Ao fazer uma citação, o enunciador pode, por meio de algum ...
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Texto 1
Mulheres falam demais
Em nossa sociedade, parece haver o mito de que “as mulheres falam demais”. Mas o que isso quer dizer, exatamente? Será que as mulheres falariam mais que os homens e, por isso, “falam demais”? Ou será que elas simplesmente falam mais do que deveriam falar? Será que haveria uma comparação quantitativa entre a fala de homens e de mulheres para ver quem fala mais? Será que haveria um ideal de fala feminina, uma pretensa “quantidade máxima de fala” “normal” para as mulheres? Essas indagações mostram, na verdade, dois mitos que podem ser facilmente desconstruídos.
Comecemos pela indagação: As mulheres falam quantitativamente mais que os homens? Essa pergunta pode ser pensada por dois vieses: o primeiro é o biológico; o segundo, cultural. Será que biologicamente a mulher está programada para usar mais a fala que o homem? A anatomia humana demonstra que a estrutura cerebral e cognitiva de homens e mulheres é idêntica, não havendo possibilidade de distinguir um dos sexos como “aquele que fala mais”, “aquele que fala melhor” ou “aquele que pode produzir mais frases por dia”. Não encontramos nenhuma evidência de natureza biológica que possa sustentar o mito de que “a mulher fala mais que o homem”.
Se o mito não encontra nenhum suporte na biologia, será que há aspectos culturais que levam as mulheres falarem mais que os homens? Alguns estudos realizados em culturas ocidentais próximas à nossa (cf. Lakoff, 1975; Tannen, 1991, 1993, 1994; Holmes, 1998, 2013; Holmes; Mayerhoof, 2008; Onnela et al., 2014, entre outros) têm apontado que os homens – sim, os homens – falam mais que as mulheres, especialmente em situações públicas, onde a posse da fala representa status. Os homens não apenas falam mais que as mulheres em situação de poder, eles também as interrompem com frequência, monopolizando a fala, como mostram estudos recentes (cf. Snyder, 2014; Robb, 2015). Isso, inclusive, levou à criação dos termos mansplaining e manterrupting, em inglês. Se, por um lado, os homens falam mais que as mulheres em situações que envolvem poder, algumas pesquisas mostram que, por outro lado, as mulheres costumam falar mais em contexto privado e familiar (Tannen, 1991, 1993, 1994; Holmes, 1998, 2013; Onnela et al., 2014). Em grupos constituídos por pares, em que normalmente não há status, as mulheres costumam ser mais loquazes. O mito parece então ter um fundo cultural. Parece que, em algumas culturas, há um “ideal de fala tácito” que as mulheres deveriam tentar atingir. Segundo esse ideal, elas devem “falar menos que os homens em situações públicas”. Portanto, nessas culturas, se uma mulher tem desenvoltura para falar em público, ela pode levar a fama de “falar demais”.
Chegamos, então, as seguintes conclusões: a) Não podemos afirmar, de maneira categórica, nem tampouco defender a ideia de que a mulher fala mais do que o homem. Como vimos, alguns estudos demonstram que, em contextos familiares e íntimos, as mulheres falam mais do que os homens. Contudo, quando a fala acontece em público, associada a status e poder, o homem não apenas fala mais que a mulher como também tende a não permitir que ela fale tanto quanto ele. b) Há nas sociedades como a nossa uma expectativa de que as mulheres falem menos do que os homens em situações públicas. Por estar situada numa estrutura social patriarcal, quando uma mulher se expressa “mais do que deveria” em público, ela pode receber julgamentos negativos.
OTHERO, Gabriel de Ávila. Mitos de linguagem. São Paulo: Parábola, 2017. p. 13-24. [Adaptado].
Gabarito comentado
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Gabarito: D
Fundamento decisivo: O critério decisivo é enunciativo: o comando pede, respectivamente, um caso de endosso e um de afastamento. Em “Os homens não apenas falam mais que as mulheres em situação de poder, eles também as interrompem com frequência, monopolizando a fala, como mostram estudos recentes (cf. Snyder, 2014; Robb, 2015)”; “Em nossa sociedade, parece haver o mito de que ‘as mulheres falam demais’”, o primeiro trecho incorpora estudos como apoio argumentativo assumido pelo autor, enquanto o segundo apresenta o conteúdo como mito social, com modalização (“parece haver”) e distanciamento. Por isso, a alternativa correta é D.
- Verifique se a fonte citada entra como apoio da tese do autor ou como discurso alheio posto sob crítica.
- Procure marcas de modalização e enquadramento, como “parece haver” e “mito”, porque elas podem sinalizar afastamento.
- Não trate pergunta problematizadora como concordância do autor com a ideia mencionada.
- Confirme sempre a ordem exigida pelo comando antes de marcar a alternativa.
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Comentários
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A) ERRADA. A primeira frase usa "mito" (afastamento) e a segunda usa "demonstra" (endosso). A ordem está invertida em relação ao que a questão pediu (pediu endosso primeiro).
B) ERRADA. Ambas as frases são casos de endosso ou constatação de fatos que o autor defende.
C) ERRADA. A primeira frase é uma pergunta retórica (gera dúvida/afastamento), e a segunda é uma constatação baseada em pesquisas (endosso). Também inverte a ordem pedida.
D) CERTA.
Endosso (Concordância): O autor utiliza termos que validam a informação.
Afastamento: O autor cita algo para questionar, criticar ou mostrar que aquilo é uma ideia alheia com a qual ele não concorda.
Endosso: "Os homens não apenas falam mais que as mulheres em situação de poder [...] como mostram estudos recentes (cf. Snyder, 2014; Robb, 2015)". Aqui, o autor usa os estudos para confirmar sua tese. Ele trata a informação como um fato comprovado. Isso é endosso.
Afastamento: "Em nossa sociedade, parece haver o mito de que 'as mulheres falam demais'". Ao chamar a frase de "mito" e usar o verbo "parece", o autor deixa claro que ele não acredita nessa afirmação. Ele a cita apenas para desconstruí-la. Isso é afastamento.
Avaliação metadiscursiva
Posicionamento do autor em relação às fontes citadas em um texto acadêmico. Eles indicam o grau de concordância e compromisso do autor com as ideias alheias.
1. Endosso (Concordância/Aprovação)
O autor endossa uma fonte quando valida, aceita ou apoia as ideias apresentadas por outro pesquisador. Ele utiliza termos que demonstram concordância e incorporam aquela ideia como parte de sua argumentação.
- Linguagem de Endosso: "demonstrou", "comprova", "destacou", "corretamente aponta", "reafirma", "evidenciou", "nossos dados coincidem com...".
- Exemplo: "Silva (2020) demonstrou com precisão que a metodologia ativa aumenta a retenção de conteúdo." (O autor concorda e usa a força da citação de Silva).
2. Afastamento (Questionamento/Crítica)
O autor utiliza o afastamento para distanciar-se de uma ideia, mostrando que ela é alheia, defasada, ou que ele não concorda com ela. É comumente usado para criticar uma abordagem, apontar limitações ou introduzir uma ideia que será refutada.
- Linguagem de Afastamento: "alega", "sustenta" (com tom cético), "supostamente", "segundo fulano...", "embora fulano afirme...".
- Exemplo: "Embora Souza (2019) alegue que o modelo é eficiente, estudos recentes mostram limitações na sua aplicação prática." (O autor cita Souza, mas se afasta da conclusão dele para criticá-la).
CADA UMA KKK
Pensei que era pra marcar a alternativa que reforçava o tema do texto (mulheres falam demais) e outra que afastava (não é verdade que mulheres falam demais)
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