Os técnicos de futebol entendem os fabricantes de aparelhos de barbear. O problema deles é igual. O futebol também é, basicamente, o mesmo desde que foi inventado. Não
há muito que fazer para mudá-lo, fora detalhes. O modo de
jogar futebol pode ser completamente diferente hoje do que
era há anos, como a aparência dos aparelhos de barbear de
hoje não tem nada a ver com a da época em que o Mr. Gillette inventou sua prática lâmina, mas a ideia fundamental
permanece inalterada, e inalterável. E, no entanto, todos os
anos os fabricantes de aparelho de barbear precisam apresentar um produto novo. Todos os anos os departamentos de
marketing pedem aos departamentos de pesquisa que reinventem o aparelho de barbear, para ter o que anunciar. Duas
lâminas, três lâminas, lâminas flutuantes, lâminas convergentes, lâminas divergentes, lâminas musicais – qualquer coisa
para que o aparelho do ano passado fique obsoleto e a novidade fique irresistível. Da mesma forma, todo técnico, quando assume um novo time, deve trazer a sugestão implícita de
que vai reinventar o futebol.
As razões dadas para trocar de técnico são muitas. O
técnico que sai perdeu o ambiente, perdeu a confiança, perdeu a razão – e é sempre mais fácil trocar um técnico do que
um time inteiro. Mas a razão verdadeira é o desejo secreto de
que o novo técnico reúna os jogadores no meio do campo,
abra sua sacola e tire de lá de dentro – tará! – um outro jogo.
Um futebol inédito. Um futebol que ninguém mais tem e, portanto, invencível. O milagre ainda não aconteceu, mas todo
técnico de futebol é uma promessa do futebol reinventado.
Por isso eles levam vidas de homens santos, perambulando
pelo país entre guaridas temporárias, sabendo que é pouco
o tempo entre a adulação e o apedrejamento, a adoração e o
desmascaramento. Ou ele é um salvador ou é um charlatão.
Não tem recurso do meio-termo.
(Luis Fernando Verissimo. Ironias do tempo. 2018. Adaptado)
O uso do acento indicativo da crase está de acordo com
a norma-padrão em: