Considerando o desenvolvimento cognitivo da criança de mane...

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Q4115297 Pedagogia
A solidão amiga


A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro “A chama de uma vela”, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a sua solidão?” Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

(ALVES, Rubem. Correio Popular. Em: 30/06/2002. Adaptado.)
Considerando o desenvolvimento cognitivo da criança de maneira coerente e epistemológica relacionado à aquisição da leitura e escrita por meio dos processos de alfabetização e letramento, analise as afirmativas a seguir.

I. A criança no processo de alfabetização precisa estar em contato com diferentes suportes textuais; vale salientar que apenas o contato com gêneros diversificados não garante que o aluno se alfabetize, ou seja, não o fará leitor ou escritor, é necessária a participação em atividades que explorem seus usos e funções sociais de forma significativa e contextualizada no uso de práticas cotidianas.
II. O professor alfabetizador, sob a égide do alfabetizar letrando, poderá oportunizar ao educando um momento de discussão sobre o gênero recado e explicitar a sua função social de maneira contextualizada.
III. O ensino, pautado nas concepções do alfabetizar letrando, culminou em diferentes reflexões voltadas para a distinção entre os processos de alfabetização e letramento, embora sejam processos distintos e indissociáveis, caminham sempre juntos.

Está correto o que se afirma em
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O ponto decisivo era a concepção de alfabetizar letrando aplicada às afirmativas: a alfabetização deve articular a aprendizagem do sistema de escrita ao uso social significativo da leitura e da escrita por meio de gêneros e situações contextualizadas. Como I, II e III expressam essa articulação, a alternativa correta é a A.

Tema central: Alfabetização e letramento
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque as três afirmativas são compatíveis com a concepção pedagógica de alfabetizar letrando. A afirmativa I está correta ao afirmar que o simples contato com diferentes suportes e gêneros textuais não basta, sendo necessário trabalhar usos e funções sociais da escrita em práticas significativas e contextualizadas. A II também está correta, porque discutir o gênero recado e explicitar sua função social em contexto real integra justamente o trabalho de letramento articulado à alfabetização. A III completa o núcleo conceitual cobrado: alfabetização e letramento são processos distintos, mas indissociáveis, devendo caminhar juntos no ensino.
B
Errada
Está errada porque considera correta apenas a afirmativa II e exclui indevidamente I e III. A I está de acordo com o critério de que exposição a textos, sozinha, não garante alfabetização; a III também está correta ao afirmar que alfabetização e letramento são distintos e indissociáveis.
C
Errada
Está errada porque considera correta apenas a afirmativa III e exclui indevidamente I e II. A I é compatível com a ideia de trabalho significativo com usos sociais da escrita, e a II descreve prática legítima do alfabetizar letrando ao explorar gênero textual e função social de modo contextualizado.
D
Errada
Está errada porque exclui indevidamente a afirmativa III. Essa afirmativa enuncia corretamente o ponto conceitual central da questão: alfabetização e letramento não são processos idênticos, mas também não devem ser separados pedagogicamente, pois são distintos e indissociáveis.
Pegadinha da questão
A confusão explorada foi tratar alfabetização e letramento como sinônimos absolutos, como processos separados, ou supor que apenas circular por gêneros e suportes textuais já alfabetiza automaticamente.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão trouxer alfabetizar letrando, verifique se há articulação entre aprendizagem do sistema de escrita e práticas sociais de leitura e escrita.
  • Não considere suficiente o mero contato com gêneros ou suportes textuais; a base correta exige uso significativo, função social e contextualização.
  • Se a afirmativa disser que alfabetização e letramento são distintos, confirme se também afirma sua indissociabilidade; essa é a formulação conceitual correta.

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