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Q4115104 Português
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Vocação: Guru.


A profissão de palpitar na vida alheia continua sendo um sucesso.


    Ser guru sempre foi uma excelente carreira. Houve a época dos gurus indianos como o Maharishi que, impulsionados pelos Beatles, se projetaram no mundo, passaram a ganhar em dólares e dificilmente mantiveram a dieta de arroz integral. Bandos de jovens ocidentais foram para India onde entravam em conexão com o cosmo limpando e lavando o espaço da seita, os aposentos do guru e tudo mais - para adquirir transcendência.

    Há gurus de marketing, de preparação física, de vida amorosa. Tornar-se um é muito lucrativo. Não é preciso jejuar, dormir sobre tábuas e dar exemplos diários de humildade e elevação, como os mestres indianos. Pelo contrário. Adotam a máxima de que cuidar bem do corpo é um ato espiritual - e nisso estão incluídos os menus degustação.

    Já assisti ao surgimento de vários gurus. Um deles era analista de marketing. Perdeu o emprego careta. Fiquei sem vê-lo por algum tempo. Quando nos reencontramos, ele se especializara num tratamento alternativo que, com alguns apertões em certas áreas do corpo faria a pessoa esquecer todos os traumas e desabrochar como ser humano. Não fui experimentar, não posso opinar sobre a qualidade. Mas ele estava pleno, tendo alcançado seu lugar no mundo. Os que explodem com livros e palestras ficam até ricos. Seu escopo é jogar as pessoas para cima, propor superações.

    Em geral um guru, desde novinho, fala o que é certo, errado, do que se deve fugir, e o que abraçar. Um bom livro de literatura é mais profundo sobre a vida do que qualquer um dos seus textos. Mas eles facilitam, simplificam, mastigam ideias.

    Qual a fórmula para se tornar um guru? Em primeiro lugar, a atitude de querer dar palpite na vida alheia. É preciso ter o prazer de aconselhar, encaminhar, até mesmo ameaçar com uma vida horrível caso as pessoas não sigam suas instruções.


    Fundamental também é conhecer a área sobre a qual estabelecer seus tentáculos. É preciso estar presente no que se acredita. Nunca vou esquecer do meu trauma ao conhecer um professor de ioga barrigudo. Sei muito bem que ioga não é para emagrecer. Mas... foi uma surpresa.

    Gostar de ganhar bem é um ponto importante. É preciso fazer contas, vender palestras, livros, cursos. Hoje em dia vivese uma explosão de cursos on-line, e a autoajuda é um dos terrenos mais prolíficos. É preciso acreditar no que diz, agir como prega. Com a internet, a vida de guru se tornou espinhosa, qualquer tropeço, vira meme, notícia... risco de cancelamento! 

    Os gurus que conheci ao longo da vida reuniam todas essas características. Eu prefiro não seguir gurus, nem ser um ... Não se esqueça, é perigoso deixar que alguém se aposse de sua vida. Pense bem. Só dou um conselho. Se você encontrar alguém que diz como viver, dá dicas de como agir num futuro contato com alienígenas, reflita se quer mesmo esse guru. Afaste-se e vá cuidar da própria vida. Só não deixe que ele cuide da sua. Por que é isso que ele mais ama: palpitar na vida alheia. 


(CARRASCO, Walcyr. Revista VEJA,14 de setembro de 2022.)
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Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: Em “N茫o fui experimentar, n茫o posso opinar sobre a qualidade.”, a vírgula separa duas orações coordenadas assindéticas, sem conjunção; por isso, é inadequado classificá-las como oração principal e subordinada.

Tema central: Vírgula entre orações coordenadas
Análise das alternativas
A
Errada
A justificativa pode ser aceita em sentido amplo: em “Eu prefiro n茫o seguir gurus, nem ser um ...”, as reticências suspendem o pensamento e deixam uma continuação subentendida. Há, porém, uma imprecisão: o referente de “um” já é recuperável pelo contexto, sem exigir complemento expresso. Não se deve concluir que as reticências marcam obrigatoriamente a omissão de uma palavra específica.
B
Errada
As duas vírgulas delimitam o adjunto adverbial temporal “desde novinho”, intercalado entre o sujeito e o predicado. Assim, a justificativa pelo deslocamento do adjunto é adequada; não há separação indevida entre sujeito e verbo.
C
Errada
Na frase apresentada pela alternativa, as reticências introduzem uma pausa expressiva, e a exclamação reforça a surpresa enunciada. Por isso, essa justificativa não é a inadequada prevista pelo gabarito. Há uma ressalva na elaboração: o texto-base traz “Mas... foi uma surpresa.”, com ponto final, e não com exclamação.
D
Certa
Não ter experimentado o tratamento fundamenta, no contexto, a impossibilidade de avaliar sua qualidade, mas esse vínculo de sentido não estabelece subordinação. O erro está na classificação das orações, não no emprego da vírgula.
Pegadinha da questão
O comando pede a justificativa inadequada, não uma frase necessariamente mal pontuada. A confusão decisiva é tomar a relação lógica entre as orações de D como dependência sintática.
Dica para questões semelhantes
  • Ao avaliar a justificativa de uma vírgula, verifique se as orações têm autonomia sintática e se existe conjunção entre elas.
  • Não confunda vínculo de sentido com subordinação: uma conclusão pode aparecer em oração coordenada.
  • Quando houver duas vírgulas entre sujeito e predicado, identifique se elas delimitam uma expressão intercalada.
  • Confira se a alternativa reproduz a pontuação do texto e interprete as reticências pelo contexto, sem lhes atribuir um valor obrigatório.

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Comentários

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Não me atentei ao que o enunciado estava pedindo.

Ele queria a errada!!!!!!!

Vírgulas separando orações coordenadas e não subordinadas.

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