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A escolha lexical do autor, especialmente na expressão fina...

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Q4114347 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.

Relação conturbada

Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver; sei seus nomes, de onde as conheço, e tenho uma imagem vaga de alguns deles, mas não sei como são nem como vou chegar até eles. Tudo que sei é que tenho oito horas e uma cadeira para pensar sobre isso.

Por oito horas o mundo se torna aquela poltrona. Você tenta se distrair, mas, no fim, é ela quem rouba sua atenção. Mesmo sentado, quase sem se mover, o corpo definha: a postura trava, o pescoço endurece, a espinha se desconcerta, os músculos enrijecem. De tempos em tempos você tenta esticar as pernas, preso num minúsculo cativeiro. Quem diria que ficar sentado cansa?

Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. Três horas de ônibus já bastam para vilanizar a cadeira: vibração constante, nervos amortecidos, a memória chacoalhada. Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?

Desta vez o ônibus é diferente; a viagem, mais longa; a cadeira, mais abusada. Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família. Alguns caminhos são mais tortuosos que outros — e umas cadeiras, mais macias que outras. Mas não essa. Oito horas depois, me sinto carne moída. Não aguento mais ficar sentado.

Texto Adaptado

SALMAR, Ian. Relação conturbada. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 512/1378/5380 . Acesso em: 16 nov. 2025.
A escolha lexical do autor, especialmente na expressão final "pertencer a lugar algum" no trecho "Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum", articula uma construção de sentido que transcende a mera referência espacial. Considerando o valor semântico das palavras e seu uso contextual, é correto afirmar que:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a leitura semântica contextual do trecho obrigatório "Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum.": nele, "pertencer" não se limita a localização física, mas aciona vínculo identitário e simbólico, o que invalida as leituras puramente objetivas e confirma a alternativa D.

Tema central: pertencimento simbólico
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque reduz "ser de lá" a simples reforço de "estar aqui". O trecho não repete a mesma informação espacial: ele opõe presença atual e origem, e culmina em "pertencer a lugar algum", o que introduz desenraizamento subjetivo. Há progressão de sentido, não paralelismo de localização objetiva sem aprofundamento.
B
Errada
Está errada porque transforma uma formulação conotativa em afirmação literal e absoluta. O texto não diz que o sujeito não reside fixamente em nenhuma localidade, nem autoriza concluir que ele não mantém vínculos com grupo social algum. Ao contrário, há referência explícita à família: "mas ainda assim é família." O sentido é de desenraizamento subjetivo, não de ausência factual de moradia fixa ou de vínculos.
C
Errada
Está errada porque o termo "exclusivamente" contraria o texto. A fadiga inclui desgaste corporal, mas não se limita a isso: o próprio núcleo "o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum" amplia o sentido para a dimensão identitária, e as perguntas internas indicam conflito afetivo e existencial. Portanto, a leitura apenas física é restritiva e incompatível com a coerência global do texto.
D
Certa
A alternativa D está correta porque lê "pertencer" no sentido que o contexto ativa: não o de ocupar um lugar, mas o de sentir-se parte dele. A construção "estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum" mostra que o sujeito está fisicamente em um lugar, tem origem em outro, mas não se reconhece plenamente integrado a nenhum. Esse sentido é reforçado pelo conflito com os vínculos familiares e afetivos, como em "Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?" e em "Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família."
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre deslocamento geográfico e pertencimento simbólico: quem lê "pertencer a lugar algum" de modo literal erra, porque o trecho converte a experiência espacial em desenraizamento identitário.
Dica para questões semelhantes
  • Em questões de semântica contextual, verifique se a palavra nomeia lugar físico ou vínculo subjetivo; aqui, "pertencer" aciona identidade, não residência.
  • Observe a progressão interna da sequência verbal: "estar aqui / ser de lá / pertencer a lugar algum" não repete a mesma ideia, mas aprofunda o sentido.
  • Desconfie de alternativas com termos absolutos como "exclusivamente" e "nenhum" quando o texto apresenta camadas de sentido.
  • Use trechos de apoio para confirmar a leitura central: dúvidas sobre voltar, ligar ou mudar e o estranhamento diante da família mostram que o conflito não é só corporal.

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