Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não e...

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Q3736920 Português
Atenção: Leia o trecho inicial do conto “O escrivão Coimbra”, de Machado de Assis, para responder à questão.

    Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, —ou depois, — um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.
    
        Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.
    
        Não deixou logo a irmandade; a esposa pode conté-lo no exercicio do cargo de mesario e levava-o as festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá. Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religido. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.
   
        Aos sessenta anos, ja não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a principio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.
    
        Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o nimero e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Contos: uma antologia, volume 11. São Paulo: Companhia das Letras, 1998) 
Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo. (2º parágrafo)
Nesse trecho, o narrador relata uma série de fatos ocorridos no passado. Um fato anterior a esse tempo passado esta indicado pela seguinte forma verbal sublinhada no texto:  
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a identificação do pretérito mais-que-perfeito simples como forma que expressa anterioridade em relação a outro fato passado. No trecho "Também tivera esta em anos verdes e maduros (...) mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo", "tivera" marca a fé religiosa como anterior ao marco passado indicado por "achou-se incrédulo", o que conduz ao gabarito E.

Tema central: valor temporal verbal
Análise das alternativas
A
Errada
"Vai" está no presente do indicativo em "Uma coisa não vai sem outra". O verbo exprime uma generalização sentenciosa sobre a relação entre fé e esperança, não um fato anterior a outro passado.
B
Errada
"Achou" está no pretérito perfeito e nomeia o fato passado que funciona como marco da narrativa nesse ponto: o momento em que ele se tornou incrédulo. Não indica passado anterior a outro passado; ao contrário, é o ponto de referência em relação ao qual "tivera" exprime anterioridade.
C
Errada
"Faltava" está no pretérito imperfeito em "Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra". Essa forma verbal apresenta um estado ou processo passado, mas não marca, por si, anterioridade em relação a outro fato pretérito específico.
D
Errada
"Era" também está no pretérito imperfeito, em construção descritiva: "Não era a fé...". Indica estado passado, sem o valor temporal de passado anterior a outro passado que a questão exige.
E
Certa
A alternativa E está correta porque "tivera" é a única forma sublinhada que indica anterioridade em relação a outro fato passado. No trecho, primeiro o escrivão tivera fé religiosa; depois, "aos cinquenta", "achou-se incrédulo". Essa relação de anterioridade é exatamente o valor do pretérito mais-que-perfeito simples cobrado pela questão.
Pegadinha da questão
A banca explora a diferença entre verbo no passado e verbo que indica passado anterior a outro passado. Por isso, pretéritos como "era", "faltava" e "achou" podem atrair quem não observa que o comando pede especificamente anterioridade relativa; além disso, "tivera" pode passar despercebido por ser forma simples menos frequente do mais-que-perfeito.
Dica para questões semelhantes
  • Leia o comando com precisão: se a pergunta pedir fato anterior a outro passado, não basta localizar qualquer verbo no passado.
  • Procure no trecho um marco pretérito de referência e veja qual forma verbal recua ainda mais no tempo.
  • Reconheça o valor de "tivera", "fizera", "chegara" etc.: essas formas podem indicar pretérito mais-que-perfeito simples.
  • Não confunda pretérito imperfeito descritivo ou pretérito perfeito narrativo com marca de anterioridade entre dois fatos passados.

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Comentários

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GABARITO: E

Bizu: Quando diz "fato anterior ao tempo passado", procure verbos terminados em " ra".

1(TEC)

PMBA

A alternativa correta é a E) tivera.

1. Análise da Alternativa Correta (tivera)

A forma verbal tivera está flexionada no Pretérito Mais-que-perfeito do Indicativo.

Função: Esse tempo verbal é utilizado para indicar um fato passado que ocorreu antes de outro fato também passado.

No texto: O narrador descreve Coimbra aos cinquenta anos (achou-se incrédulo). O fato de ele ter tido fé religiosa (tivera) aconteceu em seus "anos verdes e maduros", ou seja, é uma ação anterior ao tempo da incredulidade descrita.

2. Por que as outras alternativas estão incorretas?

Para aprender de forma definitiva, veja a classificação dos outros verbos citados:

A) vai: Está no Presente do Indicativo. No contexto "uma coisa não vai sem outra", o narrador usa o presente para expressar uma verdade universal ou um ditado atemporal.

B) achou: Está no Pretérito Perfeito do Indicativo. Indica uma ação que aconteceu e foi totalmente concluída no passado (o momento em que ele se percebeu incrédulo).

C) faltava e D) era: Estão no Pretérito Imperfeito do Indicativo. Esse tempo é usado para descrições de estados, hábitos ou situações contínuas no passado. No texto, eles compõem o cenário passado da vida de Coimbra.

Dica de Ouro para Concursos (A anatomia do Mais-que-perfeito)

As bancas adoram a desinência -ra- (átona). Para não confundir com o futuro do presente (-rá- tônico), lembre-se:

Pretérito Mais-que-perfeito: ele cantara (passado do passado).

Futuro do Presente: ele cantará (ação que ainda vai ocorrer).

No seu estudo, sempre que encontrar um verbo terminado em -ra sem acento (como fizera, dera, tivera), você está diante do "passado do passado".

Fonte: Minhas referências no notebookLM:

"A Gramatica para concursos" de Fernando Pestana

"Moderna Gramática Portuguesa" de Evanildo Bechara

AURA+EGO

E

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