🎯 Saiba o que estudar

Avançado com Treinador a partir de R$ 0,76/dia

Em que opção as ideias expressas NÃO encontram respaldo no ...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q4155998 Português

Leia o texto e responda à questão.

Texto I

'Quer adressar?', me perguntou a moça

Dicas para acessar o português moderno e não dar a resposta errada a uma boa proposta

De início, não entendi o verbo cravado no coração da frase e, usando o envelhecer a meu favor, fingindo perda de audição pela idade avançada, pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.

O cenário era a loja chique de um shopping no Leblon, onde eu negociava com ela, vendedora educadíssima, os últimos detalhes da compra de um produto volumoso que, sem carro, eu não podia levar naquele momento. Foram necessárias três repetições da frase até que - como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui - a ficha caiu:

“Eu posso adressar o produto amanhã cedo para a sua casa?”, era o que perguntava a moça, fazendo-se finalmente entender.

Os neologismos participam da língua, inputam em alguns casos a solução onde antes havia um gap de comunicação. “Adressar’, metabolizado do inglês to address, era endereçar a paciência para um lugar muito distante de qualquer necessidade, mas entendi o approach. A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping. Bastava me remeter (se quisesse falar um português bonito), me despachar (se gostasse de mostrar a chiadeira do sotaque carioca) ou simplesmente me entregar a compra - verbos que seriam imediatamente compreensíveis por qualquer idoso - amanhã cedo. Ri por dentro.

A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, rogar na de Luís de Camões, na de Ana Martins Marques, e - como o tamanduá esticando a dele para pegar as formigas - tirar prazer disso. Para manter o emprego, equilibro num parágrafo as ordens do manual de redação - exibindo às vezes uma mesóclise de polainas - e já no parágrafo seguinte caio de boca - com o piercing no lábio inferior - no saboreio do último barbarismo ouvido na esquina. Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.

Ela adora uma novidade, mas não é boba. Já enfrentou o gerundismo, o “a nível de”, o prefeito que proibiu usar “sale” nas vitrines, o “atravessamento”, o ministro que traduzia para o tupi-guarani as expressões que chegavam ao gabinete em inglês. Na onda do mundo digital, é natural reciclar palavras que acessem, que resetem, que escaneiem ou zapeiem o novo cotidiano agora online. Algumas logo desaparecem debaixo da risada geral (estartar, por exemplo), outras seguirão, numa nice, para os jobs do dia a dia.

Eu printo, tu printas, quem nunca? Na semana passada, uma amiga me telefonou para contar a última do vocabulário em seu escritório. Na reunião da manhã, o diretor executivo exultava de felicidade, e fez um speech dizendo que “o resultado do benchmark draivou a melhoria do processo” - isso mesmo, no sentido de “to drive” do inglês, o benchmark guiou, dirigiu com sucesso os negócios do escritório. O resto foi o de sempre, e tome deadline, upscaling, asap, trade marketing e foco no cliente.

A propósito. Preciso dizer que quando eu, cliente, finalmente entendi o que a moça na loja do shopping queria dizer com a proposta de “adressar” a compra, eu aquiesci jovial - e me fiz up to date:

“Sim, por favor, adressa, sim”.

(SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/joaquim-ferreira-dos-santos/coluna/2025/10/quer-adressar-me-perguntou-a-moca.ghtml>.

Em que opção as ideias expressas NÃO encontram respaldo no texto?  
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O comando pede a opção cujas ideias NÃO encontram respaldo no texto, de modo que vale a aderência estrita ao que é explicitado ou claramente inferível. O trecho “A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, rogar na de Luís de Camões, na de Ana Martins Marques, e - como o tamanduá esticando a dele para pegar as formigas - tirar prazer disso. [...] Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.” define uma postura lúdica, irônica e anti-purista; por isso, a alternativa B extrapola ao atribuir ao cronista a finalidade de enaltecer uma prática “questionadora dos preconceitos formais”, formulação não sustentada pelo texto.

Tema central: respaldo textual estrito
Análise das alternativas
A
Errada
Está respaldada pelo texto. O fecho “Sim, por favor, adressa, sim” mostra que o narrador aquiesce ao uso de “adressa”, e essa adesão final tem valor irônico e performático, coerente com o que ele já declarara no 5º parágrafo: “A ideia aqui é mexer com a língua” e “tirar prazer disso”.
B
Certa
A alternativa B é a única que ultrapassa o que o texto sustenta. O cronista realmente se distancia dos “rigores de um professor de português” e se apresenta como alguém que “mete a língua onde não se foi chamado”, mas isso aparece ligado ao prazer de experimentar a linguagem, à ironia e à recusa do purismo, não a um projeto explícito de enfrentamento de “preconceitos formais”. Essa finalidade ideológica não está formulada nem se impõe como inferência segura.
C
Errada
Está respaldada pelo texto. No 4º parágrafo, o cronista ironiza o neologismo ao dizer que “Adressar’ [...] era endereçar a paciência para um lugar muito distante de qualquer necessidade” e ao afirmar que “A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping”. Ao mesmo tempo, ele próprio incorpora esse jogo linguístico no texto com formas como “inputam”, “gap” e “approach”, o que confirma a autorreferência metalinguística apontada na alternativa.
D
Errada
Está respaldada pelo texto porque a frase inicial do 5º parágrafo é desenvolvida e confirmada no próprio parágrafo. “A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista” é ratificada por “A ideia aqui é mexer com a língua”, por “Nada a ver com os rigores de um professor de português” e por “O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem”. Há reforço semântico, não contradição.
E
Errada
Está respaldada pelo texto. As formas “adressar” e “estartar” exemplificam a presença de estruturas vindas do inglês e incorporadas, adaptadas ou experimentadas em português. A alternativa reconhece, no próprio material verbal do texto, a interação linguístico-cultural entre idiomas.
Pegadinha da questão
A banca construiu a alternativa B com começo verdadeiro e final extrapolado: do contraste com os “rigores de um professor de português”, induz o candidato a concluir, sem base textual suficiente, que o cronista pretende enaltecer uma prática “questionadora dos preconceitos formais”.
Dica para questões semelhantes
  • Em questões de “NÃO encontra respaldo”, elimine a alternativa que acrescenta finalidade, tese ou intenção que o texto não enuncia nem autoriza com segurança.
  • Separe recusa do purismo de militância explícita: uma postura lúdica e anti-normativa não equivale automaticamente a defender uma agenda nomeada pela alternativa.
  • Quando o texto ironiza um uso linguístico e também o incorpora, isso costuma indicar jogo metalinguístico, não condenação absoluta.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo