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Ano: 2021
Banca:
Instituto Consulplan
Órgão:
Prefeitura de Ervália - MG
Provas:
Instituto Consulplan - 2021 - Prefeitura de Ervália - MG - Enfermeiro ESF
|
Instituto Consulplan - 2021 - Prefeitura de Ervália - MG - Professor de Inglês (Séries Iniciais 1º ao 5º Ano) |
Q4386047
Não definido
Texto associado
Poesia expressa na era da pressa
Se quase não temos mais tempo para ler romances no
mundo da pressa, da TV, do cinema e dos videogames, então é
tempo de ler poesia? Viveríamos hoje a vingança da poesia, o
seu dia D, o momento propício para seu retorno a um mundo
tão violentamente prosaico? A questão foi lançada pela ensaísta
americana Camille Paglia, numa animada entrevista publicada
pelo caderno “Mais!”, da Folha de São Paulo, e a revista Cláudia
me repassa inesperadamente a bola, perguntando: a poesia
ganha uma importância nova na era da internet? Ela tem mais
chance num mundo como o nosso? De fato, de um ponto de
vista puramente quantitativo, como diz Camille, um romance
consome dias ou semanas de nosso tempo, exigindo uma
atenção continuada, num mundo em que tudo em volta faz com
que nossa atenção se interrompa e se disperse em mil assuntos.
Já um poema pode ser lido em minutos, às vezes em segundos.
O poema é uma autêntica pílula literária, em cuja concentração
Camille Paglia vê a possibilidade de uma revitalização da literatura em nosso tempo.
Considero que exaltar a poesia é sempre bom, assim como
apostar na força dela: por que não? E o que a ensaísta americana
está fazendo é, de fato, mais uma aposta muito afirmativa no
poder da poesia do que um raciocínio automático e simplório
que dissesse: como não temos tempo para ler romances, leremos
poemas!
A questão que ela está colocando, na verdade, é: precisamos aprender – ou reaprender – hoje a ler poesia. Lembremos que no Brasil a questão é ainda mais embaixo, porque
lemos muito pouco, pouquíssimo, seja poesia, seja prosa, e
precisamos, portanto, aprender a ler, no sentido mais amplo da
palavra. Mas, dito isso, vamos voltar ao começo e retomar a
pergunta: de quanto tempo precisamos, de fato, para ler um
poema? Quanto tempo ele nos pede?
Aqui a resposta tem que ser parecida à daquele pintor
que, perguntado sobre quanto tempo levara para pintar um
determinado quadro, respondeu, cheio de razão: a vida inteira.
Não nos enganemos, portanto, sobre a rapidez da poesia: um
poema pede que a gente dê a ele a nossa vida inteira naquele
instante. Em outras palavras, um poema exige pouco do nosso
tempo horizontal, cronológico e linear. Ele exige tudo do nosso
tempo vertical, aquele que vai bater lá no sem fundo da
lembrança, na aura sutil dos afetos, na dor e no espanto de
existir, e na descoberta de que as palavras, que nos parecem
naturais, não param de dançar um jogo infinito. O poema exige
um tempo intenso, em outra dimensão – por isso ele não é
óbvio nem fácil, embora se entregue com súbita facilidade a
quem se entrega a ele e o descobre de repente. [...]
(WISNIK, José Miguel. A poesia expressa na era da pressa. São Paulo:
Revista Claudia. Ed. Abril. Julho 2005. Adaptado.
Indique, a seguir, o trecho que apresenta marcas de linguagem
que apontam para determinado posicionamento do autor.