João e Maria não são mais as crianças ingênuas
que se deixavam iludir por uma casa feita de doces no
meio da floresta. Adultos, se tornaram caçadores
mercenários que querem vingança contra a bruxa que
um dia ameaçou suas vidas. A Bela Adormecida, por sua
vez, já não é vítima do feitiço de uma bruxa invejosa.
Por vontade própria, ela cai em sono profundo para
satisfazer o fetiche dos homens.
Não, não deu a louca nos contos de fadas. Foi o
cinema que decidiu cortar os “felizes para sempre" do
roteiro mais popular dessas histórias e recontá-las sob
perspectiva mais adulta e, em alguns casos, mais
sombria também, como nos exemplos acima. Seguindo
"A Garota da Capa Vermelha", longa baseado no conto
Chapeuzinho Vermelho que estreou nos cinemas este
mês, pelo menos mais outros seis filmes inspirados em
contos de fadas, mas com uma abordagem bem
diferente das doces adaptações feitas pela Disney que
se acostumou a ver nos cinemas, devem chegar à tela
grande entre este ano e o próximo.
O olhar menos ingênuo e mais pesado que os
novos filmes lançam sobre os contos de fadas espelha
aspectos da própria atualidade. "A Fera", por exemplo,
que ainda não tem data de estreia no Brasil, traz "A Bela
e a Fera" para o século XXI propositalmente. "Eu adorei
a ideia de tornar contemporânea a história e ambientála em um colégio. O conto trata da forma como se lida
com a aparência e achei a escola o cenário ideal para
explorar a obsessão que a nossa cultura e a nossa
juventude têm pelo visual", comentou o diretor Daniel
Barnz, em entrevista de divulgação do filme.
Essa sintonia com o presente ultrapassa a
questão da temática e encontra eco também na própria
origem dessas narrativas, cujas primeiras versões, de
séculos atrás, nada tinham de infantil. "Na origem, os
contos de fadas eram histórias para adultos. No século
passado, eles foram bastante atenuados para se
direcionarem às crianças, que passavam a ser vistas
como seres frágeis e necessitados de proteção. E,
agora, tais textos estão voltando a ser adultizados,
assim como as próprias crianças vêm se mostrando",
sugere Patrícia Magero Pitta, doutora em teoria da
literatura pela PUC-RS. "A Garota da Capa Vermelha" foi
um dos filmes da nova safra que buscou inspiração
nessa fonte adulta. O roteiro foi criado após o estudo de
inúmeras versões, muitas delas perturbadoras, que o
conto de Chapeuzinho Vermelho teve ao longo da
história. No filme, a Chapeuzinho é uma jovem crescida e sensual, apaixonada pelo lenhador, mas prometida em
casamento para o ferreiro. Ela planeja fugir com seu
grande amor, mas adia a decisão depois que a irmã é
assassinada por um lobisomem, cuja identidade é
desconhecida.
Ao mesmo tempo, porém, a avalanche de
produções com esse viés também não deixa de contar
com uma dose de esperteza da indústria do cinema.
Assim como as adaptações de livros ou cinebiografias,
os contos podem se converter em um filão lucrativo para
a indústria. "Hollywood sempre investe em franquias
estabelecidas, como os personagens de quadrinhos, os
heróis. Os contos de fadas se enquadram na mesma
ideia. Além disso, tem o conforto em saber que existe
um público que já está familiarizado com essas histórias
e vai querer ver novas versões", observa o crítico de
cinema Pablo Villaça, editor do site Cinema em Cena.
Mas essa familiaridade com a estrutura das
histórias tem efeitos que vão além da atração do público
para as salas de cinema, acredita a professora do
Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul Márcia Ivana de Lima e Silva. "Os contos
de fadas continuam valendo até hoje na sua estrutura
mínima, que propõe solução de problemas, e é por isso
que eles acabam sendo aproveitados por esse cinema
comercial. O filme acaba tendo essa particularidade de
mostrar a solução das situações de uma forma tranquila,
quase que renovando as nossas possibilidades de
enfrentar o cotidiano, e isso independe da idade",
explica.
Não por acaso, filmes para todos os tipos de
público já se apropriaram das estruturas dos contos de
fadas para construírem seus enredos, destaca a
escritora e doutora em teoria da literatura Viviane
Dexheimer Gil. É o caso de "Harry Potter", que trata do
afastamento da família, a série "Crepúsculo", que
aborda o impedimento amoroso, mas também "Cisne
Negro", que gira em torno da libertação, e "Uma Linda
Mulher", uma espécie de Cinderela dos anos 1980.
Considere o seguinte uso da vírgula:
Usa-se a vírgula para separar adjunto adverbial
antecipado ou intercalado no discurso.
Considerando o uso apresentada, em destaque,
há um exemplo desse uso em:
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