Em um cenário polarizado, no qual discussões fundamentais
são reduzidas a disputas passionais comparáveis a torcidas de
futebol, a ideia de independência segue um valor ético
indispensável.
Não falo apenas da independência política ou econômica – as
quais, cada qual a seu modo, possuem imenso valor –, mas
daquela que se desdobra no campo do pensamento: a
autonomia para refletir sem subordinação a consensos fáceis,
para agir sem a necessidade de aprovação alheia.
A independência intelectual, essa condição tão rara quanto
preciosa, me remete aos versos de Sérgio Sampaio em
"Sinceramente", quando canta: "Não há nada mais bonito do
que ser independente. E poder se conquistar, sair, chegar,
assim, tão simplesmente. Não há nada mais tranquilo do que
ser o que se sente. E poder amar, perder, chorar, depois ganhar,
assim, tão livremente. Não há nada mais sozinho do que ser
inteligente e poder cantarolar, errar, desafinar, assim,
sinceramente".
É bonito bancar o que se é, ganhar, perder, mas ser fiel a si. Em
"Minhas palavras estarão lá", a poeta feminista negra Audre
Lorde também trouxe uma importante reflexão sobre
independência, quando escreveu linhas memoráveis, que me
fortalecem sempre que as leio: "Meus críticos sempre quiseram
me ver sob uma determinada ótica. As pessoas fazem isso. É
mais fácil lidar com um poeta, certamente com uma poeta
negra, quando você a categoriza, limitando-a tanto que ela
consegue preencher suas expectativas". E Lorde continua:
"mas eu sempre senti que não posso ser categorizada, e esse
sentimento tem sido tanto minha fraqueza quanto minha força.
Tem sido minha fraqueza porque minha independência me
custou o suporte de algumas pessoas. Mas, veja você, também
tem sido minha força porque me dá o poder para seguir em
frente".
Para mulheres negras em uma sociedade capitalista, racista e
patriarcal, ser independente é um jogo de capoeira, um
encontro entre a dança e a luta. Partindo de lugares vulneráveis
economicamente, é preciso ginga para seguir, saber a hora de
desviar do golpe, a hora de golpear, entender que o silêncio,
muitas vezes, não é consenso, mas estratégia de
sobrevivência. É uma dança que exige solitude, mas que
projeta solidariedade, porque ao se libertar das amarras do
pensamento hegemônico abre-se também espaço para que
outros respirem."
RIBEIRO, Djamila. Independência ou morte: pensar de forma independente é
recusar o mito da ordem e progresso. Folha de S. Paulo, 28 ago. 2025.
O texto trata de independência intelectual, incorporando
conceitos, vozes de outros autores e imagens metafóricas
ao longo de seu desenvolvimento. Considerando sua forma
de organização, mostra-se predominante a sequência
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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