Por mais sofisticada que seja a tecnologia, ela não chega nem
perto da experiência planetária de mais de 3,5 bilhões de anos
das bactérias e fungos
Carlos Starling | 08/10/2024
Nascemos estéreis. Virgens de qualquer bactéria no corpo.
Ao passar pelo canal vaginal, entramos em contato com os
primeiros micro-organismos que nos colonizam. O beijo e as
lágrimas de felicidade da mãe e do pai nos fornecerão as
bactérias mais carinhosas que jamais conheceremos. Aos
poucos, elas vão se ajeitando em minúsculos espaços da pele,
boca, intestinos e vias respiratórias.
Em poucos dias, serão maioria nesse novo ser que acaba
de nascer. Dois mundos em dimensões distintas, compartilhando
o que chamamos de vida. Enganam-se os que acham que esses
dois universos são pura harmonia. Pelo contrário. Precisamos de
um exército de células de defesa, bem treinado e capacitado pela
seleção natural para conter a fome desses minúsculos seres. Do
primeiro ao último dia da nossa breve passagem por esse planeta,
elas tentam alcançar espaços que não lhes pertencem. Cerca de
7 mil atentos leucócitos circulando por artérias e veias nos
manterão vivos. Enquanto brincamos, crescemos, amamos,
rimos e sofremos, eles trabalham para manter nossos planos e
ilusões.
“Viver é perigoso”, assim disse Riobaldo, personagem de
Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. Micro-organismos
alienígenas inevitavelmente nos encontrarão ao longo da vida.
Nesse momento, contamos com uma tecnologia aliada,
desenvolvida há menos de um século: os antibióticos. Além dos
invasores, eles são “fogo amigo” contra nossa população
microbiana, com a qual nascemos e estamos familiarizados. Os
seres que ocuparão esse espaço vazio deixado em nossa pele e
mucosas, geralmente, são resistentes a essas drogas fantásticas,
que, juntamente com as vacinas e o saneamento básico, nos
DERAM a longevidade que temos hoje.
Quanto mais vulneráveis estivermos, mais necessitamos de
antimicrobianos para nos mantermos vivos, e mais resistentes se
tornarão as bactérias e fungos que nos habitam. Por mais
sofisticada que seja a tecnologia, ela não chega nem perto da
experiência planetária de mais de 3,5 bilhões de anos das
bactérias e fungos.
As bactérias multirresistentes (multi-R) desafiam
praticamente todos os antimicrobianos que temos disponíveis em
nosso arsenal terapêutico, nos deixando, como médicos, sem
opção para tratar os pacientes, particularmente aqueles mais
graves.
A revista científica The Lancet publicou recentemente a
estimativa de que, até 2050, 1,9 milhões de pessoas devem ser
mortas todos os anos por infecções provocadas por bactérias
multi-R, um aumento de 67% em relação à projeção de 2021. A
OMS considera esta uma das 10 mais importantes ameaças de
saúde pública global.
No último 26 de setembro, a Assembleia Geral da ONU
reiterou o documento de compromisso de combate à resistência
microbiana de 2016, o qual foi assinado por 192 países, inclusive
o Brasil. Assim como os compromissos de controle da emissão
de gases de efeito estufa, esse documento poderá ir para a gaveta dos representantes da maioria dos países signatários.
Mas pelo menos é o reconhecimento da importância do tema para
a saúde global e de que investimentos pesados deverão ser feitos
em pesquisas para reverter esse cenário sombrio para os
próximos anos.
Porém, um fenômeno ainda mais preocupante e de
consequências devastadoras vem acontecendo no mundo, e o
Brasil não fica fora dessa: o crescimento do negacionismo.
Ignorar o aumento da resistência microbiana, assim como a
importância das vacinas, o aquecimento global e a urgência
climática com consequências devastadoras é como não perceber
o fogo no paiol.
Eventos climáticos extremos de origem natural eliminaram
milhares de espécies do planeta no passado, o que, de certa
forma, nos favoreceu enquanto Homo sapiens. Entretanto, o que
vivemos agora são alterações planetárias produzidas pelo próprio
homem, com seu modelo de desenvolvimento predatório,
extrativista, egoísta, imediatista e irresponsável.
GLOSSÁRIO:
- Point of no return: expressão inglesa que se traduz por “ponto de não retorno”.
Tal expressão tem sido utilizada para alertar sobre a chegada de um momento em
que não será mais possível voltar atrás nas ações que têm causado as mudanças
climáticas e suas consequências.
STARLING, Carlos. A um pum do “point of no return”. Estado de Minas, 08 de
outubro de 2024. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlosstarling/2024/10/6959361-a-um-pum-do-point-of-no-return.html.
Acesso em: 13 out. 2024. Adaptado.
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