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Q769103 Português
Leia o texto e responda a questão:

O vagabundo na esplanada. (Manuel da Fonseca, autor português). 

A surpresa, de mistura com um indefinido receio e o imediato desejo de mais acautelada perspectiva de observação, levava os transeuntes a afastarem-se de esguelha para os lados do passeio. Pela clareira que se abria, o vagabundo, de mãos nos bolsos das calças, vinha despreocupadamente, avenida abaixo. 
Cerca de cinquenta anos, atarracado, magro, tudo nele era limpo, mas velho e cheio de remendos. Sobre a esburacada camisola interior, o casaco puído nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas, que ondulavam atrás das costas ao ritmo lento da passada. Desfiadas nos joelhos, muito curtas, as calças deixavam à mostra as canelas, nuas, finas de osso e nervo, saídas como duas ripas dos sapatos cambados. Caído para a nuca, copa achatada, aba às ondas, o chapéu semelhava uma auréola alvacenta.  
Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade. Era assim, ao que se via, o seu natural comportamento de caminhar pela cidade.
Alheado, mas condescendente, seguia pelo centro do passeio com a distraída segurança de um milionário que obviamente se está nas tintas para quem passa. Não só por educação, mas também pelo simples motivo de ter mais e melhor em que pensar.  
O que não sucedia aos transeuntes. Os quais, incrédulos ao primeiro relance, se desviavam, oblíquos, da deambulante causa do seu espanto. E à vista do que lhes parecia um homem livre de sujeições, senhor de si próprio em qualquer circunstância e lugar, logo, por contraste, lhes ocorriam todos os problemas, todos os compadrios, todas as obrigações que os enrodilhavam. E sempre submersos de prepotências, sempre humilhados e sempre a fingir que nada disso, lhes acontecia. 
Num instante, embora se desconhecessem, aliviava-os a unânime má vontade contra quem tão vincadamente os afrontava em plena rua. Pronta, a vingança surgia.. Falavam dos sapatos cambados, do fato de remendos do ridículo chapéu. Consolava-os imaginar os frios, as chuvas e as fomes que o homem havia de sofrer. Entretanto, alguém disse: 
- Vê-se com cada sujeito.  
Um senhor vestido de escuro, de pasta negra e luzidia, colocada ostensivamente ao alto e bem segura sob o braço arqueado, murmurou azedamente:  
- Que benefício trará tal criatura à sociedade?  
- Devia era ser proibido que gente desta (classe) andasse pelas ruas da cidade – murmurou, escandalizada, uma velha senhora a outra velha senhora de igual modo escandalizada. E assim, resmungando, se dispersavam, cada um às suas obrigações, aos seus problemas. Sem dar por tal, o homem seguia adiante.  
Junto dos Restauradores, a esplanada atraiu-lhe a atenção. De cabeça inclinada para trás, pálpebras baixas, catou pelos bolsos umas tantas moedas, que pôs na palma da mão. Com o dedo esticado, separou-as, contando-as conscienciosamente. Aguardou o sinal de passagem e saiu da sombra dos prédios para o sol da tarde quente de verão.  
Ao meio da esplanada havia uma mesa livre. Com o à vontade de um frequentador habitual, o homem sentou-se. 
Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pelas soalheiras um sorriso de bem-estar.
Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação. 
Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal, e enrolou-lha nas canelas. O homem apanhou-a, abriu-a. Estendeu as pernas, cruzou um pé sobre o outro. Céptico, mas curioso, pôs-se a ler. 
O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se, circunvagando nos olhos, como se gritassem: “Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!” Nas caras, descompostas pelo desorbitado melindre, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda raiva contra o homem malvestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada.  
Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sob o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:
- Não pode... 
E calou-se. O homem olhava-o com benevolência.
- Disse? 
 É reservado o direito de admissão – tornou o rapaz, hesitando. – Está além escrito. Depois de ler o dístico, o homem, com a placidez de quem, por mera distração, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:  
Que direito vem a ser esse? 
- Bem... – volveu o empregado. – A gerência não admite... Não podem vir aqui certas pessoas.
- E é a mim que vem dizer isso?
O homem estava deveras surpreendido. Encolhendo os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada pelas caras dos circunstantes. O azul-claro dos olhos embaciou-se-lhe. 
- Talvez que a gerência tenha razão – concluiu ele, em tom baixo e magoado. – Aqui para nós, também me não parecem lá grande coisa. O empregado nem podia falar. 
Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu, delicadamente: 
- Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim, não me importo.  
De acordo com o texto “O vagabundo na esplanada”, leia os itens e assinale a alternativa correta: I - A história inicia-se em uma rua do centro da cidade e, depois, a personagem principal entra em um estabelecimento, que parece ser um restaurante ou um bar. II - O trecho é predominantemente descritivo. III - As palavras tiradas do texto (esburacada, cambados, alvacenta, deambulante) são todas adjetivos. IV - Pelas vestes que usa, por sua aparência, o vagabundo passa uma imagem negativa para as pessoas que o veem. O conto contradiz essa imagem que as pessoas fazem dele. V - O vagabundo também é apresentado de maneira superior aos demais, como se estivesse acima das pessoas que o discriminavam.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é distinguir a avaliação social da caracterização do narrador: “Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade.” O trecho sustenta os itens IV e V; mantém-se D como gabarito oficial, com a ressalva de que as descrições não comprovam a predominância descritiva afirmada em II.

Tema central: Caracterização e organização textual
Análise das alternativas
A
Errada
Exclui indevidamente o item I. O homem caminha pela avenida e depois ocupa uma mesa na esplanada de um estabelecimento com atendimento e serviço de bebidas. Essa progressão sustenta o deslocamento indicado, desde que “entra em um estabelecimento” não seja entendido como ingresso obrigatório em salão fechado.
B
Errada
Exclui indevidamente o item V. A superioridade construída pelo conto é moral e discursiva, não econômica: a dignidade e a benevolência do protagonista contrastam com a raiva dos presentes. No desfecho, ele inverte a situação ao autorizar ironicamente a permanência de quem desejava excluí-lo.
C
Errada
Exclui indevidamente o item III. Nos segmentos “esburacada camisola interior”, “sapatos cambados”, “o chapéu semelhava uma auréola alvacenta.” e “da deambulante causa do seu espanto.”, as quatro palavras qualificam substantivos. Inclusive “deambulante” caracteriza “causa”, expressão que designa o protagonista.
D
Certa
A alternativa D reúne os cinco itens aceitos pelo gabarito oficial. Em I, o percurso da avenida à esplanada, com mesas, empregado, gerência e pedido de cerveja, autoriza a identificação de um estabelecimento como bar ou restaurante; não comprova entrada em recinto fechado, e a localização no centro é contextual, não expressamente declarada. Em III, “esburacada”, “cambados”, “alvacenta” e “deambulante” caracterizam, respectivamente, “camisola”, “sapatos”, “auréola” e “causa”, funcionando como adjetivos. Em IV, o narrador contrapõe a dignidade do homem à rejeição motivada por sua aparência. Em V, sua serenidade e benevolência contrastam com a hostilidade dos demais; ao pedir que a gerência os deixe ficar, ele assume ironicamente a posição de quem permite a permanência daqueles que pretendiam expulsá-lo. A ressalva está em II: há descrições detalhadas, mas a sucessão de acontecimentos, o conflito e o desfecho sustentam a organização narrativa. Assim, D é a resposta oficial preservada, sem que a objeção ao item II esteja tecnicamente resolvida.
Pegadinha da questão
Confundir a presença de descrições extensas com predominância descritiva. Essa distinção exige ressalva ao item II: o detalhamento de roupas, aparência e gestos não elimina a organização narrativa dos acontecimentos.
Dica para questões semelhantes
  • Para avaliar a predominância tipológica, examine a organização global: sucessão de ações, conflito e desfecho, e não apenas a extensão das descrições.
  • Classifique cada palavra pelo substantivo que ela caracteriza no trecho, inclusive quando o adjetivo aparece antes dele.
  • Separe o julgamento das personagens da caracterização feita pelo narrador: a rejeição social ao protagonista não significa que o conto endosse essa rejeição.
  • Em afirmações sobre espaço, distinga o que o texto confirma do que apenas permite inferir: ocupar a esplanada não comprova entrada em recinto fechado.

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Comentários

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Não entendi, pq a questão que "a" personagem principal. Mas "o" personagem principal não se trata do homem vagabundo?

Kerlen Aline Muller, "personagem" é um substantivo de gênero feminino por isso se diz: "a personagem", porém há gramáticas que também aceitam o artigo "o" para fazer referência ao masculino.

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