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Texto para a questão.

A derrocada da fofoca


Publicado em 18/12/2023 | Paulo Pestana | Crônica

        E agora descobrimos que guardar segredos faz bem à saúde. As tais reservas – desde que positivas – aparentemente energizam os mais discretos, como se o acúmulo de boas informações alimentasse o caráter. É uma paulada na incontinência verbal dos fofoqueiros.
   
        Vivemos um tempo em que não há mais segredo. O fuxico, sabe-se, é uma daquelas coisas que separa o homem dos animais; se acompanhado de cochichos, é ainda mais cruel. Machado de Assis exercitou a fraqueza com MINÚCIAS/MINÚSSIAS em Dom Casmurro, quando o narrador faz INSINUAÇÕES/INCINUAÇÕES sobre a reputação de Capitu – e até hoje cabe DISCURSÃO/DISCUSSÃO: houve ou não a pérfida traição? Eça de Queirós também criou um fofoqueiro maldoso, João, que em O Crime do Padre Amaro, publica no jornal o artigo Os Modernos Fariseus, acusando o clérigo de tentar quebrar o SELIBATO/CELIBATO com Amélia, noiva dele. No decorrer da obra, descobrimos – também vestindo roupa de fuxiqueiros – que não era apenas uma desconfiança; ela aparece grávida. Do padre.
    
        O cordel é pródigo em candinhas, caso do Barbeiro Fofoqueiro, do Trovador Hildemar Costa: “Na língua desse elemento/ Ninguém vale um tostão/ A moça era sem virtude/ O homem sempre um ladrão/ Até mulher casada/ Entrava como safada/ Na sua concepção”, narra ele, comparando o barbeiro a um vassalo de Lúcifer.
    
        A vida real é repleta de maledicentes; todo mundo tem uma tia ou um conhecido que se mete na vida alheia. Dizem que faz parte do caráter humano, quando vários pecadilhos se unem num comentário feito só para espezinhar. E o sucesso desse tal jornalismo de celebridades mostra que há muitos leitores para coscuvilhices.
        
        Ultimamente surgiu a variedade da autofofoca, detração que a própria pessoa promove contra si, como o caso da moça que fez sexo com anão e botou o filho para gravar a cena e o violento que diz que gosta de ver a esposa transando com outro; enfim, pessoas que não apenas não escondem nada, como fazem propaganda do que seria inconfessável.
    
        Mas se a futrica prejudica, o periódico científico The Journal of Personality and Social Psychology sustenta que pessoas que receberam notícias boas e não passaram para frente se sentiram energizadas, felizes. A conclusão do estudo é que esses discretos cidadãos gostaram de participar, mesmo lateralmente, de uma ação.
    
        O que eu, leigo e ignorante, não sabia, é que existe uma ciência do segredo, um ramo da psicologia que estuda, nos recônditos da mente humana, aquilo que ninguém deveria saber. E assim foi descoberto que quem mantém informações para si por desejo próprio, impedindo o verme que impulsiona a intriga saia, tem benefícios. Ao contrário, quem guarda um segredo negativo – uma mentira, por exemplo – tende a prejudicar a saúde. Haveria uma corrosão interna provocada pela dúvida, mas nenhum psicólogo se atreve a recomendar que se passe a inconfidência ruim adiante. E agora?
    
        Quando quebrado, esses psicólogos garantem que o bom sigilo dá o mesmo prazer que oferecer um presente a uma pessoa querida, inclusive com a possibilidade de ser embrulhado e entregue no melhor momento. O fato é que, para quem se mete na vida alheia, está cada dia mais difícil ser feliz.

PESTANA, Paulo. A derrocada da fofoca. Correio Braziliense, 17 de dezembro de 2023. Disponível em: https://blogs.correiobraziliense.com.br/paulopestana/aderrocada-da-fofoca/. Acesso em: 22 dez. 2023. Adaptado

Glossário:

- Candinha: fofoca.
- Derrocada: declínio, queda.
- Detração: difamação.
- Coscuvilhices: boatos, mexericos.
- Espezinhar: humilhar, desprezar.
- Pérfido: infiel, traidor.
- Pródigo: esbanjador, gastador.
- Recônditos: ocultos, interiores.
- Vassalo: súdito, subordinado.
De acordo com a leitura do texto, o que indica a afirmação do cronista de que “o sucesso desse tal jornalismo de celebridades mostra que há muitos leitores para coscuvilhices.” (4º parágrafo)? 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto. A questão cobra sua capacidade de compreender a relação lógica entre ideias apresentadas pelo cronista e identificar quais delas são explicitadas ou inferidas a partir do trecho mencionado.

Justificativa da alternativa correta (B):

A alternativa B) “Muitas pessoas são adeptas da fofoca.” é a correta porque interpreta corretamente o trecho do texto: “o sucesso desse tal jornalismo de celebridades mostra que há muitos leitores para coscuvilhices”.
A palavra coscuvilhices significa fofocas. O cronista afirma que, já que esse tipo de jornalismo (voltado a fofocas de celebridades) faz sucesso, é porque há um grande público interessado nesse tipo de conteúdo. Ou seja: muitas pessoas gostam ou são adeptas da fofoca.

Segundo Irandé Antunes, para garantir coerência textual, é preciso capturar tanto o que está dito quanto o que está subentendido no texto. Aqui, a ideia subentendida é que o sucesso do jornalismo de fofoca depende da existência de interessados em consumir essas notícias.

Análise das alternativas incorretas:

A) “O jornalismo só faz fofoca.” – Errada. É uma generalização indevida: o jornalismo cobre muitos outros temas, não só fofocas.
C) “As celebridades são cercadas de mexericos.” – Errada. Embora seja verdade, o texto enfatiza o interesse do público e não apenas a vida das celebridades.
D) “Os leitores gostam de fofocas de sucesso.” – Errada. O sucesso se refere ao jornalismo, não às fofocas em si.
E) “O mexerico nunca atraiu um grande público.” – Errada. Contradiz completamente o texto, pois o cronista mostra justamente que há muitos interessados.

Estratégia de prova:
Leia com atenção palavras-chave como “mostra”, “sucesso”, “há muitos leitores”. Pergunte-se sempre sobre a relação de causa e consequência sugerida pelo autor. Evite alternativas que distorcem ou ampliam indevidamente o que é dito.

Referência: ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras – coesão e coerência. São Paulo: Parábola, 2005.

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