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Q4115292 Português
A solidão amiga


A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro “A chama de uma vela”, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a sua solidão?” Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

(ALVES, Rubem. Correio Popular. Em: 30/06/2002. Adaptado.)
No excerto “Como ele observa, ‘parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante’ [...]” (3º§), a expressão destacada significa:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: No trecho “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante.”, o adjetivo qualifica “luz”; o componente de brilho permite assinalar C (“Brilhante”) como aproximação semântica, não como equivalência integral.

Tema central: Sentido contextual de bruxuleante
Análise das alternativas
A
Errada
“Solitária” retoma o tema da solidão e uma característica atribuída à chama no parágrafo, mas não significa brilhar de maneira trêmula. A associação temática não estabelece equivalência com “bruxuleante”.
B
Errada
“Desigual” pode sugerir falta de uniformidade, mas essa associação genérica não recupera o componente de brilho presente em “bruxuleante”. O termo destacado caracteriza uma emissão luminosa trêmula, não apenas algo irregular.
C
Certa
C recupera o componente luminoso do adjetivo: a luz da vela brilha. O contexto delimita esse brilho como suave: “A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras.” Portanto, “brilhante” deve ser entendido como “que brilha”, e não como forte ou ofuscante. Nenhuma alternativa reproduz integralmente o sentido de brilho trêmulo; C é válida por aproximação semântica.
D
Errada
“Antagônica” indicaria uma relação de oposição. Embora o trecho aproxime luz e sombras, “bruxuleante” caracteriza o modo como a luz se manifesta, e não sua oposição à escuridão.
Pegadinha da questão
Confundir uma associação do contexto, como a solidão da chama, com o significado da palavra. Também é necessário evitar a leitura de “brilhante” como luz intensa ou como sinônimo perfeito de “bruxuleante”: o gabarito preserva apenas o componente de brilho.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique o elemento caracterizado pelo adjetivo: aqui, “luz” exige considerar o sentido luminoso de “bruxuleante”.
  • Diferencie significado lexical de associação temática: a solidão da vela não define o modo como ela brilha.
  • Confira quais traços a alternativa preserva: “brilhante” recupera o brilho, mas não a oscilação.
  • Use as descrições próximas para delimitar o sentido: “claridade mansa” afasta a interpretação de luminosidade intensa.

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