Em “enquanto saltamos de uma infelicidade a outra” (8º§), é...
O que uma pessoa compra dá uma boa noção de como ela vive. No caso do chef, tudo o que ele comprou foi para o consumo em família, para presentear um amigo e sair com a mulher.
Comprou coisas que não duram nem podem ser exibidas, mas podem tornar a relação entre as pessoas próximas a ele mais agradável e apetitosa.
[...]
Mas, na sociedade de consumo, vivemos para sermos felizes por meio do que adquirimos. Paradoxalmente, por meio daquilo que descartamos.
A aquisição de mercadorias satisfaz nossos desejos e providencia nossa felicidade. Mas os desejos são inesgotáveis. Brotam de todo contato que temos com o que existe no mundo. Um dá lugar a outro, e satisfazê-los é tarefa impossível.
Como as mercadorias são produzidas com a finalidade primeira de serem compradas, a sociedade de consumo precisa permanentemente provocar nossa insatisfação com o que temos e atiçar nosso desejo pelo que ainda não temos. Toda propaganda de alguma mercadoria sugere, subliminarmente, que aquela que temos está ultrapassada e não pode nos oferecer o que a nova poderá. Não comprá-la é ficar em falta com nós mesmos e não pertencer ao círculo especial dos que já a adquiriram.
Enredados nesse modo-contínuo de insatisfação/ descarte/consumo, compreendemos a máxima da vida: sempre seremos felizes por pouco tempo.
Toda suposta felicidade antecipa uma infelicidade. E, enquanto saltamos de uma infelicidade a outra, a almejada felicidade passa a ser um breve intervalo, sempre imperceptível.
A felicidade, substituída pela satisfação de desejos nunca aplacáveis, jamais é experimentada. O que nos resta é a ansiedade da felicidade.
As compras do chef francês sugerem que ele se desvia dessa sedução consumista. Fruir, mais do que ter. E não apenas o sabor do foie gras ou dos cogumelos, mas o prazer de repartir com amigos e familiares pequenos prazeres. Celebração e simplicidade.
O adolescente
Adolescente, olha! A vida é nova...
A vida é nova e anda nua
– vestida apenas com o teu desejo!
(QUINTANA, Mario. O livro de haicais. São Paulo: Globo, 2009.)
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Gabarito comentado
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Gabarito: C
Tema central: Interpretação de textos e figuras de linguagem, especialmente metáfora e antítese, recursos essenciais para decifrar sentidos além do literal, muito frequentes em provas de Controlador Interno.
Justificativa da alternativa correta – C:
As palavras “nua” e “vestida” são usadas de modo metafórico no poema de Mário Quintana. Metáfora é a figura de linguagem na qual uma palavra substitui outra por analogia, atribuindo-lhe sentido novo (segundo Bechara, 2009). Ao dizer que “a vida anda nua – vestida apenas com o teu desejo”, o poeta sugere que a vida é despojada, sem adornos, mas se reveste das vontades do adolescente. Assim, “nua” simboliza simplicidade, pureza, e “vestida” expressa que os desejos são o único “adereço” da vida nesse contexto, o que extrapola o uso literal comum dessas palavras.
Análise das alternativas incorretas:
A) “A vida é nova e anda nua” não é um paradoxo, mas uma metáfora. Paradoxo pressupõe uma união de ideias contrárias em uma só frase, gerando aparente contradição (ex: “É ferida que dói e não se sente”). No verso, não há essa oposição, há descrição poética da vida como pura e simples.
B) “olha” é verbo imperativo direto, usado de maneira usual para chamar a atenção, sem valor estilístico inovador nem sentido figurado, ao contrário de “saltamos”, cujo uso no texto original cria sentido figurado (mudar de uma emoção à outra).
D) A linguagem empregada é conotativa, não meramente denotativa. Termos como “nua” e “vestida” não estão em sentido literal, mas figurado. Portanto, o significado extrapola o cotidiano da linguagem rotineira, violando a afirmativa.
Estratégia de interpretação: Identifique sempre termos que mudam de sentido por estarem em contextos poéticos ou figurados. Busque pistas no texto que traduzam algo para além do óbvio (conotação), evitando interpretações pelo literal.
Referência: De acordo com Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), o emprego da metáfora enriquece o texto por permitir múltiplas interpretações, criando maior expressividade e profundidade.
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Comentários
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Gabarito: C
As palavras “nua” e “vestida” foram empregadas de modo a expressar um significado que extrapola o usual.
Sobre a letra A, na primeira expressão não há possibilidade de paradoxo, mas na segunda oração é notável a sua presença.
Qual o erro da B?
Qual o erro na letra B?
(C) As palavras “nua” e “vestida” foram empregadas de modo a expressar um significado que extrapola o usual.
Esta afirmativa quer dizer que as palavras em destaque foi usada no sentido conotativo, não usual na linguagem cotidiana.
GABARITO: C
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