Em que opção a cronista dirige-se explicitamente a um inter...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q4156025 Português

Leia o texto IV e responda à questão.

Texto IV

Espelho do tempo: envelhecemos microscopicamente e nos perguntamos se perdemos o frescor

Assista a um telejornal, distraída, quando apareceu na tela o depoimento de um coroa que eu não conhecia, mas, por algum motivo, a imagem me atraiu. Ao ler o nome dele nos créditos, pensei: já conheci um cara com este nome... Peral... Não pode ser. Caramba, é ele. Um amigo que sumiu de vez do meu radar. Pertencemos à mesma turma de praia quando tínhamos 20 anos. Lembro que ele surfava, tinha um jipe e era um gozador nato. E agora estava ali, sisudo na tela da tevê, de terno e gravata, com a pele acinzentada, um fiapo de cabelo, um senhor - da minha idade.

No espelho do banheiro, nosso rosto é o mesmo todo dia. Envelhecemos microscopicamente. De terça para quarta, nenhuma diferença. Até que você encontra na rua uma ex-colega de faculdade ou se depara na tevê com alguém que já fez parte da sua juventude e se pergunta: será que eu também perdi o frescor? Eles se perguntam a mesma coisa quando te veem.

O espelho do banheiro não conta a verdade pelo simples fato de que ignoramos o que é visto toda hora. Já fotografias antigas são espelhos retroversos, demarcam com precisão as diferenças entre o antes e o agora. Outro dia, mostrei para minha filha uma foto de nós duas em 1992; eu a segurava em meu colo. Ela ficou impactada: “Era uma criança.” “Claro, você tinha um aninho.” “Estou falando de ti, mãe”.

É uma questão de perspectiva. Para os bebês, os pais são Matusaléns. No entanto, naquela foto, eu tinha menos idade do que ela tem hoje - éramos não uma, mas duas crianças. Um dia, ela me verá com o rosto completamente craquelado, miúda, corcunda pelo peso dos anos transcorridos, e o susto será outro: serei um espelho do seu futuro. Será obrigada a encarar a velhice que, gostemos ou não, está sempre em nossos calcanhares.

O tempo tem rosto, o tempo tem mãos, o tempo tem voz - e nada disso permanece o mesmo. As superfícies espelhadas reproduzem uma imagem de aparente, visto que, de hoje para amanhã, não se nota alteração. Mas quando encontro minhas amigas a intervalos de tempo, sou atravessada pela verdade óbvia de que não somos mais as meninas do pátio do colégio.

O que me consola é que estes espelhos vivos (a feição atual de nossos velhos afetos) trazem tanto, mas como boas notícias. Em vez de sofrer pelo que está arruinado, busco em cada rosto o sorriso moleque de antigamente, o olhar ainda curioso, a eternidade que mora nos detalhes. Aquele amigo que apareceu na tevê, tão concentrado em sua declaração em frente às câmeras, talvez tenha deixado escapar um filete de irreverência em meio aos verbos empolados que usava, e foi isso que me fez reconhecê-lo. Mesmo o mais implacável dos espelhos reflete algo em nós que não muda.

(MEDEIROS, Martha. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/elaimartha-medeiros/coluna/2025/11/espelhodo-tempo-envelhecemos-miscroscopicamente-e-nos-perguntamos-seperdemos-o-frescor.ghtml> - Texto adaptado.)

Em que opção a cronista dirige-se explicitamente a um interlocutor fora do texto? 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a interlocução explícita com um destinatário externo ao texto, marcada enunciativamente pela 2ª pessoa discursiva. Isso ocorre em “Até que você encontra na rua uma ex-colega de faculdade ou se depara na tevê com alguém que já fez parte da sua juventude e se pergunta: será que eu também perdi o frescor?”, trecho em que a cronista usa “você” em valor genérico para chamar o leitor para dentro da reflexão; por isso, a alternativa C é a correta.

Tema central: interlocução com o leitor
Análise das alternativas
A
Errada
O trecho apresenta discurso direto entre personagens da cena narrada, no diálogo entre mãe e filha. A interlocução aí é interna ao episódio, não um chamamento da cronista ao leitor. Confundir fala dialogada com endereçamento ao leitor é o erro dessa alternativa.
B
Errada
Em “Pertencemos à mesma turma de praia quando tínhamos 20 anos”, a 1ª pessoa do plural se refere à cronista e ao amigo mencionado. Trata-se de inclusão narrativa referencial, não de alocução ao leitor. O “nós” não funciona como marca de interlocução externa.
C
Certa
A alternativa C está certa porque contém as marcas explícitas de endereçamento ao leitor: “você encontra” e “sua juventude”. Nesse ponto, a cronista sai do relato apenas autobiográfico e universaliza a experiência, falando diretamente com um interlocutor exterior à cena narrada. Esse uso de “você”, mesmo genérico, instaura a interlocução pedida no comando da questão.
D
Errada
Em “Um dia, ela me verá...”, o pronome “ela” retoma a filha da cronista. O trecho permanece no eixo narrativo e projetivo do texto, com referência interna já estabelecida, sem dirigir a fala ao leitor.
E
Errada
Em “serei um espelho do seu futuro”, o possessivo “seu” não aponta para o leitor, mas para a filha mencionada imediatamente antes em “ela me verá”. A coesão do parágrafo determina esse referente. Isolar “seu” do contexto leva a uma leitura errada de interlocução.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre qualquer forma de diálogo ou referência pronominal e a interlocução explícita com o leitor. Só o uso de “você” em valor genérico, na alternativa C, cria esse endereçamento externo de modo inequívoco.
Dica para questões semelhantes
  • Leia o comando com precisão: aqui não se pedia tema nem efeito expressivo geral, mas o ponto exato de endereçamento ao leitor.
  • Procure marcas enunciativas de alocução direta, como “você”, antes de considerar pronomes como “ela”, “nós” ou possessivos isolados.
  • Diferencie narração interna do texto de interlocução com destinatário externo: personagem falando com personagem não é, por si, fala ao leitor.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo