Considerando a situação comunicativa do texto — um ensaio q...

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Q3917024 Português
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O Barqueiro do Paraíba é uma daquelas lendas que parecem nascer do próprio ritmo do rio. Em Jacareí, onde o Paraíba do Sul atravessa a cidade e organiza paisagens, pontes e memórias, a narrativa circula há gerações como aviso e assombro. Diz-se que, em tempos em que a travessia era mais incerta e dependia de embarcações, um homem passou a surgir nas margens em noites silenciosas. A presença dele não vinha acompanhada de pressa nem de conversa: vinha como um chamado, como se o rio, de repente, tivesse voz. E, quando a neblina baixa, a água parece engolir ruídos, deixando o cenário pronto para que qualquer sombra ganhe sentido.

A figura é descrita como enigmática, quase sempre sem rosto: há versões em que ele permanece de costas, evitando que o passageiro o reconheça. O convite é simples, direto, econômico — “suba”, “entre”, “passagem” — como se a travessia fosse apenas mais uma rotina. A diferença é o destino: quem aceita, segundo o relato popular, não é visto novamente. A canoa segue, mas não retorna; o barqueiro oferece caminho, mas não garante volta. O terror da lenda está menos no grito e mais na normalidade do gesto, como se o extraordinário se escondesse dentro de um serviço comum. Com o tempo, o Barqueiro vira símbolo de um medo antigo: o de atravessar limites sem saber o preço. O rio, que sustenta transporte e trabalho, também pode ser lido como fronteira — entre bairros, entre tempos, entre vida cotidiana e aquilo que não se explica. Não é por acaso que muitas versões situam a aparição em noites de neblina ou sem luar, quando o contorno do mundo perde nitidez e a água parece maior do que as margens. A história, então, opera como regra social e imaginação coletiva: ela regula o risco e, ao mesmo tempo, dá forma ao mistério.

Hoje, mesmo com pontes e cidade iluminada, a lenda persiste porque não depende apenas da geografia: depende da sensação de que certos lugares guardam um resto de passado. O Paraíba do Sul segue atravessando Jacareí, carregando histórias, enchentes, pescarias e rotas, e a memória do barqueiro se encaixa nessa corrente como um eco. Ao ser recontada, a narrativa reforça uma ideia simples e poderosa: há travessias que mudam a gente — e há convites que, por mais calmos que pareçam, exigem desconfiança quando vêm de dentro da neblina.
Considerando a situação comunicativa do texto — um ensaio que analisa a persistência de narrativas folclóricas no contexto urbano contemporâneo — o autor posicionase como: 
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O comando já define a situação comunicativa do texto como "um ensaio que analisa a persistência de narrativas folclóricas no contexto urbano contemporâneo", e os trechos decisivos confirmam uma leitura interpretativa e simbólica da lenda — por exemplo, "Com o tempo, o Barqueiro vira símbolo de um medo antigo: o de atravessar limites sem saber o preço.", "O rio, que sustenta transporte e trabalho, também pode ser lido como fronteira" e "A história, então, opera como regra social e imaginação coletiva". Assim, a voz autoral é a de um observador analítico, o que conduz à alternativa B.

Tema central: posicionamento enunciativo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não apresenta narrador participante dos eventos sobrenaturais. Não há relato em primeira pessoa, testemunho ou inserção do enunciador na ação. Ao contrário, há distanciamento analítico e leitura interpretativa da lenda como fenômeno cultural, o que exclui a ideia de narrador onisciente que participa ativamente dos fatos.
B
Certa
A alternativa B está correta porque o autor não se coloca como personagem da lenda nem como mero registrador de fatos: ele interpreta o mito. Isso aparece quando atribui funções simbólicas e sociais à narrativa, ao dizer que o barqueiro "vira símbolo", que o rio "pode ser lido como fronteira" e que a história "opera como regra social e imaginação coletiva". Além disso, o comando já define o texto como ensaio analítico sobre a persistência de narrativas folclóricas no contexto urbano contemporâneo. Portanto, a voz autoral é a de um observador analítico que interpreta cultural e simbolicamente o mito.
C
Errada
Está errada porque o texto não é historiográfico-documental nem se dedica a catalogar datas e nomes. Não há inventário factual, cronologia, documentos ou identificação de antigos barqueiros. As referências ao rio, à cidade e ao passado servem para interpretar a permanência simbólica da lenda, não para fazer levantamento histórico exclusivo.
D
Errada
Está errada porque o texto não tenta desmascarar a lenda por provas científicas ou estatísticas. Não aparecem dados, testes, linguagem de refutação empírica nem tese de falsidade. O tom é racional e analítico, mas usado para explicar a função simbólica e a persistência cultural da narrativa no imaginário urbano.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre texto que analisa uma lenda e texto que narra a lenda. Como o início reconta elementos do mito, o candidato pode marcar narrador participante ou cético racional; porém os trechos interpretativos mostram que o foco real é a leitura cultural e simbólica da narrativa.
Dica para questões semelhantes
  • Comece pelo comando da questão: se ele define o gênero ou a situação comunicativa, isso orienta diretamente a identificação da voz autoral.
  • Procure marcas de interpretação, como formulações que atribuem sentido simbólico, social ou cultural ao texto; elas distinguem análise de simples narração.
  • Elimine alternativas por ausência concreta de traços: sem primeira pessoa participante, não há narrador envolvido; sem datas, nomes e documentos, não há historiografia factual; sem dados e refutação empírica, não há ceticismo científico.

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