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No trecho: "Ela acabava — estava claro — de ver o namorado ...

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Q4156020 Português

Leia o texto III e responda à questão.

Texto III

Mensagem de primavera

De cima desta janela da rua República do Peru, a observadora de tardes e manhãs reparou que a primavera não era uma ficção do calendário deste nosso tempo sem tempo, estagnado e apenas travestido em estações pelos figurinos. As amendoeiras de minha rua mostraram o inverno ainda mesmo quando o sol rompia por Copacabana e banhistas sem conta atulhavam a praia.

Envelheceram amarelentas, tornaram-se quase esqueléticas e negras. E, agora, a chuva maciça que cai, enquanto escrevo, mostra uma festa de folhas novas, vivas, bulindo sob a porção de água e brilhando acima dos guarda-chuvas e sombrinhas. A natureza de nossa rua fez a primavera em que tantas pessoas não acreditam, neste Rio de verde cansativo. Se a Primavera habita as minhas árvores tão pensadas, da rua República do Peru, por onde andará ela no coração das mulheres?

Creio já ter descoberto. Vi, justamente agora, passar uma mocinha límpida e lavada de gotas de chuva, que abria sorriso muito lento e doce. Ela acabava - estava claro - de ver o namorado e atravessava a rua com um clarão de quente alegria. Mais além, um pouco lerda, a mulher grávida encobre a face pelas folhas da amendoeira copada. Só seu corpo se desenha numa curva farta, desvendando difícil os pés gordinhos. A mulher carrega pela rua alguém tão importante quanto esta estação despercebida - a primavera que só alguns pressentem.

Mais adiante, a jovem que voltou do almoço retoma o lugar no balcão e, antes de entrar na loja, eleva a mãozinha ajeitando o cabelo umedecido, como um pássaro esticando uma asa. Que tem esta moça no gesto tão gentil a oferecer de primavera? Visivelmente, ela está enfrentando o seu dia com uma disposição amanhecente: ela tem planos, a mocinha.

É a pausa antes do fim do ano, a pausa da primavera. Muitas coisas vão acontecer na vida das criaturas. As mulheres sabem que há mudanças próximas em suas existências. Umas casarão, outras enfrentarão um trabalho novo com disposição nova; mãos ágeis terão no colo pequenos pedaços que significarão a cobertura de novas vidas. Como se as mulheres também criassem folhas e que elas, só elas, fossem parte desta primavera recusada de todos nós.

A minha mensagem vai para o íntimo das mulheres; para o sorriso da moça que viu o namorado, o caminhar da mulher que espera o filho, o gesto da criatura que levanta o rosto para um outro dia, numa outra primavera que começa. Eu estou com elas. Estou com o novo dia, com as folhas novas, com os seres amanhecentes e os abençoo em comunhão de fé.

(Seleta de Dinah Silveira de Queiroz. Apresentação e notas de Bella Josef. Rio de Janeiro, José Olympio, INL, 1974, pp. 25-26.)

No trecho: "Ela acabava — estava claro — de ver o namorado e atravessava a rua com um clarão de quente alegria.” (§3°), os travessões foram empregados para: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: No trecho "Ela acabava — estava claro — de ver o namorado", os travessões isolam a expressão intercalada "estava claro", de valor parentético, que não integra o núcleo sintático da oração principal; por isso, a alternativa correta é a que aponta função análoga à dos parênteses.

Tema central: travessão parentético
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque identifica com precisão a função pontuacional exercida pelos travessões no trecho. O núcleo da oração é "Ela acabava de ver o namorado e atravessava a rua..."; o segmento "estava claro" entra como comentário acessório, encaixado entre partes da estrutura principal. Esse isolamento caracteriza intercalação com valor parentético, exatamente a função descrita na alternativa.
B
Errada
Está errada porque "estava claro" não funciona como reflexão importante para a textualidade do texto como um todo. Trata-se de um comentário incidental do enunciador sobre a evidência da cena narrada. A questão cobra a função local dos travessões no trecho, e não uma relevância temática ampla.
C
Errada
Está errada porque, embora a ideia de "adendo" toque a noção de acréscimo, ela não alcança o critério exato exigido: os travessões isolam uma intercalação de valor parentético. A alternativa correta precisava indicar a função específica análoga à dos parênteses, e não apenas dizer genericamente que há uma informação isolada.
D
Errada
Está errada porque não há base no trecho para afirmar que os travessões marcam claramente uma intencionalidade discursiva de emocionar. O uso do sinal, nesse caso, é sintático-discursivo: destacar um comentário intercalado do enunciador.
E
Errada
Está errada porque, nesse trecho, os travessões não foram empregados para trazer oralidade nem para aproximar ficção e realidade. Seu papel é isolar o comentário "estava claro" dentro da oração principal. Não se trata de travessão de fala nem de marca prioritária de oralização.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre efeito discursivo amplo e função pontuacional específica, além da associação automática do travessão à oralidade ou ao diálogo. Aqui, o decisivo era reconhecer o valor parentético da expressão intercalada.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se o trecho entre travessões pode ser retirado sem destruir a estrutura principal da oração; se puder, há forte sinal de intercalação parentética.
  • Quando a questão cobrar pontuação, priorize a função sintática e discursiva local do sinal, não efeitos vagos como emoção ou expressividade.
  • Não associe travessão automaticamente a diálogo: ele também pode isolar comentário incidental do enunciador.
  • Se houver duas alternativas próximas, prefira a que nomeia com precisão a função do sinal, e não a que usa formulação genérica.

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