A Corregedoria encaminha à Procuradoria notícia de que serv...

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Q4196252 Direito Penal
A Corregedoria encaminha à Procuradoria notícia de que servidor municipal responsável pela emissão de certidões de regularidade fiscal passou a condicionar a liberação de documentos ao pagamento de "taxa extra" diretamente em sua conta pessoal. Em um dos atendimentos, o contribuinte gravou a conversa na qual o servidor afirmou que, sem o pagamento, a certidão ficaria "parada por tempo indeterminado", embora todos os requisitos legais já estivessem cumpridos. Em outro procedimento, apurou-se que o mesmo servidor havia recebido valores de terceiros para acelerar processos administrativos. O Procurador deve classificar juridicamente a conduta principal narrada, distinguindo exigência de vantagem indevida, solicitação ou recebimento de vantagem, apropriação de bem público e retardamento de ato por interesse pessoal.

Considerando os crimes contra a Administração Pública e o núcleo da conduta praticada pelo servidor, assinale a alternativa CORRETA.
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: Código Penal, art. 316, caput: "Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida:". No caso, o servidor condicionou a liberação de certidão já devida ao pagamento de "taxa extra" em sua conta pessoal, o que caracteriza exigência de vantagem indevida em razão da função e conduz ao enquadramento por concussão.

Tema central: Concussão e distinções
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque o núcleo típico narrado no enunciado é exigir vantagem indevida mediante abuso da função pública. A certidão deveria ser expedida, todos os requisitos legais estavam preenchidos, e o servidor impôs o pagamento como condição para praticar o ato funcional. Isso corresponde exatamente ao verbo nuclear do art. 316, caput, do Código Penal. A base também distingue essa hipótese da corrupção passiva: aqui não há mera solicitação ou simples recebimento, mas imposição funcional da vantagem.
B
Errada
Está errada porque prevaricação, nos termos do Código Penal, art. 319 — "Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:" — não é o núcleo principal da conduta narrada. O retardamento da certidão foi usado como meio de pressão para obter vantagem patrimonial indevida. A base é expressa em afirmar que, nesse contexto, a conduta principal se subsume à concussão, e não à prevaricação.
C
Errada
Está errada porque a concussão não depende de o ato funcional ser indevido nem da existência de dano ao Município. Segundo a base, o fato de a certidão ser efetivamente devida não afasta o crime; ao contrário, reforça o abuso funcional, pois o servidor condicionou a prática de ato devido ao pagamento indevido. Também é irrelevante, para a consumação, a ausência de prejuízo patrimonial ao ente público.
D
Errada
Está errada porque peculato por apropriação, nos termos do Código Penal, art. 312, caput — "Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio:" — exige que o funcionário tenha a posse do bem em razão do cargo. O valor pago diretamente pelo particular como vantagem indevida não é bem sob posse funcional nos termos do art. 312. Conforme a base, esse quadro, em tese, aproxima-se de corrupção passiva quando houver solicitar ou receber vantagem indevida, prevista no Código Penal, art. 317, caput — "Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:".
Pegadinha da questão
A banca explorou a confusão entre exigir vantagem indevida e apenas solicitar ou receber, além de tentar deslocar o foco para o retardamento do ato de ofício, que no caso funciona como instrumento da exigência e não como tipo principal de prevaricação.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique primeiro o verbo nuclear da conduta: exigir aponta para concussão; solicitar ou receber aponta para corrupção passiva.
  • Se o retardamento do ato de ofício serve para constranger o administrado a pagar vantagem, a tendência é de concussão, não de prevaricação.
  • Peculato por apropriação exige posse do bem em razão do cargo; propina paga por particular não preenche esse requisito.
  • Na concussão, a tipicidade não depende de dano ao ente público nem de o ato funcional ser indevido.

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Comentários

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Alternativa correta: A

Fundamentação:

A conduta principal narrada — condicionar a liberação de certidão (ato a que o contribuinte já tinha direito, com todos os requisitos legais cumpridos) ao pagamento de "taxa extra" em conta pessoal, sob ameaça de retardamento indeterminado — configura o crime de concussão (art. 316, CP):

"Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida.”

Concussão

Art. 316 - Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa. 

Na letra B o erro consiste no fato de atraso ser aumento de pena da corrupção passiva, e não peculato (317, par. 1°) e o recebimento dos valores é mero exaurimento do crime de corrupção passiva

Acrescentando: "Para a configuração do crime de PREVARICAÇÃO, exige-se o DOLO ESPECÍFICO de "SATISFAZER INTERESSE OU SENTIMENTO PESSOAL", de forma OBJETIVA E CONCRETA, NÃO SENDO SUFICIENTE a MERA NEGLIGÊNCIA, COMODISMO, DESÍDIA ou DESCOMPROMISSO FUNCIONAL."

STJ, AgRg nos EDcl no AREsp 2.693.820/SP, 5ª Turma, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 11/3/2025, DJe 19/3/2025. INFORMATIVO 846.

O PECULATO é o ÚNICO CRIME CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA que admite a MODALIDADE CULPOSA.

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