Pepetela é um dos principais autores da literatura angolana ...

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A Missão

O rio Lombe brilhava na vegetação densa. Vinte vezes o tinham atravessado. Teoria, o professor, tinha escorregado numa pedra e esfolara profundamente o joelho. O Comandante dissera a Teoria para voltar à Base, acompanhado de um guerrilheiro. O professor, fazendo uma careta, respondera: — Somos dezesseis. Ficaremos catorze. Matemática simples que resolvera a questão: era difícil conseguir-se um efetivo suficiente. De mau grado, o Comandante deu ordem de avançar. Vinha por vezes juntar-se a Teoria, que caminhava em penúltima posição, para saber como se sentia. O professor escondia o sofrimento. E sorria sem ânimo. À hora de acampar, alguns combatentes foram procurar lenha seca, enquanto o Comando se reunia. Pangu-Akitina, o enfermeiro, aplicou um penso no ferimento do professor. O joelho estava muito inchado e só com grande esforço ele podia avançar. Aos grupos de quatro, prepararam o jantar: arroz com corned-beef. Terminaram a refeição às seis da tarde, quando já o sol desaparecera e a noite cobrira o Mayombe. As árvores enormes, das quais pendiam cipós grossos como cabos, dançavam em sombras com os movimentos das chamas. Só o fumo podia libertar-se do Mayombe e subir, por entre as folhas e as lianas, dispersando-se rapidamente no alto, como água precipitada por cascata estreita que se espalha num lago. Eu, o Narrador, sou Teoria. Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura de café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não, para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta.

(Fonte: Pepetela — Adaptado.)
Pepetela é um dos principais autores da literatura angolana contemporânea. Ele foi membro de um dos grupos de intelectuais que se engajaram na luta armada em Angola, o MPLA. Tomando como referência o romance Mayombe, publicado em 1980, que narra o processo revolucionário angolano para tornar o país independente de Portugal (1961-1974), é CORRETO afirmar que: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: A questão aborda interpretação de texto literário, especialmente quanto ao foco narrativo (quem narra) e à polifonia (presença de várias vozes narrativas). Competências como reconhecimento do narrador, análise de personagens e relação com temas sociais (identidade e maniqueísmo) são exigidas.

Justificativa da alternativa correta (C):

O Teoria é um dos narradores do polifônico romance Mayombe.

A alternativa está correta, pois, segundo o próprio texto, “Eu, o Narrador, sou Teoria”, demonstrando que Teoria não é apenas personagem, mas também assume diretamente a palavra narrativa — característica marcante da polifonia, conforme trata Celso Cunha & Lindley Cintra (“Nova Gramática”) e Bechara. “Mayombe” alterna vozes: há trechos do ponto de vista do narrador-personagem (Teoria) e outros pontos de vista, compondo uma estrutura múltipla e polifônica.

Análise das alternativas incorretas:

A) A diversidade racial angolana é questionada em Mayombe.
Incorreta. O texto não questiona a diversidade racial, mas a evidencia e explora suas contradições sociais e identitárias sem negá-la ou criticá-la diretamente. O autor foca a complexidade das origens em vez de “questionar” sua existência.

B) A personagem professor defende a cosmovisão maniqueísta.
Errada. O professor repudia a dicotomia maniqueísta (“sim”/“não”), declarando-se o “talvez”. Expressa oposição à visão maniqueísta e à simplicidade binária.

D) O narrador de Mayombe nega a mudança do sujeito pela alteridade.
A obra valoriza exatamente a construção identitária a partir do contato com o outro, não nega esse processo. Negar a mudança pelo convívio vai contra a própria essência do romance, que tematiza a convivência plural.

Estratégias e ponto-chave:

Fique atento a expressões autorreferentes (“Eu, o Narrador, sou Teoria”), que revelam a voz narrativa e alertam para possível polifonia. Ler atentamente diálogos internos do personagem ajuda a perceber contradições (maniqueísmo x talvez).

Autores de referência:
Cunha & Cintra destacam que “o narrador-personagem é parte do discurso e carrega marcas subjetivas”, o que ocorre nitidamente no trecho analisado.

Resumo: Identifique palavras que indiquem o ponto de vista do narrador e recorra sempre ao contexto para validar conceitos como polifonia e maniqueísmo.

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