Cronologicamente a situação era a seguinte: um homem e ...

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Q3992799 Português
    Cronologicamente a situação era a seguinte: um homem e uma mulher estavam casados. Esse homem e essa mulher começaram — sem nenhum objetivo de ir longe demais, e não se sabe levados por que necessidade que pessoas têm — começaram a tentar viver mais intensamente. A tentativa de viver mais intensamente levou-os, por sua vez, numa espécie de constante verificação de receita e despesa, a tentar pesar o que era e o que não era importante. Isso eles o faziam a modo deles: com falta de jeito e de experiência, com modéstia. Eles tateavam. Mas de nada adiantava o vago esforço quase constrangido que faziam: a trama lhes escapava diariamente. Isso tudo não chegava a formar uma situação para o casal. Quer dizer, algo que cada um pudesse contar mesmo a si próprio na hora em que cada um se virava na cama para um lado e, por um segundo antes de dormir, ficava de olhos abertos. E pessoas precisam tanto poder contar a história delas mesmas. Eles não tinham o que contar. Com um suspiro de conforto, fechavam os olhos e dormiam agitados. E quando faziam o balanço de suas vidas, nem ao menos podiam nele incluir essa tentativa de viver mais intensamente, e descontá-la, como em imposto de renda. Balanço que pouco a pouco começavam a fazer com maior frequência, mesmo sem o equipamento técnico de uma terminologia adequada a pensamentos. Se se tratava de uma situação, não chegava a ser uma situação de que viver ostensivamente. Mas não era apenas assim que sucedia. Na verdade também estavam calmos porque "não conduzir", "não inventar", "não errar" lhes era, muito mais que um hábito, um ponto de honra assumido tacitamente. Eles nunca se lembrariam de desobedecer.
Clarice Lispector. Os obedientes. In: Felicidade Clandestina. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (com adaptações).
Infere-se que, no fragmento de conto apresentado, é narrada a história de um casamento problematizado como contrato institucionalizado que opera como um dispositivo pautado  
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: A questão cobra inferência textual sobre o valor institucional que sustenta o casamento no fragmento. O núcleo decisivo está em: "um homem e uma mulher estavam casados (...) \"não conduzir\", \"não inventar\", \"não errar\" lhes era, muito mais que um hábito, um ponto de honra assumido tacitamente. Eles nunca se lembrariam de desobedecer." Esse campo semântico de obediência, conformidade e não ruptura faz o casamento aparecer como vínculo mantido mesmo esvaziado subjetivamente, o que conduz à alternativa A.

Tema central: casamento institucionalizado
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A traduz a inferência mais compatível com o fragmento: o casal permanece preso a uma lógica de manutenção do vínculo, mesmo sem plenitude existencial na vida conjugal. O texto mostra tentativa frustrada de viver intensamente, vazio de experiência compartilhável e, ao final, adesão tácita à obediência: "ponto de honra assumido tacitamente" e "Eles nunca se lembrariam de desobedecer". Embora a palavra "indissolubilidade" não apareça literalmente, a permanência obediente no casamento institucionalizado autoriza essa leitura de preservação do vínculo conjugal como valor.
B
Errada
A alternativa erra ao deslocar a questão para mecanismos centrados na opressão da mulher, algo que o fragmento não textualiza. A submissão construída no trecho recai sobre o casal como conjunto, marcado por "eles" e "lhes", e não por uma assimetria de poder dirigida especificamente à mulher.
C
Errada
A alternativa é incompatível com o sentido do texto porque o fragmento não exalta amor romântico nem família burguesa. Ao contrário, apresenta esvaziamento e desconforto: "Isso tudo não chegava a formar uma situação para o casal.", "Eles não tinham o que contar." e "fechavam os olhos e dormiam agitados."
D
Errada
A presença de "um homem e uma mulher" apenas identifica os cônjuges; não há marcas discursivas de problematização da heterossexualidade como compulsória nem discussão sobre simetria de papéis de gênero. A alternativa acrescenta um eixo interpretativo que o fragmento não desenvolve.
Pegadinha da questão
A banca oferece alternativas com formulações sociológicas amplas e plausíveis fora do texto, mas o fragmento só sustenta, de modo direto, a leitura de obediência institucional e manutenção do vínculo; o erro é tomar tema geral de casamento como prova de opressão da mulher, amor romântico ou heterossexualidade compulsória.
Dica para questões semelhantes
  • Em questão de inferência, escolha a alternativa que mais se apoia no léxico efetivamente presente no texto e evite a que exige tema não textualizado.
  • Quando o texto mostrar permanência, obediência e conformidade, a inferência deve recair sobre manutenção da ordem ou do vínculo, não sobre críticas específicas sem marca explícita.
  • Não transforme a simples presença de um casal, de um casamento ou de uma instituição em prova automática de tese sociológica mais ampla.

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Comentários

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Consegui encontrar a resposta pelo trecho ''E pessoas precisam tanto poder contar a história delas mesmas.''

Ou seja o casal não possuía mais individualidade. Tudo em prol de ficarem juntos.

Infere-se a indissolubilidade do vínculo conjugal.  

Gabarito: A

É possível inferir do texto como a instituição conjugal era baseada em valores socialmente impostos quando o final do texto expressa: "(...) lhes era, muito mais que um hábito, um ponto de honra assumido tacitamente. Eles nunca se lembrariam de desobedecer."

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