Sobre o emprego verbal do trecho “O rio Lombe brilhava na v...

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Q3414589 Português
A Missão

O rio Lombe brilhava na vegetação densa. Vinte vezes o tinham atravessado. Teoria, o professor, tinha escorregado numa pedra e esfolara profundamente o joelho. O Comandante dissera a Teoria para voltar à Base, acompanhado de um guerrilheiro. O professor, fazendo uma careta, respondera: — Somos dezesseis. Ficaremos catorze. Matemática simples que resolvera a questão: era difícil conseguir-se um efetivo suficiente. De mau grado, o Comandante deu ordem de avançar. Vinha por vezes juntar-se a Teoria, que caminhava em penúltima posição, para saber como se sentia. O professor escondia o sofrimento. E sorria sem ânimo. À hora de acampar, alguns combatentes foram procurar lenha seca, enquanto o Comando se reunia. Pangu-Akitina, o enfermeiro, aplicou um penso no ferimento do professor. O joelho estava muito inchado e só com grande esforço ele podia avançar. Aos grupos de quatro, prepararam o jantar: arroz com corned-beef. Terminaram a refeição às seis da tarde, quando já o sol desaparecera e a noite cobrira o Mayombe. As árvores enormes, das quais pendiam cipós grossos como cabos, dançavam em sombras com os movimentos das chamas. Só o fumo podia libertar-se do Mayombe e subir, por entre as folhas e as lianas, dispersando-se rapidamente no alto, como água precipitada por cascata estreita que se espalha num lago. Eu, o Narrador, sou Teoria. Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura de café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não, para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta.

(Fonte: Pepetela — Adaptado.)
Sobre o emprego verbal do trecho “O rio Lombe brilhava na vegetação densa. Vinte vezes o tinham atravessado. Teoria, o professor, tinha escorregado numa pedra e esfolara profundamente o joelho. O Comandante dissera a Teoria para voltar à Base, acompanhado de um guerrilheiro. O professor, fazendo uma careta, respondera: — Somos dezesseis. Ficaremos catorze. Matemática simples que resolvera a questão: era difícil conseguir-se um efetivo suficiente”, analisar os itens abaixo:

I. O verbo “brilhava” está conjugado em modo/tempo típico de gêneros narrativos.
II. Os verbos “esfolara”, “cobrira”, “era”, “dissera”, “respondera” e “resolvera” indicam uma ação no passado ocorrida antes de outra ação também no passado.
III. O verbo “esfolara” pode ser substituído sem qualquer prejuízo gramatical pela locução verbal “havia esfolado”.
IV. Verbos no pretérito mais-que-perfeito são amplamente utilizados na linguagem coloquial de gêneros orais.

Estão CORRETOS: 
Alternativas

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Gabarito: Letra B

Tema central: Análise de tempos verbais (morfologia verbal) em contexto narrativo, com foco no pretérito imperfeito e no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, além da variação entre norma culta e linguagem coloquial.

Justificativa da alternativa correta:

I. Correto. O verbo “brilhava” está no pretérito imperfeito do indicativo, tempo verbal usado para ações habituais, contínuas ou descritivas no passado, sendo típico de gêneros narrativos. Exemplos: “Ela caminhava pela praia”, “O vento soprava forte”. Conforme Cunha & Cintra, esse tempo expressa a continuidade de um processo passado.

III. Correto. O verbo “esfolara” (pretérito mais-que-perfeito simples) pode ser substituído pela locução verbal “havia esfolado” (mais-que-perfeito composto) sem prejuízo gramatical ou de sentido, de acordo com Bechara. A forma composta é, inclusive, mais comum na oralidade e em textos atuais.

Análise dos itens incorretos:

II. Incorreto. Os verbos “esfolara”, “cobrira”, “dissera”, “respondera”, “resolvera” estão, de fato, no mais-que-perfeito, indicando ação anterior a outra no passado (exemplo: “Quando cheguei, ele já partira”). No entanto, o verbo “era” está no pretérito imperfeito, o que expressa ação contínua ou habitual no passado — não necessariamente anterior a outra ação também passada. Isso inviabiliza o item.

IV. Incorreto. O mais-que-perfeito simples (“esfolara”) é raro na linguagem coloquial, oral ou informal. Prefere-se a forma composta (ex: “tinha esfolado”), como destaca Rocha Lima. O uso do mais-que-perfeito simples é característica de registros formais e textos literários.

Dicas de interpretação e pegadinhas:

Estratégia: Sempre observe o tempo verbal de cada item e relacione ao contexto. Atenção a generalizações — como em “amplamente utilizados na linguagem coloquial” —, que costumam ser incorretas em morfossintaxe.

Resumo: Os itens I e III estão corretos, pois reconhecem o uso narrativo do pretérito imperfeito e a equivalência entre o mais-que-perfeito simples e composto. O II erra ao incluir o verbo “era”; o IV generaliza de modo indevido.

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Comentários

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II. Os verbos “esfolara”, “cobrira”, “era”, “dissera”, “respondera” e “resolvera” indicam uma ação no passado ocorrida antes de outra ação também no passado.

era está no pretérito imperfeito

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