a autoajuda é um dos terrenos mais prolíficos. É preciso acreditar no que diz, agir como prega. Com a internet, a vida de guru se tornou espinhosa, qualquer tropeço, vira meme, notícia... risco de cancelamento! 

    Os gurus que conheci ao longo da vida reuniam todas essas características. Eu prefiro não seguir gurus, nem ser um ... Não se esqueça, é perigoso deixar que alguém se aposse de sua vida. Pense bem. Só dou um conselho. Se você encontrar alguém que diz como viver, dá dicas de como agir num futuro contato com alienígenas, reflita se quer mesmo esse guru. Afaste-se e vá cuidar da própria vida. Só não deixe que ele cuide da sua. Por que é isso que ele mais ama: palpitar na vida alheia. 


(CARRASCO, Walcyr. Revista VEJA,14 de setembro de 2022.)
Há falha no emprego da regência verbal em:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: A

Fundamento decisivo: Na regência normativa tradicional, esquecer, sem pronome, é transitivo direto; esquecer-se rege a preposição de. Como o trecho “Nunca vou esquecer do meu trauma” combina esquecer sem pronome com complemento preposicionado, esse critério aponta para a alternativa A.

Tema central: Regência de esquecer
Análise das alternativas
A
Certa
O auxiliar vou não altera a regência: quem determina a forma do complemento é o verbo principal esquecer. Por isso, a construção apresentada na alternativa A configura a inadequação solicitada.
B
Errada
Em "dizem bobagens", bobagens é objeto direto de dizem. O verbo dizer admite essa construção sem destinatário expresso; portanto, a ausência de um complemento introduzido por a não constitui falha de regência.
C
Errada
O verbo prefiro recebe a oração infinitiva "não seguir regras" como objeto direto. Dentro dela, regras é objeto direto de seguir. Preferir não exige que as duas opções comparadas estejam sempre explícitas, de modo que não há complemento obrigatório ausente.
D
Errada
Facilitam, exemplificam e mastigam admitem complemento direto nas acepções empregadas, com ideias como complemento compartilhado ou recuperável na coordenação. O sentido figurado de "mastigam ideias" não produz erro de regência, e a diferença de redação em relação ao texto-base também não constitui esse tipo de falha.
Pegadinha da questão
A frequência de esquecer de sem pronome no uso corrente pode levar à aceitação de A, mas a questão exige a distinção normativa tradicional entre esquecer algo e esquecer-se de algo. Outra confusão é considerar obrigatório explicitar duas opções sempre que se emprega preferir.
Dica para questões semelhantes
  • Ao analisar esquecer, confira conjuntamente a presença do pronome e da preposição: esquecer algo ou esquecer-se de algo.
  • Em locuções como vou esquecer, identifique a regência do verbo principal; o auxiliar não autoriza a preposição.
  • Não considere obrigatórios um destinatário expresso para dizer ou um segundo termo comparativo explícito para preferir.
  • Separe falha de regência de linguagem figurada ou de diferenças entre a alternativa e a redação do texto-base.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo