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Q3544948 Português
'Ato jurídico perfeito e acabado'

1 Waldir Maranhão, o intrépido, fez das suas nesta semana. Logo depois que o nobilíssimo deputado perpetrou o que perpetrou, começou um desfile de opiniões e pareceres de juristas, políticos etc. Muitos deles disseram mais ou menos isto: "Waldir Maranhão alterou um ato jurídico perfeito e acabado".

2 Tomada ao pé da letra (mas muuuuito ao pé da letra), a expressão "perfeito e acabado" é pleonástica, redundante. O caro leitor já sabe do que estou falando? No uso efetivo da língua, sabemos todos que "perfeito" significa "em que não há defeito". É essa a primeira definição do "Houaiss" para "perfeito". A versão eletrônica do "Aulete" diz quase a mesma coisa: "Livre de defeito, que só possui boas qualidades".

3 Então por que será que afirmei que, ao pé da letra, mas muuuuito ao pé da letra, a construção "perfeito e acabado" é redundante?

4 Vamos pensar. "Beijado" é o particípio do verbo "beijar", certo? E "sofrido"? É do verbo "sofrer", assim como "resistido" é do verbo "resistir". Mais um pouquinho: "desfeito" é o particípio de "desfazer", assim como "refeito" é o de "refazer". E "perfeito"? É o particípio do verbo... Ou não é particípio coisa nenhuma? Sim, "perfeito" vem ao mundo como particípio (do verbo...).

5 De que verbo, caro leitor? Quer um empurrão? Vamos lá: "fazer/feito", "desfazer/desfeito", "refazer/refeito", "satisfazer/satisfeito"... Já sabe? Lá vai: "perfeito" é o particípio do verbo "perfazer", que significa...

6 Vamos ao "Houaiss", que dá estas três definições: "1. Tornar completo o número ou o valor de; 2. Dar conclusão a; terminar de fazer; 3. pôr em execução, fazer, realizar".

7 Os mais velhos certamente se lembram do uso de "perfazer" em frases como "Essa despesa perfaz X reais". Hoje em dia, pouco se ouve ou lê esse verbo, de cuja formação faz parte o prefixo latino "per-", o mesmo que se encontra, com os seus diversos matizes semânticos, em "perseguir", "pernoitar", "perdurar", "perpétuo", "perturbar" etc.

8 Por acaso nesse meio-tempo o caro leitor se lembrou dos nomes dos pretéritos do indicativo (imperfeito, perfeito e mais-que-perfeito)? 

9 O pretérito perfeito assim se chama porque expressa um fato acabado, totalmente concluído: "O intrépido Waldir Maranhão anulou a sessão da Câmara de 17 de abril e logo depois anulou essa anulação".

10 A forma verbal "anulou", do pretérito perfeito do indicativo, expressa fato passado totalmente concluído, por isso mesmo perfeito. A esta altura, é provável que muita gente já esteja esperando que a conversa se estenda aos outros pretéritos do modo indicativo (o imperfeito e o "assustador" mais-que-perfeito).

11 Vamos lá, pois. Compare estas frases: "A literatura a fazia voar"; "A literatura a fez voar". Que diferença há entre "fazia " e "fez"? Ambas se referem a fatos passados, mas a primeira indica processos repetidos, cujo término não se conhece, enquanto a segunda se refere a um processo totalmente concluído. Se "fez" é do pretérito perfeito, "fazia" só pode ser do imperfeito.

12 E o mais-que-perfeito? Dou uma dica: "fizera" equivale a "tinha/havia feito", assim como "lera" equivale a "tinha/havia lido". Veja: "Quando cheguei, ela já resolvera (= 'tinha/havia resolvido') o problema". Como se vê, o mais-queperfeito expressa fato passado, mais velho que outro, ambos já totalmente concluídos, isto é, perfeitos. É isso.

Extraído de: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/pasquale/2016/05/1770272- ato-juridico-perfeito-e-acabado.shtml
Levando-se em conta a temática do texto bem como seu gênero, podemos afirmar corretamente que:
Alternativas

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A questão aborda , especificamente a identificação do e as presentes no texto analisado.

A alternativa é a correta pois afirma que o texto .

O texto “fala da própria linguagem”, analisando expressões como “ato jurídico perfeito e acabado”, explicando seu significado, origem e uso, o que é (Jakobson, ).

A abordagem do autor busca o leitor, com explicações detalhadas e exemplos comparativos, como no trecho: . Isso caracteriza um , voltado para a instrução, como destacam gramáticas de referência (Bechara, ).

O texto é coeso e se baseia em fatos reais e análises linguísticas, não trata de fatos desconexos. Não se trata de ficção, mas de análise real e objetiva sobre a língua portuguesa. Textos injuntivos dão ordens ou instruções diretas, o que não é o caso; além disso, função autoconativa não é reconhecida como clássica. Não possui traços líricos nem é ficcional; é um texto dissertativo-expositivo, com objetivo de esclarecer, e não de poetizar.

Ao ler o texto, busque identificar:

A alternativa é correta, pois o texto analisa fenômenos linguísticos da própria língua e possui um tom explicativo, o que evidencia função metalinguística e caráter didático.

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