O trecho a seguir serve de base para responder à questão.“En...
“Então começou levemente a garoar. Olímpico tinha razão: ela só sabia mesmo era chover. Os finos fios de água gelada aos poucos empapavam-lhe a roupa e isso não era confortável.” (Clarice Lispector)
O pronome “isso” demonstra, no contexto, um mecanismo linguístico, um exemplo de coesão, que faz referência a algo, palavra ou expressão, que já foi mencionado no texto. Essa referência é denominada:
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Tema da questão: coesão referencial (pronomes demonstrativos) e interpretação de referência pronominal no texto.
Estratégia para resolver: identifique o pronome destacado e verifique se ele retoma uma informação já dita (anáfora) ou se antecipa uma informação ainda não dita (catáfora). Em seguida, pergunte: “A que exatamente esse pronome aponta?” Se a resposta estiver no trecho anterior, é anáfora.
Explicação do contexto: o pronome demonstrativo “isso” retoma uma ideia já mencionada anteriormente no período: o fato de que os fios de água gelada iam empapando a roupa, situação desconfortável. Logo, há um mecanismo de coesão que retoma uma informação precedente.
Alternativa correta: C — Anáfora
Por que está correta? Segundo a Gramática Normativa (cf. Celso Cunha & Lindley Cintra, “Nova Gramática do Português Contemporâneo”; Evanildo Bechara, “Moderna Gramática Portuguesa”), os pronomes demonstrativos esse/essa/isso costumam ter valor anafórico, isto é, retomam algo já mencionado. No trecho analisado, “isso” sintetiza a situação descrita antes (a roupa sendo empapada pela garoa fria) e, portanto, exerce função de coesão por retomada. Exemplo paralelo: “A aula terminou cedo. Isso nos ajudou.” — “isso” retoma a oração anterior.
Pegadinha comum: confundir anáfora com catáfora e acreditar que “isso” antecipa uma ideia. Pela norma, quem geralmente antecipa (catáfora) é este/esta/isto (“Isto: estudar diariamente — é essencial”). Já esse/essa/isso recuperam o já dito.
Por que as demais alternativas estão incorretas?
A — Injunção: refere-se ao tipo textual que dá instruções, ordens, recomendações (ex.: manuais, receitas). Não é um mecanismo de referência pronominal, portanto não descreve o papel de “isso” no trecho.
B — Catáfora: ocorre quando um termo antecipa algo que será explicado depois (ex.: “Isto é o que quero: foco e disciplina.”). No caso da questão, “isso” remete ao que já foi dito, logo não é catáfora.
D — Elipse: é a omissão de um termo recuperável pelo contexto (ex.: “Fui ao mercado e [eu] voltei.”). No trecho, não há omissão; há substituição por pronome demonstrativo, mecanismo típico de coesão referencial, não de elipse.
Regra normativa aplicada: de acordo com as gramáticas citadas, os demonstrativos organizam-se por valor deíctico e referencial: este/esta/isto — proximidade/antecipação (catáfora); esse/essa/isso — referência ao já mencionado (anáfora). O uso de “isso” no contexto confirma a retomada anafórica de uma ideia anterior. (Observação ortográfica: formas “isso”, “elipse” e “anáfora” encontram-se conforme o VOLP.)
Dica prática de prova: sublinhe pronomes demonstrativos no texto e pergunte-se: “Aponta para trás ou para frente?” Se apontar para trás, marque anáfora; se anunciar algo que ainda será dito, pense em catáfora. Essa triagem resolve rapidamente questões de coesão.
Gabarito: C — Anáfora
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