No trecho “Às sete em ponto, a escola era um mundo paralelo...

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Reunião de pais às sete da noite


   A convocação veio no bilhete dobrado, amassado no fundo da mochila, encontrado pela mãe às dez da noite, junto com um pacote de biscoito aberto e um casaco esquecido desde o inverno passado. “Reunião de pais às 19h. Comparecimento importante.” Importante, segundo a escola, é toda reunião. Segundo os pais, importante é conseguir chegar.

   Naquele dia, o pai saiu mais cedo do trabalho, o que significou sair correndo, olhando o relógio a cada três minutos e fingindo que o trânsito não existia. A mãe, que trabalhava perto, decidiu ir direto, sem passar em casa. O filho, por sua vez, avisou com a naturalidade de quem comunica a previsão do tempo: “Hoje tem reunião. A professora falou que é bom vocês irem.” Como se “bom” e “possível” fossem sempre sinônimos.

   Às sete em ponto, a escola era um mundo paralelo. Carros disputavam vaga na rua estreita, pais se equilibravam entre o salto e o chão esburacado, mães chegavam de uniforme de trabalho, alguns com crachá ainda pendurado no pescoço. Havia quem viesse de moto, de bicicleta, de ônibus lotado. E havia, claro, aqueles que não vieram, apesar dos lembretes, bilhetes e mensagens no grupo do WhatsApp da turma.

   Na sala de aula, as carteiras estavam dispostas de um jeito estranho para os adultos: pequenas demais, perto demais, coloridas demais. Algumas mães escolheram, sem perceber, a carteira onde os filhos costumam sentar. Outras preferiram o fundo, como se a velha timidez de aluno tivesse voltado, disfarçada de cansaço. O pai que conseguiu chegar, atrasado em dez minutos, entrou pedindo desculpas com o olhar. A professora respondeu com um sorriso compreensivo, típico de quem já viu essa cena muitas vezes.

   Ela começou falando das rotinas: tarefas, leitura, combinados de sala. Falou também de coisas menos visíveis, como a dificuldade de alguns alunos em se concentrar, o tanto que a turma conversa, a disputa silenciosa por atenção. Lembrou que o caderno não é apenas um objeto perdido na mochila, mas um jeito de acompanhar o que acontece ali. Enquanto explicava, olhava para aqueles adultos cansados e pensava que, de certa forma, estava dando uma aula também para eles.

   Os pais fizeram perguntas práticas: horário da prova, data do passeio, se o uniforme novo é obrigatório, se pode mandar lanche diferente. Entre uma dúvida e outra, surgiram confissões: “Ele anda muito ansioso”, “Ela diz que não consegue aprender matemática”, “Em casa está difícil fazer tarefa, porque chego tarde”. De repente, a reunião não era só sobre boletins, mas sobre vidas apertadas em agendas cheias.

   Quando a reunião terminou, pouco depois das oito, cada um saiu com uma mistura de alívio e preocupação. A professora, com pilhas de cadernos para corrigir. Os pais, com a sensação de que precisariam de mais tempo, mais paciência, mais presença. A escola fechou o portão, mas a reunião continuou na cabeça de muita gente.

   Reunião de pais às sete da noite é isso: um encontro rápido no meio de uma correria longa. Um intervalo em que escola e família se lembram, por alguns minutos, de que educar uma criança não é tarefa de um lado só, nem de um horário só.


Fonte: BANCA EXAMINADORA
No trecho “Às sete em ponto, a escola era um mundo paralelo”, o uso da expressão “mundo paralelo” configura uma
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: “Às sete em ponto, a escola era um mundo paralelo.” O critério decisivo é semântico: a expressão funciona como metáfora, sem comparação explícita, para caracterizar a escola como um espaço de dinâmica própria no contexto da reunião; por isso, a alternativa B corresponde ao efeito de sentido indicado pela base.

Tema central: metáfora contextual
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por dois motivos. Primeiro, a base classifica a expressão como metáfora, não como hipérbole. Segundo, a leitura de que a escola estaria “completamente desconectada da realidade social das famílias” contraria o texto, que mostra justamente essa realidade entrando na escola: trânsito, trabalho, cansaço, dificuldade com tarefas e agendas cheias. O sentido é de encontro entre esses mundos, não de separação absoluta.
B
Certa
A alternativa B está correta porque identifica a figura de linguagem e o efeito de sentido produzido no contexto. “Mundo paralelo” é metáfora, pois há aproximação de sentidos sem conectivo comparativo expresso. No texto, essa expressão sugere que, naquele horário, a escola passa a ser vivida pelos pais como um ambiente com regras, gestos e ritmos próprios, distintos do cotidiano externo. Esse sentido é sustentado por passagens como a chegada dos pais ainda marcados pela rotina de trabalho, o estranhamento diante das carteiras e a retomada simbólica da posição de aluno dentro da sala.
C
Errada
Está errada porque não há comparação explícita: falta qualquer conectivo comparativo que estabeleça formalmente a comparação. Além disso, a referência a “cenário de ficção científica” é uma extrapolação sem apoio textual. A expressão “mundo paralelo” foi usada no contexto cotidiano de uma reunião de pais, não para remeter a universo fantástico.
D
Errada
Está errada porque não ocorre metonímia. “Mundo” não substitui “reunião” por relação de contiguidade nem funciona como simples troca vocabular para evitar repetição. A expressão constrói uma imagem figurada do ambiente e da experiência vivida naquele momento, o que caracteriza metáfora, não metonímia.
E
Errada
Está errada porque o texto não apresenta ironia depreciativa contra a escola. O tom é empático com pais e professora, e a conclusão reforça a corresponsabilidade entre escola e família na educação da criança. Portanto, “mundo paralelo” não desqualifica o espaço escolar; apenas marca figuradamente sua dinâmica própria naquele contexto.
Pegadinha da questão
A banca explora principalmente a confusão entre metáfora e comparação explícita e também induz ao erro de ler “mundo paralelo” como separação total da realidade das famílias, quando o texto mostra uma suspensão momentânea da correria, não uma ruptura com ela.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique primeiro se a aproximação de sentidos ocorre sem conectivo comparativo expresso; se sim, a tendência é de metáfora, não de comparação explícita.
  • Não interprete a expressão isoladamente: confirme o sentido figurado pelo desenvolvimento do texto ao redor dela.
  • Desconfie de alternativas que radicalizam o sentido com palavras como “completamente” quando o texto mostra nuance ou aproximação.
  • Antes de marcar metonímia, confirme se há substituição por contiguidade; se houver imagem por semelhança, o campo é outro.

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Comentários

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Comparação: relação de comparação entre dois ou mais termos, separados por conjunção.

Metáfora: comparação implícita entre dois ou mais termos.

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