Incipiente alegria na tarde
carnavalesca. Os sambas passam nos
automóveis abertos. Um vento beija a avenida
larga, trêmula nas serpentinas, rodopia nos
confetes, caminha na voz das cantigas. As
moças lindas, em fantasias de cores vivas e
leves, vão com os cabelos alvoroçados pelo
vento. Meu amigo comprou 200 gramas
metálicas. Andou pelas ruas que se animavam.
Encheu os bolsos de confetes. Foi andando...
E na boca da noite vieram cordões,
ranchos, blocos, bandos. A multidão encheu as
ruas que a noite engoliu. Mas as luzes
rebentaram de todos os lados e a garganta da
massa se abriu em delírio. Meu amigo foi
andando. Apertou-se entre homens excitados e
mulheres que cantavam e riam. Entrou na
confusão das raças irmanadas pelo prazer
comum da carne. Alguém lhe jogou confetes
na boca, lança-perfume nos olhos. Uma
serpentina bateu em seu nariz. Um reco-reco
gritou em seu ouvido. Foi andando. Um
automóvel do corso quase o esmagou. Um
bloco o arrastou pelo meio da massa, com força
inelutável de uma corrente marinha. Uma
mulher qualquer cantou à toa, para ele, uma
frase de samba. Jogou um pouco de confetes
no cabelo da mulher. Jogou-lhe éter no corpo.
Ela defendeu-se e riu. Depois desapareceu,
arrastada. Meu amigo foi andando. Tinha um
cravo na lapela, um cravo que tirara da mesa
do restaurante. Uma moça pediu a flor. Ele a
encharcou de éter e fez presente. Foi andando.
Automaticamente cantou sambas e marchas.
Teve mil pequenas aventuras inconsequentes e
rápidas. Um homem bêbado quis arrebatar o
lança-perfume de sua mão. Foi andando. No
meio de uma confusão, recebeu e distribuiu
socos e empurrões sem saber de quem, para
quem, por que, nem para quê.
Meu amigo entrou no baile. Agarrou-se
ao ombro de uma mulher e foi no cordão,
dançando, cantando, suando. Repetiu três
vezes com o mesmo par a marchinha do
momento. Apaixonou-se de repente por uma fantasia, por um corpo, por uma risada. Bebeu.
Meu amigo foi a outro baile. De madrugada,
meu amigo saiu pela rua vazia, sem programa.
Passavam os foliões cansados, as mulheres
mais belas pela fadiga e pelo suor. Um homem
grisalho carregava pelo braço uma adolescente
que se queixava de dor nos pés.
Meu amigo arranjou uma mulher: a
mulher que sempre aparece. A mulher que não
vimos na rua nem no baile e que aparece na
mesa do bar ou do restaurante, no último
instante. Esguichou seu último lança-perfume
nos braços e nos seios da mulher. Jogou os
últimos confetes em seu cabelo. Ela repetiu um
samba mil vezes repetido. Foram.
No caminho, meu amigo parou. No
canto da calçada, um menino sujo e
esfarrapado dormia. Dormia sobre um saco de
estopa cheio de serpentinas que juntara para
vender. Pararam. A mulher disse: coitadinho...
Meu amigo olhou em silêncio o menino que
dormia. Sentiu pena. Olhou a mulher.
Balançou a bisnaga. Ainda havia um resto de
éter. Jogou na perna da criança, que acordou
assustada. A mulher disse: você é ruim!
coitadinho... A criança ficou olhando
estremunhada, resmungou um xingamento e
tornou a dormir. Meu amigo jogou a bisnaga
no asfalto. Sentia-se bêbado. Apertou a mulher
contra seu corpo e mandou parar um
automóvel que passava. No apartamento, antes
de deitar-se, olhou-se no espelho do guarda-roupa. Fantasiado. Exausto. Beijou a mulher na
boca como se beija uma noiva. E pensou
desanimado: eu sou um folião. Evoé!
BRAGA, R. O Conde e o passarinho e Morro
do Isolamento. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Record,
1982.
Considere o excerto: “Apertou-se entre
homens excitados e mulheres que cantavam e
riam.” Nesse contexto, as palavras “se”,
“entre”, “mulheres” e “que” classificam-se
gramaticalmente e respectivamente como: