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Q3408325 Português
Os livros e suas vozes


   Se há uma pessoa que possa, a qualquer momento, arrancar da sua infância uma recordação maravilhosa, essa pessoa sou eu.
    Tudo quanto, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, perdura em mim com uma intensidade poética inextinguível. Não saberia dizer quais foram as minhas impressões maiores. Seria a que recebi dos adultos tão variados em suas ocupações e em seus aspectos? Das outras crianças? Dos objetos? Do ambiente? Da natureza?
   Recordo céus estrelados, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas, estátuas, negros, aleijados, bichos, suínos, realejos, cores de tapete, bacia de anil, nervuras de tábuas, vidros de remédio, o limo dos tanques, a noite em cima das árvores, o mundo visto através de um prisma de lustre, o encontro com o eco, essa música matinal dos sabiás, lagartixas pelos muros, enterros, borboletas, o carnaval, retratos de álbum, o uivo dos cães, o cheiro do doce de goiaba, todos os tipos populares, a pajem que me contava com a maior convicção histórias do Saci e da Mula-sem-cabeça (que ela conhecia pessoalmente); minha avó que me cantava rimances e me ensinava parlendas...
    Mais tarde os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano. Foi ainda nessa área que apareceram um dia os meus próprios livros, que não são mais do que o desenrolar natural de uma vida encantada com todas as coisas.
    Sempre gostei muito de livros e, além dos livros escolares, li os de histórias infantis, e os de adultos: mas estes não me pareciam tão interessantes, a não ser, talvez, “Os três mosqueteiros”, numa edição monumental, muito ilustrada, que fora de meu avô. Aquilo era uma história que não acabava nunca; e acho que esse era o seu principal encanto para mim. Descobri o dicionário, uma das invenções mais simples e mais formidáveis e também achei que era um livro maravilhoso, por muitas razões.
    Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros e imaginava-os cheios de vozes, contando o mundo.

(Cecília Meireles. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1997. Fragmento.)
No 2º§ do texto, são feitos alguns questionamentos que denotam o seguinte objetivo:
Alternativas

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Tema central: Interpretação de Textos

Análise da Questão:

A questão explora a interpretação do objetivo dos questionamentos feitos no 2º parágrafo do texto de Cecília Meireles. Para resolver, o candidato precisa identificar a intenção comunicativa da autora ao trazer tais perguntas, algo fundamental nas provas de interpretação e sempre exigido em concursos públicos.

Alternativa Correta – D: “Aprofundar sobre as experiências vividas pela autora na sua infância e levar o leitor a refletir sobre elas.”

No 2º parágrafo (“Não saberia dizer quais foram as minhas impressões maiores. Seria a que recebi dos adultos [...], das outras crianças? Dos objetos?...”), Cecília Meireles faz questionamentos sobre quais experiências marcaram mais fortemente sua infância, sem chegar a conclusões taxativas. Esse recurso não busca simplesmente informar, mas aprofundar-se em suas lembranças e provocar a reflexão do leitor sobre a riqueza e a complexidade das vivências infantis. Conforme os principais manuais de gramática, como o de Celso Cunha & Lindley Cintra, interpretar é ir além do explícito, buscando o sentido subjacente e a intenção do autor.

Por que as demais alternativas estão incorretas?

  • A) As perguntas não servem para informar sobre a infância da autora nem enfatizam sua iniciação literária, mas sim refletir sobre experiências.
  • B) Não há ignorância das dúvidas; ao contrário, elas são valorizadas como essenciais para a compreensão de suas memórias.
  • C) O texto não desmistifica valores familiares nem impõe normas de conduta, apenas narra reflexões pessoais.

Estratégia para Provas: Ao encontrar questões semelhantes, busque: a intenção do autor e os efeitos de sentido provocados por perguntas ou dúvidas lançadas no texto. Isso ajuda a evitar distrações com alternativas que tentam resumir ou distorcer o objetivo real do trecho.

Regra de Ouro: “A interpretação exige olhar para os sentidos implícitos, e não apenas para o que está literalmente escrito.” (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa).

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"Seria a que recebi dos adultos tão variados em suas ocupações e em seus aspectos? Das outras crianças? Dos objetos? Do ambiente? Da natureza?"

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