Assinale a alternativa cujo enunciado, devidamente pontuado,...
Leia o texto para responder às questões de números 11 a 15.
O velho
O que eu mais temo – escrevi em um dos meus agás – não é o Sono Eterno, mas a possibilidade de uma insônia eterna – o que seria uma verdadeira estopada, um suplício sem fim. Porém, em uma de minhas costumeiras noites de sonho acordado, o meu amigo morto me pediu um cigarro, e disse-me:
– Não é como tu pensas, todos nós trabalhamos numa série infinita de escritórios (cada geração de mortos num deles) onde a gente se entrega a um sério trabalho de estatística: tem-se de anotar a chegada de cada um e comunicar-lhe o respectivo número, pois isso de nomes é mera convenção terrena. O pior são os que atrapalham a escrita, morrendo antes do tempo – ou porque se mataram ou por culpa dos médicos, e estes ainda são culpados quando fazem os doentes morrer depois da hora, numa espécie de sobrevida artificial, já que os médicos (diga-se em sua honra) julgam criminosa a prática da eutanásia... Uma pena!
– E fora do expediente, o que fazem vocês?
– Bem, a hora do almoço não deixa de ser divertida por causa dos Santos: põem-se a discutir acaloradamente qual deles fez na Terra o maior número de milagres e outras futilidades.
– E Deus? Me conta como é Ele...
– Ah, o Velho? Desconfio que certa vez O vi...
– Mas conta-me lá como foi que desconfiaste de ter visto o Velho?
– Foi há tempos, eu era recém-chegado, quando uma tarde apareceu de surpresa no escritório um velhinho muito simpático. Com as mãos às costas, curvava-se sobre cada mesa, inspecionando o nosso trabalho, por sinal que me atrapalhei, errei uma palavra. Ele bateu-me confortadoramente no ombro, como quem diz: “Não foi nada... não foi nada...” Ao retirar-se, já com a mão no trinco da porta, virou-se para nós e abanou: “Até outra vez se Eu quiser!”
(Mário Quintana. Da preguiça como método de trabalho. Adaptado)
Assinale a alternativa cujo enunciado, devidamente pontuado, explica corretamente o que o amigo morto do narrador quis dizer com a frase “Uma pena!”
Gabarito comentado
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Assunto central: Interpretação de Texto e compreensão semântica de expressões idiomáticas, com atenção à análise do contexto textual.
A questão exige a identificação precisa do significado da expressão “Uma pena!” no trecho apresentado, obrigando o candidato a inferir o sentido de lamento do interlocutor em relação à atitude dos médicos diante da eutanásia.
Justificativa da alternativa correta – Letra D:
“É uma pena que os médicos não pratiquem a eutanásia, pois ela evitaria a sobrevida artificial e não atrapalharia nossa escrita.”
Esta alternativa interpreta fielmente o contexto do texto: o amigo morto lamenta que, como os médicos não praticam a eutanásia, muitos pacientes acabam permanecendo em “sobrevida artificial”. Isso acaba dificultando o trabalho de “escritório” dos mortos, pois atrapalha a “escrita” das suas estatísticas, já que esses pacientes deveriam ter tido seu fim natural anteriormente.
Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), o verbo praticar é transitivo direto (quem pratica, pratica algo); logo, “praticar a eutanásia” está gramaticalmente correto.
Análise das alternativas incorretas:
A) Erro semântico e de grafia (“autanásia” em vez de “eutanásia”). Afirma que os médicos optam por eutanásia, contrariando o texto.
B) Associa “pena” à ocorrência de erros na escrita, distorcendo o motivo do lamento do personagem.
C) Afirma que a “pena” decorre de mortes antes do tempo, quando o lamento textual refere-se à sobrevida artificial (quando vivem além do “natural” pelo esforço dos médicos).
E) Inverte o sentido do texto: diz que pessoas morrem antes do tempo porque os médicos são contra a eutanásia, o oposto do que foi narrado.
Estratégia para provas: Leia atentamente as relações de causa e consequência apresentadas pelo texto; identifique palavras de lamento, dúvida ou oposição. O sentido de “pena”, no contexto, está vinculado à ausência da eutanásia — não à morte precoce, mas ao prolongamento artificial da vida.
Em provas de interpretação, evite respostas que simplesmente reproduzam partes do texto sem explicitar relações causa-efeito ou que troquem a ordem dos fatos.
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