Com a frase – O escritor me invade, passo a pensar de dent...

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Ano: 2013 Banca: VUNESP Órgão: TJ-SP Prova: VUNESP - 2013 - TJ-SP - Contador |
Q395828 Português
                                   O que é ler?

       Começo distraidamente a ler um livro. Contribuo com alguns pensamentos, julgo entender o que está escrito porque conheço a língua e as coisas indicadas pelas palavras, assim como sei identificar as experiências ali relatadas. Escritor e leitor possuem o mesmo repertório disponível de palavras, coisas, fatos, experiências, depositados pela cultura instituída e sedimentados no mundo de ambos.
       De repente, porém, algumas palavras me “pegam”. Insensivelmente, o escritor as desviou de seu sentido comum e costumeiro e elas me arrastam, como num turbilhão, para um sentido novo, que alcanço apenas graças a elas. O escritor me invade, passo a pensar de dentro dele e não apenas com ele, ele se pensa em mim ao falar em mim com palavras cujo sentido ele fez mudar. O livro que eu parecia soberanamente dominar apossa-se de mim, interpela-me, arrasta-me para o que eu não sabia, para o novo. O escritor não convida quem o lê a reencontrar o que já sabia, mas toca nas significações existentes para torná-las destoantes, estranhas, e para conquistar, por virtude dessa estranheza, uma nova harmonia que se aposse do leitor.
       Ler, escreve Merleau-Ponty, é fazer a experiência da “retomada do pensamento de outrem através de sua palavra”, é uma reflexão em outrem, que enriquece nossos próprios pensamentos. Por isso, prossegue Merleau-Ponty, “começo a compreender uma filosofia deslizando para dentro dela, na maneira de existir de seu pensamento”, isto é, em seu discurso.


                                   (Marilena Chauí, Prefácio. Em: Jairo Marçal, Antologia de Textos Filosóficos. Adaptado)


Com a frase – O escritor me invade, passo a pensar de dentro dele e não apenas com ele... – (2.º parágrafo), a autora revela que
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-textual: em “O escritor me invade, passo a pensar de dentro dele e não apenas com ele [...] Ler, escreve Merleau-Ponty, é fazer a experiência da “retomada do pensamento de outrem através de sua palavra”, é uma reflexão em outrem, que enriquece nossos próprios pensamentos.”, a expressão “de dentro dele” indica inserção no modo de pensar do escritor, e o 3.º parágrafo confirma esse sentido como “retomada” e “reflexão em outrem”; assim, a resposta correta é a integração da reflexão da leitora ao pensamento do escritor.

Tema central: Integração ao pensamento alheio
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque introduz oposição entre a visão da leitora e a do escritor, mas o trecho descreve movimento de aproximação e interiorização do pensamento dele. O sentido de “pensar de dentro dele” é de adesão compreensiva, não de destoamento.
B
Errada
Está errada porque transforma a metáfora em apagamento total da subjetividade da leitora. O 3.º parágrafo exclui essa leitura ao afirmar que a experiência de ler é uma reflexão em outrem “que enriquece nossos próprios pensamentos”, e não que os elimina.
C
Certa
A alternativa C traduz com precisão o sentido contextual da frase destacada. “Passo a pensar de dentro dele e não apenas com ele” indica que a leitora não só acompanha externamente o escritor, mas passa a refletir a partir da lógica interna de seu pensamento. Isso é explicitado no 3.º parágrafo, que define a leitura como “retomada do pensamento de outrem” e “reflexão em outrem”, sempre com preservação da consciência do leitor, já que essa experiência “enriquece nossos próprios pensamentos”.
D
Errada
Está errada porque inverte a direção da relação descrita no texto. A autora diz “O escritor me invade” e que o livro “apossa-se de mim”, o que mostra a força do pensamento do escritor sobre a leitora, não a anulação do pensamento do escritor pelo dela.
E
Errada
Está errada porque fala em superação da perspectiva do escritor pela da leitora, ideia ausente do texto. O campo semântico empregado é o de invasão, arrastamento, retomada e reflexão em outrem, todos compatíveis com imersão no pensamento alheio, não com supremacia do leitor.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre imersão no pensamento do escritor e perda total da identidade da leitora. O texto fala em interiorização e integração reflexiva, mas preserva o pensamento do leitor ao dizer que a leitura “enriquece nossos próprios pensamentos”.
Dica para questões semelhantes
  • Leia a metáfora no contexto e confirme seu sentido no parágrafo explicativo do próprio texto.
  • Quando o texto fala em entrar no pensamento do outro, verifique se há integração, oposição ou apagamento; aqui, o verbo e as expressões apontam para integração.
  • Desconfie de alternativas com palavras de excesso, como anulação, suplantação ou desaparecimento, se o texto mencionar enriquecimento ou preservação do pensamento do leitor.

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Letra C

_______

Significado de Suplantar


v.t.d. Sobrepor os pés com força; pisar.
Transpor obstáculos; superar, exceder.
Cair aos pés de; vencer, abater ou prostrar: o lutador suplantou o adversário.
Ocasionar a saída de; obter um emprego, uma vaga e/ou uma posição com a saída da pessoa que anteriormente os ocupava: suplantou o colega no concurso do vestibular.
Coagir demonstrando certa superioridade; dominar através de uma vitória; humilhar, derrotar, vencer.

Acredito que esta interpretação, se não está incorreta, ao menos não é precisa. O gabarito diz: "sua reflexão está integrada ao pensamento do escritor." Ora, desta maneira, no momento em que ocorre o processo descrito no referido parágrafo, deveria haver um encontro dialógico, de igual para igual, no qual o pensamento do leitor se encontra com o do autor. Entretanto, o texto nos indica algo diferente: "O escritor me invade, PASSO A PENSAR DE DENTRO DELE, E NÃO APENAS COM ELE, ELE SE PENSA EM MIM ao FALAR EM MIM com palavras cujo sentido ele fez mudar. O livro que eu parecia soberanamente dominar APOSSA-SE, INTERPELA-ME, ARRASTA-ME para o que eu não sabia, para o novo." As expressões destacadas revelam que, no decurso do processo intelectual descrito pela autora, há um enfraquecimento do leitor, um arrebatamento, uma anulação, uma submissão total à perspectiva do autor. Isto fica claro, sobretudo no momento em que a autora diz pensar "NÃO APENAS COM ELE" (integração), mas "DE DENTRO DELE" (entrega absoluta, anulação do próprio pensar). Se no final do processo dialético descrito ocorre a tal integração das reflexões, tal integração não ocorre no momento dialético descrito no referido parágrafo.

Quero ser John Malcovich. kkk

Assertiva C

sua reflexão está integrada ao pensamento do escritor.

Errei, porém, analisando, acredito que a explicação esteja no último parágrafo.

" Ler, escreve Merleau-Ponty, é fazer a experiência da “retomada do pensamento de outrem através de sua palavra”, é uma reflexão em outrem, que enriquece nossos próprios pensamentos. Por isso, prossegue Merleau-Ponty, “começo a compreender uma filosofia deslizando para dentro dela, na maneira de existir de seu pensamento”, isto é, em seu discurso."

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