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Q3408329 Português
Os livros e suas vozes


   Se há uma pessoa que possa, a qualquer momento, arrancar da sua infância uma recordação maravilhosa, essa pessoa sou eu.
    Tudo quanto, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, perdura em mim com uma intensidade poética inextinguível. Não saberia dizer quais foram as minhas impressões maiores. Seria a que recebi dos adultos tão variados em suas ocupações e em seus aspectos? Das outras crianças? Dos objetos? Do ambiente? Da natureza?
   Recordo céus estrelados, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas, estátuas, negros, aleijados, bichos, suínos, realejos, cores de tapete, bacia de anil, nervuras de tábuas, vidros de remédio, o limo dos tanques, a noite em cima das árvores, o mundo visto através de um prisma de lustre, o encontro com o eco, essa música matinal dos sabiás, lagartixas pelos muros, enterros, borboletas, o carnaval, retratos de álbum, o uivo dos cães, o cheiro do doce de goiaba, todos os tipos populares, a pajem que me contava com a maior convicção histórias do Saci e da Mula-sem-cabeça (que ela conhecia pessoalmente); minha avó que me cantava rimances e me ensinava parlendas...
    Mais tarde os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano. Foi ainda nessa área que apareceram um dia os meus próprios livros, que não são mais do que o desenrolar natural de uma vida encantada com todas as coisas.
    Sempre gostei muito de livros e, além dos livros escolares, li os de histórias infantis, e os de adultos: mas estes não me pareciam tão interessantes, a não ser, talvez, “Os três mosqueteiros”, numa edição monumental, muito ilustrada, que fora de meu avô. Aquilo era uma história que não acabava nunca; e acho que esse era o seu principal encanto para mim. Descobri o dicionário, uma das invenções mais simples e mais formidáveis e também achei que era um livro maravilhoso, por muitas razões.
    Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros e imaginava-os cheios de vozes, contando o mundo.

(Cecília Meireles. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1997. Fragmento.)
Conforme Domingos Paschoal Cegalla, em Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, “o sentido figurado consiste em usar expressões com um significado diverso do que elas normalmente têm, estabelecendo uma relação de comparação implícita entre dois elementos; além de enriquecer a comunicação, permitindo expressar ideias de forma mais criativa e sugestiva”. Partindo-se dessa estimativa, assinale o trecho textual no qual as palavras ou expressões adquirem situações particulares de uso, ou seja, quando o seu significado é ampliado ou alterado no contexto.
Alternativas

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Tema central: Figuras de linguagem e sentido figurado na interpretação textual. A questão exige a identificação do emprego do sentido figurado — quando palavras são usadas além do seu sentido literal, criando expressividade e riqueza de significado no texto.

Regra fundamental: Segundo Domingos Paschoal Cegalla (Novíssima Gramática da Língua Portuguesa), o sentido figurado ocorre quando há “um significado diverso do normalmente aliado à palavra”. Nessa linha, figuras de linguagem como personificação (ou prosopopeia), metáfora e metonímia ampliam ou alteram sentidos literais.

Justificativa da alternativa correta:

D) “Mais tarde os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, [...]”

Esse trecho é exemplar do sentido figurado, pois atribui aos livros ações humanas: “se abriram” e “deixaram sair suas realidades e seus sonhos.” Tal construção é conhecida na gramática como personificação ou prosopopeia, definida por autores como Bechara e Cunha & Cintra como a “atribuição de qualidades ou ações humanas a seres inanimados.” Aqui, os livros “agem”, enriquecendo o texto de forma sugestiva e poética.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) “Sempre gostei muito de livros [...]” — Expressão literal; não há ampliação nem alteração de sentido convencional.
  • B) “Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros [...]” — A expressão é literal. Há apenas referência à atividade lúdica, sem mudança figurativa significativa.
  • C) “Recordo céus estrelados, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas [...]” — Lista descritiva de memórias; cada termo está no sentido literal.

Estratégia para resolver questões como esta:

- Identifique ações atribuídas a objetos ou elementos inanimados;
- Busque expressões com sentidos incomuns em contextos criativos;
- Confronte o sentido literal das palavras com o contexto apresentado.

Resumo: O emprego do sentido figurado torna a linguagem mais expressiva, fundamental para textos literários, e bastante cobrado em concursos. Fique atento a figuras como a personificação!

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Comentários

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Personificação (Prosopopeia):

Atribui características humanas a seres inanimados ou animais. 

  • Exemplo: "O vento soprava furioso.

D — "Mais tarde os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, [...]"

Essa é a alternativa correta porque o trecho emprega linguagem figurada: livros não se abrem sozinhos nem "deixam sair" realidades e sonhos em sentido literal. A autora personifica os livros, atribuindo-lhes uma ação autônoma e quase mágica, como se fossem seres vivos capazes de liberar mundos. O significado das expressões é claramente ampliado e deslocado do uso comum.

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