Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiê...
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Q3929645
Português
Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas
experiências foi a de Diogo Meireles. Lavrava então na cidade
uma singular doença, que consistia em fazer inchar os narizes,
tanto e tanto, que tomavam metade e mais da cara ao paciente, e
não só a punham horrenda, senão que era molesto carregar
tamanho peso. Conquanto os físicos da terra propusessem extrair
os narizes inchados, para alívio e melhoria dos enfermos,
nenhum destes consentia em prestar-se ao curativo, preferindo o
excesso à lacuna, e tendo por mais aborrecível que nenhuma
outra coisa a ausência daquele órgão. Diogo Meireles, que desde
algum tempo praticava a medicina, segundo ficou dito atrás,
estudou a moléstia e reconheceu que não havia perigo em
desnarigar os doentes, antes era vantajoso por lhes levar o mal,
sem trazer fealdade, pois tanto valia um nariz disforme e pesado
como nenhum; não alcançou, todavia, persuadir os infelizes ao
sacrifício. Então ocorreu-lhe uma graciosa invenção. Assim foi
que, reunindo muitos físicos, filósofos, bonzos, autoridades e
povo, comunicou-lhes que tinha um segredo para eliminar o
órgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz
achacado por um nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto
é, inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou
ainda mais do que o cortado; cura esta praticada por ele em
várias partes, e muito aceita aos físicos de Malabar. A assembleia
aclamou a Diogo Meireles; e os doentes começaram de buscá-lo,
em tanta cópia, que ele não tinha mãos a medir. Diogo Meireles
desnarigava-os com muitíssima arte; depois estendia
delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes
substitutos, colhia um e aplicava-o ao lugar vazio. Os enfermos,
assim curados e supridos, olhavam uns para os outros, e não
viam nada no lugar do órgão cortado; mas, certos e certíssimos
de que ali estava o órgão substituto, e que este era inacessível aos
sentidos humanos, não se davam por defraudados, e tornavam
aos seus ofícios.
Machado de Assis. O segredo do Bonzo. In: 50 Contos de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 95.
Os elementos temáticos e estruturais do texto precedente permitem afirmar que tal composição
Machado de Assis. O segredo do Bonzo. In: 50 Contos de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 95.
Os elementos temáticos e estruturais do texto precedente permitem afirmar que tal composição