A progressão argumentativa do texto revela que o desperdício...

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Q3795802 Português

Para responder à questão, leia o texto abaixo.  



O sagrado da mesa



    Quando sentamos para comer, existe algo de reverência nesse gesto. Aqui, em nossa região de colonização italiana, esse costume está enraizado no coração das pessoas. As famílias se juntam não só para saciar a fome, mas para partilhar o tempo, o riso, as preces, as histórias e o pão. A mesa torna-se um altar do cotidiano, onde se celebra a vida.



    Muitas vezes minha mãe dizia para nunca jogar comida fora, _____ o alimento é sagrado. Pela casa, repetia com voz mansa e presença firme: “Cuidado para não desperdiçar, ______ um dia pode faltar.” Eram pequenas lições temperadas com afeto e sabedoria que servia entre o fogão e a mesa, ensinando-nos a valorizar e a respeitar o que nos sustenta.



    Mas o que tem acontecido é que muitas famílias estão entregando esse momento ao automatismo. As conversas cederam às telas; o barulho dos talheres se mistura ao som da televisão, e o silêncio foi substituído pelas distrações. Cada um come apressado, sozinho, no seu canto. E assim, o alimento perde o sentido que tinha: o de reunir. Nesse mesmo descuido, revela-se outra contradição dolorosa: enquanto sobra comida em algumas mesas, falta em tantas outras. No Brasil, cerca de 30% de tudo o que se produz é jogado fora, o que representa mais de 46 milhões de toneladas de alimentos por ano. Um verdadeiro absurdo diante da fome e da desigualdade.



    Em 2022, o país voltou ao mapa da fome, com 33 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave. Três anos depois, segundo a FAO (Food and Agriculture Organization), o Brasil deixou novamente esse mapa, mas a realidade permanece alarmante. O que os números revelam vai além das estatísticas: somos uma nação que, apesar de sua imensa capacidade de produção, ainda não consegue garantir alimento para todos. A fome não é um destino inevitável e, sim, o resultado das escolhas e prioridades que fazemos ao distribuir e consumir alimentos. Grande parte do desperdício nasce do cotidiano: nas feiras, nos restaurantes, nas casas, onde o olhar se acostumou a descartar o que ainda poderia ser aproveitado. E enquanto o lixo se enche de comida, o prato de muita gente segue vazio. A abundância não redime a fome se não houver partilha.



    Talvez o problema esteja justamente no que esquecemos de celebrar. A refeição deixou de ser encontro, deixou de ser consciência. Quando se perde o sentido do alimento, de onde vem, o que custou, quem plantou, perde-se também o vínculo com o outro. E esse vínculo que, se refeito, pode transformar de novo a mesa em espaço de cuidado. Porque o sagrado de comer juntos está menos no prato e mais na presença. E, no fim das contas, é dela que a humanidade ainda tem fome.



Autora: Helô Bacichette - GZH (adaptado). 

A progressão argumentativa do texto revela que o desperdício alimentar não é apenas um problema quantitativo, mas um sintoma da perda de sentido cultural e humano do alimento. Essa leitura exige compreender a crítica ampliada que a autora dirige ao comportamento social contemporâneo. Nessa direção, o trecho “A abundância não redime a fome se não houver partilha” sintetiza a ideia de que o excesso material, sem consciência coletiva, converte-se em forma de __________, perpetuando a desigualdade mesmo em contextos de ampla produção de alimentos.

Qual alternativa preenche, CORRETA e respectivamente, as lacunas?
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-discursivo: o comando pede a síntese da crítica do texto a partir do trecho obrigatório — “A fome não é um destino inevitável e, sim, o resultado das escolhas e prioridades que fazemos ao distribuir e consumir alimentos. [...] A abundância não redime a fome se não houver partilha.” —, que desloca a explicação da falta material para as escolhas humanas e a ausência de partilha.

Tema central: partilha e consciência social
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não sintetiza a contradição como “insuficiência estrutural”. Ao contrário, afirma haver “imensa capacidade de produção” e diz que a fome resulta de “escolhas e prioridades” ao distribuir e consumir alimentos. O foco não é limitação estrutural da produção, mas falha ética e social na partilha.
B
Errada
Está errada porque, embora “opulência” se aproxime de abundância, a expressão não resume o eixo argumentativo do texto. A crítica não recai principalmente sobre o excesso material em si, mas sobre a ausência de consciência coletiva e de partilha. O texto conduz a um juízo moral e social, não apenas à ideia de excesso destrutivo.
C
Certa
A alternativa C corresponde ao núcleo do texto porque a autora afirma que a fome decorre de “escolhas e prioridades” na distribuição e no consumo de alimentos, e não da simples falta de produção. O trecho final reforça que a abundância, sem partilha, não resolve a fome, o que confirma a leitura proposta pela alternativa.
D
Errada
Está errada porque “carência logística” introduz uma explicação técnica que não é a formulada pelo texto. Não há centralidade em transporte, armazenamento ou operação de distribuição. As marcas decisivas são “escolhas”, “prioridades”, “descuido” e “partilha”, isto é, uma crítica comportamental, cultural e ética.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre uma leitura técnica/material da fome e a leitura ético-social construída pelo texto. Alternativas como “opulência” e “carência logística” parecem plausíveis por proximidade temática, mas não sintetizam a tese final sobre escolhas humanas e ausência de partilha.
Dica para questões semelhantes
  • Em questão de síntese argumentativa, procure o trecho conclusivo que transforma dados do texto em juízo de valor.
  • Se o texto opõe produção abundante e fome persistente, o problema não é automaticamente quantitativo; verifique se o autor o desloca para escolhas sociais.
  • Palavras como “escolhas”, “prioridades” e “partilha” sinalizam campo ético-social; isso pesa mais que termos apenas ligados à quantidade.

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