João Branco: O que aprendemos com o Homem-Aranha sobre trabalho
A história de Peter Parker com seu novo uniforme, que
tem mais ferramentas que o parasita, é um alerta para
o desequilíbrio no trabalho.
Você recebeu uma proposta de trabalho. Vai
continuar fazendo o mesmo tipo de função que sabe
fazer, mas de uma nova forma: com ferramentas mais
modernas e novos recursos que prometem aumentar
muito a sua produtividade. Nessa nova vaga seria
possível causar um impacto ainda maior, gerar mais
resultados e, provavelmente, ter uma sensação maior de
realização no seu emprego. Parece muito interessante.
Se essa história fosse um filme, como você acha que
seria o final?
Roteiristas profissionais sabem que um dos
ingredientes mais importantes para uma bilheteria de
sucesso é a criação de uma sensação de “eu me vejo
nessa história” no público. As relações familiares da
série “This is us”, as tramas da novela “Avenida Brasil”
ou o desafio de criar uma criança cheia de energia do
desenho “Masha e o Urso” são bons exemplos de
roteiros que conseguem retratar situações que nos
representam, ainda que através de personagens
totalmente diferentes de nós. Repare que isso acontece
em toda história que chamou a sua atenção. Existe muito
mais esforço do que você imagina na criação de peças
de comunicação, shows, entretenimento e até
propagandas. Todos estão tentando, o tempo todo, criar
um vínculo especial com você. E fazem isso
intencionalmente mostrando um Bart Simpson que
tenha um toque de rebeldia que talvez você gostaria de
extravasar. Ou colocando na rainha Elsa, do filme
Frozen, um peso de “responsabilidade” parecido com o
que você sente no dia a dia.
É nesse contexto que os filmes recentes do HomemAranha me chamaram a atenção. Peter Parker descobriu
um uniforme novo, uma versão preta, que traz vários
benefícios. A nova versão é mais resistente e consegue
se regenerar sozinha se for rasgada. Também produz a
própria teia, economizando tempo com os fluidos e
lançadores. Isso sem falar que esse novo uniforme é
capaz de se transformar em qualquer roupa. É como a
primeira situação desse texto. O personagem encontrou
uma forma muito mais produtiva de realizar o seu
trabalho. Parece legal, não? Mas a realidade foi bem
diferente. Depois que virou o Homem-Aranha com a
roupa preta, Peter ficou estafado. O tempo todo. Seu
trabalho já era cansativo, mas agora estava muito pior.
Algo mudou. E com o tempo ele descobriu que o
uniforme tinha “vida própria”. À noite, mesmo
dormindo, a roupa o fazia sair pela janela lançando teias
por aí. E não o deixava descansar. Na ficção eles
perceberam que a sua ferramenta de trabalho era um
simbionte, uma espécie de parasita que começou a
tomar controle sobre a pessoa.
Vamos tirar todo o efeito Hollywood dessa história
por um instante? Estamos falando de uma situação em que alguém se sente “aprisionado” pelo seu emprego.
Alguém que está muito cansado, que não se sente mais
no controle. Parece que o trabalho tem os seus próprios
propósitos e que nós estamos apenas seguindo o que ele
nos manda fazer como se fôssemos zumbis. Essa
metáfora não estaria em um longa-metragem da Marvel
se não gerasse identificação em muita gente. E leva a
uma reflexão importante: é você que tem o seu trabalho
ou é o seu trabalho que tem você?
Trabalhar é algo necessário e ser produtivo traz
sentimentos de satisfação. Buscar ferramentas e
recursos que nos tornem mais eficientes pode dar um
turbo positivo nisso tudo. Mas existe um limite onde a
nossa atividade profissional deixa de ser algo que nos
serve para se transformar em algo que recebeu uma
prioridade maior do que deveria. Esse limite se percebe
pelo cansaço excessivo, pelo desequilíbrio com as
outras áreas da vida e pela sensação de piloto
automático. E isso pode acontecer até mesmo em quem
tem um trabalho tão importante quanto o de um superherói.
Como está a sua relação com a sua carreira? É o seu
emprego que está decidindo se você deve ou não ficar
casado? É o trabalho que define se você pode ter filhos?
É a sua profissão que te “obriga” a tomar remédios
antidepressivos? Talvez você esteja usando o uniforme
mais “moderno” do Peter Parker.
Para ajudar a “salvar o mundo” ou fazer qualquer
outro tipo de trabalho bem-feito, primeiro é preciso
estar bem. Com grandes poderes, vêm grandes
responsabilidades. Mas não deixe que venha também
uma grande dor de cabeça maior do que você pode
suportar.
BRANCO, João. O que aprendemos com o Homem-Aranha sobre trabalho? Forbes Brasil.
No trecho “Essa metáfora não estaria em um longa-metragem da Marvel se não gerasse identificação em
muita gente.” (4º parágrafo), a combinação de tempos e
de modos verbais sugere ao leitor que o autor elabora
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