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Q3408326 Português
Os livros e suas vozes


   Se há uma pessoa que possa, a qualquer momento, arrancar da sua infância uma recordação maravilhosa, essa pessoa sou eu.
    Tudo quanto, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, perdura em mim com uma intensidade poética inextinguível. Não saberia dizer quais foram as minhas impressões maiores. Seria a que recebi dos adultos tão variados em suas ocupações e em seus aspectos? Das outras crianças? Dos objetos? Do ambiente? Da natureza?
   Recordo céus estrelados, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas, estátuas, negros, aleijados, bichos, suínos, realejos, cores de tapete, bacia de anil, nervuras de tábuas, vidros de remédio, o limo dos tanques, a noite em cima das árvores, o mundo visto através de um prisma de lustre, o encontro com o eco, essa música matinal dos sabiás, lagartixas pelos muros, enterros, borboletas, o carnaval, retratos de álbum, o uivo dos cães, o cheiro do doce de goiaba, todos os tipos populares, a pajem que me contava com a maior convicção histórias do Saci e da Mula-sem-cabeça (que ela conhecia pessoalmente); minha avó que me cantava rimances e me ensinava parlendas...
    Mais tarde os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano. Foi ainda nessa área que apareceram um dia os meus próprios livros, que não são mais do que o desenrolar natural de uma vida encantada com todas as coisas.
    Sempre gostei muito de livros e, além dos livros escolares, li os de histórias infantis, e os de adultos: mas estes não me pareciam tão interessantes, a não ser, talvez, “Os três mosqueteiros”, numa edição monumental, muito ilustrada, que fora de meu avô. Aquilo era uma história que não acabava nunca; e acho que esse era o seu principal encanto para mim. Descobri o dicionário, uma das invenções mais simples e mais formidáveis e também achei que era um livro maravilhoso, por muitas razões.
    Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros e imaginava-os cheios de vozes, contando o mundo.

(Cecília Meireles. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1997. Fragmento.)
Assinale, a seguir, a oração que contém uma expressão que indica tempo.
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Comentário da Questão – Adjunto Adverbial de Tempo

Tema central: A questão aborda a identificação de expressão indicativa de tempo (adjunto adverbial de tempo), conceito fundamental em Sintaxe segundo a norma-padrão da Língua Portuguesa.

Regra gramatical envolvida: Conforme Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), o adjunto adverbial de tempo é o termo que situa a ação verbal em relação ao tempo ("quando?", "em que ocasião?"). Exemplos: Ontem estudamos juntos. / Quando cheguei, todos já saíam.

Alternativa correta: B

Em "Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros e imaginava-os cheios de vozes":

"Quando eu ainda não sabia ler" é uma oração adverbial temporal, estabelecendo o período do passado em que as ações “brincava” e “imaginava” ocorriam. Situa a ação no tempo de forma explícita e inequívoca.

Análise das alternativas incorretas:

A) "Descobri o dicionário, uma das invenções mais simples e mais formidáveis" – Não há qualquer elemento que indique tempo ou período na frase; contém apenas a ação de descobrir.

C) "Sempre gostei muito de livros..." – O advérbio “sempre” sugere persistência ou habitualidade, mas não especifica um momento exato ou uma circunstância temporal definida, como exige a questão.

D) "a não ser, talvez, ‘Os três mosqueteiros’…” – A frase descreve características da obra e sua procedência, mas não há referência a tempo.

Estratégia para acertar questões desse tipo: Procure sempre por locuções adverbiais, conjunções ou orações subordinadas que respondam “quando?” para identificar o adjunto adverbial de tempo. Não se confunda com advérbios de frequência (sempre, geralmente), que não situam ações em períodos específicos!

Resumo: A alternativa B é a única que traz, na estrutura “quando eu ainda não sabia ler”, a indicação clara de circunstância temporal, em perfeita conformidade com a norma-padrão e a melhor tradição gramatical.

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Comentários

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B)"Quando" é um advérbio de tempo, e a estrutura da oração marca uma circunstância de tempo.

"Sempre" não é advérbio de tempo também?

Letra B.

Conjunções subordinadas TEMPORAIS = Quando, enquanto, assim que, logo que, desde que, até que, depois que, eis que...

Fonte: tabela de conectivos do Prof: Elias Santana, Gran Cursos.

Bons estudos!!❤️✍

"Sempre" também não é um advérbio de tempo?

Os primeiros serão os primeiros. Tanto no dicionário, quanto nas alternativas, o advérbio de tempo que vem primeiro é o quando.

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