Em “Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.” (9º§),...

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Q4068937 Português
Primavera

    A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
   Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
    Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
    Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
   Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
    Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação. Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim.
    Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
    Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
    Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

(MEIRELES, Cecília. Obra em Prosa. Volume 1. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1998. Pág. 366. Adaptado.)
Em “Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.” (9º§), o travessão tem como finalidade:
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: Em “Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.”, o segmento após o travessão recebe destaque expressivo; esse critério corresponde à ênfase de uma informação indicada pela alternativa A.

Tema central: Destaque expressivo do travessão
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque o travessão separa e põe em relevo a informação sobre a transitoriedade da primavera. A expressão “e efêmera” ganha destaque diante de “dona da vida”, ressaltando que aquilo que promove a vida também é passageiro.
B
Errada
O convite ao leitor é expresso pelo verbo “Saudemos”, não pelo travessão. O segmento destacado pelo sinal, “e efêmera”, apresenta uma característica da primavera, e não uma sugestão.
C
Errada
A tonalidade afetiva do texto não define a função específica desse travessão. No trecho, o sinal realça a informação de que a primavera é efêmera; esse destaque não equivale, necessariamente, à expressão de emoção ou sentimento.
D
Errada
A ruptura produzida pelo travessão pode orientar uma pausa na leitura, mas não determina que ela seja longa. Sua finalidade contextual é destacar a caracterização final da primavera, não estabelecer a duração da pausa.
Pegadinha da questão
Confundir a função local do travessão com outros efeitos: o convite está em “Saudemos”, a afetividade pertence à tonalidade do texto e a possível pausa não explica, por si só, o destaque de “e efêmera”.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique o segmento destacado pelo travessão e verifique que informação recebe relevo em relação ao trecho anterior.
  • Separe o efeito do sinal de pontuação dos efeitos produzidos pelas palavras: aqui, o convite vem de “Saudemos”.
  • Não reduza a pontuação à duração de uma pausa; observe sua finalidade na construção do sentido.
  • Reconheça o contraste contextual entre as caracterizações sem concluir que a conjunção “e” se tornou obrigatoriamente adversativa.

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