Com base nas palavras de Marilena Chauí, entende-se que ler é

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Ano: 2013 Banca: VUNESP Órgão: TJ-SP Prova: VUNESP - 2013 - TJ-SP - Contador |
Q395827 Português
                                   O que é ler?

       Começo distraidamente a ler um livro. Contribuo com alguns pensamentos, julgo entender o que está escrito porque conheço a língua e as coisas indicadas pelas palavras, assim como sei identificar as experiências ali relatadas. Escritor e leitor possuem o mesmo repertório disponível de palavras, coisas, fatos, experiências, depositados pela cultura instituída e sedimentados no mundo de ambos.
       De repente, porém, algumas palavras me “pegam”. Insensivelmente, o escritor as desviou de seu sentido comum e costumeiro e elas me arrastam, como num turbilhão, para um sentido novo, que alcanço apenas graças a elas. O escritor me invade, passo a pensar de dentro dele e não apenas com ele, ele se pensa em mim ao falar em mim com palavras cujo sentido ele fez mudar. O livro que eu parecia soberanamente dominar apossa-se de mim, interpela-me, arrasta-me para o que eu não sabia, para o novo. O escritor não convida quem o lê a reencontrar o que já sabia, mas toca nas significações existentes para torná-las destoantes, estranhas, e para conquistar, por virtude dessa estranheza, uma nova harmonia que se aposse do leitor.
       Ler, escreve Merleau-Ponty, é fazer a experiência da “retomada do pensamento de outrem através de sua palavra”, é uma reflexão em outrem, que enriquece nossos próprios pensamentos. Por isso, prossegue Merleau-Ponty, “começo a compreender uma filosofia deslizando para dentro dela, na maneira de existir de seu pensamento”, isto é, em seu discurso.


                                   (Marilena Chauí, Prefácio. Em: Jairo Marçal, Antologia de Textos Filosóficos. Adaptado)


Com base nas palavras de Marilena Chauí, entende-se que ler é
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a leitura do sentido global do texto: ler é uma experiência de interação com o pensamento de outrem e de ruptura com significações já estabilizadas. Isso é sustentado por trechos como “algumas palavras me “pegam”. Insensivelmente, o escritor as desviou de seu sentido comum e costumeiro” e “O escritor não convida quem o lê a reencontrar o que já sabia, mas toca nas significações existentes para torná-las destoantes, estranhas”, o que corresponde à alternativa A.

Tema central: interpretação de textos
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque reúne os dois núcleos centrais afirmados no texto: a leitura envolve relação entre leitor e escritor, como se vê em “passo a pensar de dentro dele” e na “retomada do pensamento de outrem através de sua palavra”, e também rompe sentidos estabilizados, pois o escritor desvia as palavras de seu “sentido comum e costumeiro” e produz um “sentido novo”. O termo “desalojamento de sentidos cristalizados” corresponde exatamente a esse movimento de tornar as significações existentes “destoantes, estranhas”.
B
Errada
Está errada porque nega uma informação expressa no texto: “Contribuo com alguns pensamentos”. O texto não apresenta a leitura como atividade sem participação pessoal do leitor; ao contrário, afirma essa contribuição e, ao mesmo tempo, mostra que ela é reconfigurada pelo encontro com o pensamento do escritor.
C
Errada
Está errada por dois motivos objetivos: contraria a ideia central de novidade e estranhamento, já que o texto afirma que as palavras são desviadas do uso comum e levam a um “sentido novo”, e introduz “ideologia dominante”, expressão que não aparece nem é sustentada pelo texto. Trata-se de extrapolação sem apoio textual.
D
Errada
Está errada porque atribui ao escritor uma “insensibilidade” inexistente no texto. “Insensivelmente” refere-se ao modo como o processo acontece para o leitor, não a uma característica psicológica do escritor. Além disso, o escritor é apresentado como aquele que produz deslocamento de sentidos e “nova harmonia”, fortalecendo a experiência de leitura, não a prejudicando.
E
Errada
Está errada porque inverte a tese explícita do texto. Ler é a “retomada do pensamento de outrem através de sua palavra”; portanto, o posicionamento do outro não se neutraliza. Ele é constitutivo da leitura, pois o leitor entra em contato com a alteridade e enriquece seus próprios pensamentos a partir dela.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre participação ativa do leitor e autonomia absoluta do leitor: o texto afirma que o leitor contribui, mas também é deslocado pelo pensamento do outro. Também há armadilha em ler “Insensivelmente” como traço do escritor e em aceitar termos abstratos sem apoio textual, como “ideologia dominante” e “neutraliza”.
Dica para questões semelhantes
  • Localize primeiro a definição central construída pelo texto, não apenas palavras isoladas das alternativas.
  • Elimine alternativas que neguem algo explicitamente afirmado, como “Contribuo com alguns pensamentos”.
  • Desconfie de opções que acrescentem conceitos não ancorados no texto, mesmo que pareçam sofisticados.
  • Quando a alternativa usar palavra diferente da do texto, verifique se ela preserva o mesmo valor semântico, como “desalojamento” em relação a “desviou de seu sentido comum e costumeiro”.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Letra a

um ato de interação =
O escritor me invade, passo a pensar de dentro dele e não apenas com ele, ele se pensa em mim ao falar em mim com palavras cujo sentido ele fez mudar.

um ato  desalojamento de sentidos cristalizados = O livro que eu parecia soberanamente dominar apossa-se de mim, interpela-me, arrasta-me para o que eu não sabia, para o novo.


Assertiva A

entende-se que ler é "um ato de interação e de desalojamento de sentidos cristalizados."

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo