A transcrição do provérbio no 1º parágrafo

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Q2806925 Português
            Não é usual tratar da política na perspectiva da afirmação da verdade. Platão afirmou, na República, que a verdade merece ser estimada sobre todas as coisas, mas ressalvou que há circunstâncias em que a mentira pode ser útil, e não odiosa. Na política, a derrogação da verdade pela aceitação da mentira muito deve à clássica tradição do realismo que identifica no predomínio do conflito o cerne dos fatos políticos. Esta tradição trabalha a ação política como uma ação estratégica que requer, sem idealismos, uma praxiologia, vendo na realidade resistência e no poder, hostilidade. Neste contexto, política é guerra e, como diz o provérbio, "em tempos de guerra, mentiras por mar, mentiras por terra".
            Recorrendo a metáforas do reino animal, Maquiavel aponta que o príncipe precisa ter, ao mesmo tempo, no exercício realista do poder, a força do leão e a astúcia ardilosa da raposa. Raposa, leão, assim como camaleão, serpente, polvo – metáforas que frequentemente são utilizadas na descrição de políticos – não podem, com propriedade, caracterizar o ser humano moral que obedece aos consagrados preceitos do "não matar" e do "não mentir", como lembra Norberto Bobbio.
            Recorrendo a metáforas do reino animal, Maquiavel aponta que o príncipe precisa ter, ao mesmo tempo, no exercício realista do poder, a força do leão e a astúcia ardilosa da raposa. Raposa, leão, assim como camaleão, serpente, polvo – metáforas que frequentemente são utilizadas na descrição de políticos – não podem, com propriedade, caracterizar o ser humano moral que obedece aos consagrados preceitos do "não matar" e do "não mentir", como lembra Norberto Bobbio.
            Sustentar a simulação e a mentira como expedientes usuais na arena política é desconhecer a importância estratégica que a confiança desempenha na pluralidade da interação humana democrática. A confiança requer a boa-fé que pressupõe a veracidade. O Talmude equipara a mentira à pior forma de roubo: "Existem sete classes de ladrões e a primeira é a daqueles que roubam a mente de seus semelhantes através de palavras mentirosas." O padre Antônio Vieira afirmou que a verdade é filha da justiça, porque a justiça dá a cada um o que é seu, ao contrário da mentira, porque esta "ou vos tira o que tendes ou vos dá o que não tendes". Montaigne observou que somente pela palavra é que somos homens e nos entendemos. Por isso mentir é um vício maldito. Impede o entendimento.

(Celso Lafer. O Estado de S. Paulo, A2, 20 de julho de 2008, com adaptações) 

A transcrição do provérbio no 1º parágrafo

Alternativas

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Gabarito: B

Tema da questão: Interpretação de texto, com foco na função discursiva de um provérbio dentro do parágrafo (coesão e coerência).

Estratégia para resolver:

- Leia as frases anteriores ao provérbio e identifique a ideia que vem sendo construída. No 1º parágrafo, o autor descreve a tradição realista em política, na qual “política é guerra” e, nesse contexto, a mentira é admitida.

- Observe o marcador discursivo “como diz o provérbio”: ele aponta que virá um exemplo ilustrativo do que foi afirmado.

- Verifique se o provérbio antecipa, ilustra ou contradiz a ideia anterior. Aqui, o provérbio resume e ilustra o argumento de que, em “tempos de guerra”, a mentira prolifera — reforçando o quadro já apresentado.

Por que a alternativa B está correta?

O provérbio citado (“em tempos de guerra, mentiras por mar, mentiras por terra”) funciona como exemplo-síntese do que foi desenvolvido no parágrafo: a visão realista que equipara política à guerra e admite a mentira como recurso estratégico. O trecho “como diz o provérbio” sinaliza o uso de um recurso de ilustração e de reforço argumentativo, condensando a ideia central de maneira breve e expressiva. Portanto, ele ilustra, de modo sintético, o que já foi exposto.

Por que as demais alternativas estão incorretas?

A) “Antecipa, como síntese, o assunto que será desenvolvido.” — Incorreta. O provérbio não antecipa; ele aparece depois do desenvolvimento da ideia “política é guerra” e serve para fechar o raciocínio, e não para abri-lo.

C) “Introduz estranheza e incoerência no contexto.” — Incorreta. O provérbio é coerente com a metáfora “política é guerra” e harmoniza com o argumento que admite a mentira no conflito.

D) “Argumento que se contrapõe à ideia central.” — Incorreta. Não há contraposição; há reforço da tese de que, em contexto de “guerra” (política realista), a mentira se torna prática recorrente.

E) “Justifica o emprego de metáforas relacionadas a seguir.” — Incorreta. As metáforas do reino animal aparecem no parágrafo seguinte (raposa, leão etc.) e dizem respeito ao comportamento do príncipe em Maquiavel. O provérbio do 1º parágrafo não justifica essas metáforas; ele ilustra a ideia da guerra e da mentira no contexto político já trabalhado.

Dica de prova (pegadinha comum): quando houver citação entre aspas com a expressão “como diz o provérbio”, pense em ilustração/exemplificação, não em antecipação. Além disso, confira se a citação está no fim do parágrafo (sugere síntese) ou no início (poderia sugerir antecipação).

Referência normativa útil: o uso de aspas para marcar citação literal (provérbios, declarações) é recomendado pela gramática normativa (cf. Cunha & Cintra; Bechara) e por manuais de redação. Provérbios são expressões cristalizadas de uso consagrado, e sua inserção costuma cumprir função de exemplificação e de reforço argumentativo no texto, contribuindo para a coerência global.

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