Mudanças climáticas e impactos sobre o meio urbano
A questão dos impactos das mudanças climáticas
sobre o meio urbano e sobre a população residente das
cidades em todo o mundo tem sido intensamente
estudada há décadas. Mais de 50% da população urbana
vive no meio urbano, e projeções indicam que esse
percentual continuará crescendo no curto e no médio
prazo, e possivelmente comece a cair mais para o fim do
século XXI. Adicionalmente, as cidades são importantes no
contexto das mudanças climáticas por serem responsáveis
por cerca de 75"/o do consumo mundial de energia e das
emissões de gases de efeito estufa.
Muitas cidades estão localizadas em áreas costeiras,
as quais são suscetíveis a impactos relacionados com o
aumento do nível dos mares e oceanos, como, entre
outros, a redução da área urbana e a destruição causadas
por enchentes. Esse tipo de impacto é de grande
preocupação em um país como o Brasil, no qual parte
considerável de sua população reside em cidades costeiras
e muitas das capitais estaduais (11 de 27), e diversas das
maiores regiões metropolitanas, localizam-se junto ao
oceano Atlântico. Estudos estimam que em 2050 os
prejuízos relacionados ao aumento do nível do mar nas
cidades costeiras ao redor do globo possam atingir algo
entre US$ 60 e US$ 63 bilhões, mesmo no caso de
investimentos em medidas adaptativas.
Com relação à questão de potenciais prejuízos à saúde
da população urbana em função das mudanças climáticas,
estudos concluem que a temperatura média no Brasil deve
aumentar tanto no futuro próximo (2030-2050), entre 1 e
2,5 °C, quanto no futuro mais distante (2079-2099), entre
1,5 e 5,8 °C, com relação ao período presente (1996-2016).
Em consequência desse aumento esperado da temperatura
média, projeta-se que a mortalidade por doenças
cardiovasculares em pessoas idosas associadas a ondas de
calor aumente entre 300% e 757% no futuro próximo e
242% e 1.257% no futuro distante.
Com relação aos riscos associados ao uso da água no
meio urbano, um estudo global realizado com base em
dados de 482 das maiores cidades do mundo avaliou os
impactos das mudanças climáticas nesse aspecto. As
projeções indicam que a demanda por água nessas
metrópoles deve crescer 80% até 2050. Paralelamente a
esse aumento de consumo, as alterações climáticas
tendem a modificar a distribuição temporal e espacial das
chuvas e dos mananciais, ameaçando diretamente a
segurança hídrica de grande parte dessas regiões. Estima-se que, até 2050, mais de 27% das cidades analisadas -
que somam uma população de mais de 233 milhões de
pessoas enfrentarão uma demanda de água superior à
disponibilidade natural de suas fontes locais. Além disso,
outros 19% dos municípios, que dependem de obras de transposição e transferência de água entre bacias,
apresentarão um risco elevado de disputa pelo uso dos
recursos hídricos entre os setores urbano e agrícola. No
caso brasileiro, estudos indicam que, possivelmente, a
região mais afetada pelas mudanças climáticas com
relação à água, não somente no meio urbano, será o
semiárido, a maior parte localizado na região Nordeste.
Em suma, embora a intensidade exata dos impactos
climáticos sobre o ambiente urbano ainda carregue
margens de incerteza, a tendência de agravamento dessas
ameaças para as próximas décadas é indiscutível. Diante
desse cenário, a garantia de cidades mais seguras e
resilientes exigirá um esforço coordenado em duas frentes
indissociáveis: a mitigação, voltada para combater as
causas do aquecimento global, e a adaptação, focada em
preparar as infraestruturas para os efeitos que já se
tornaram inevitáveis.
Adaptado de: CEREZINI, M. T. Mudanças climáticas: desafios para a
adaptação nas regiões metropolitanas brasileiras / Monise Terra Cerezini,
César Nunes de Castro. - Brasília, DF: Ipea, 2024.
Sob a ótica da estrutura textual e do tom da
autora do texto, a transição entre a apresentação de dados
alarmantes (parágrafos 2, 3 e 4) e a conclusão (parágrafo
5) se dá por meio de um posicionamento: