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Q24229 Português

As crônicas de Rubem Braga



Décadas atrás, afortunados leitores de jornal podiam
contar com uma coluna em que sobravam talento, reflexão,
observação atenta das cenas da vida, tudo numa linguagem
límpida, impecável, densamente poética e reflexiva. Era uma
crônica de Rubem Braga. Os chamados "assuntos menores",
que nem notícia costumam ser, ganhavam na pena do cronista
uma grandeza insuspeitada. Falasse ele de um leiteiro, de um
passarinho, de um pé de milho, de um casal na praia, de uma
empregada doméstica esperando alguém num portão de
subúrbio ? tudo de repente se tornava essencial e vivo, mais
importante que a escandalosa manchete do dia. É o que
costumam fazer os grandes artistas: revelam toda a carga de
humanidade oculta que há na matéria cotidiana pela qual
costumamos passar desatentos.



Rubem Braga praticamente só escreveu crônicas, como
profissional. À primeira vista, espanta que seja considerado um
dos grandes escritores brasileiros dedicando-se tão-somente a
um gênero considerado "menor": a crônica sempre esteve longe
de ter o prestígio dos romances ou dos contos, da poesia ou do
teatro. Mas o nosso cronista acabou por elevá-la a um posto de
dignidade tal que ninguém se atreverá de chamar seus textos
de "páginas circunstanciais". Tanto não o foram que estão todas
recolhidas em livros, driblando o destino comum do papel de
jornal. Recusaram-se a ser um entretenimento passageiro:
resistem a tantas leituras quantas se façam delas, reeditam-se,
são lidas, comentadas, não importando o dia em que foram
escritas ou publicadas.



Conheci Rubem Braga já velho, cansado, algo
impaciente e melancólico, falando laconicamente a estudantes
de faculdade. Parecia desinteressado da opinião alheia,
naquele evento organizado por uma grande empresa, a que
comparecera apenas por força de contrato profissional.
Respondia monossilabicamente às perguntas, com um olhar
distante, às vezes consultando o relógio. Não sabíamos, mas já
estava gravemente doente. Fosse como fosse, a admiração que
os jovens mostravam pelo velho urso pouco lhe dizia, era



evidente que preferiria estar em outro lugar, talvez sozinho,
talvez numa janela, ou na rede do quintal de seu apartamento
(sim, seu apartamento de cobertura tinha um quintal aéreo,
povoado de pássaros e plantas), recolhendo suas últimas
observações, remoendo seus antigos segredos. Era como se
nos dissesse: "Não me perguntem mais nada, estou cansado,
tudo o que me importou na vida já escrevi, me deixem em paz,
meninos."



E teria razão. O leitor que percorrer crônicas do velho
Braga saberá que ele não precisaria mesmo dizer nada além do
que já disse e continua dizendo em suas páginas mágicas,
meditadas, incapazes de passar por cima da poesia da vida.



(Manuel Régio Assunção)

Estão corretos o emprego e a forma dos tempos verbais na seguinte frase:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a correção morfológica e a adequação de emprego das formas verbais na frase: só em C há forma verbal correta e correlação modo-temporal compatível, sem desajuste entre as orações.

Tema central: emprego e forma dos tempos verbais
Análise das alternativas
A
Errada
O problema está em "estará sabendo atestar". Embora "vir a percorrer" seja aceitável, essa locução com futuro mais gerúndio de "saber" fica inadequada ao sentido de capacidade ou reconhecimento pretendido. A base é clara: para esse valor, a construção compatível seria "saberá atestar", não a perífrase usada na alternativa.
B
Errada
Há quebra de correlação modo-temporal. "Falava" está no pretérito imperfeito do indicativo, mas "aprouver" e "depare" aparecem em formas subjuntivas com valor eventual ou futuro. A frase mistura tempos e modos sem amarração sintática que justifique essa combinação, o que inviabiliza a alternativa.
C
Certa
A alternativa C é a única em que há simultaneamente correção da forma verbal e adequação de emprego. "Conveio" é forma correta do pretérito perfeito do indicativo do verbo "convir", e "decidiu valer-se" está bem estruturado, com sequência temporal coerente e infinitivo pronominal adequadamente empregado. Além disso, o conteúdo da frase é compatível com a ideia de que Rubem Braga não aceitou a limitação atribuída à crônica e a elevou a alta expressão literária.
D
Errada
A inadequação está em "que o escritor soubesse ministrar". O imperfeito do subjuntivo não se justifica, porque o contexto não expressa hipótese, condição ou eventualidade; o sentido é factual e habitual no passado. Por isso, o emprego de "soubesse" quebra o valor semântico exigido pela frase.
E
Errada
A forma "advira" está desajustada ao contexto temporal e semântico da frase. A base indica que, para exprimir o resultado passado decorrente da obra, a formulação adequada seria "adveio" ou construção equivalente. Portanto, a alternativa erra justamente no emprego da forma verbal.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: o estranhamento com uma forma correta pouco frequente, "conveio", e a tendência de aceitar formas verbais cultas ou existentes no sistema da língua sem verificar se estão bem empregadas na correlação de tempo, modo e sentido da frase.
Dica para questões semelhantes
  • Não basta reconhecer que a forma verbal existe; confirme se ela está adequada ao sentido e à estrutura da frase.
  • Verifique a correlação entre os verbos do período: tempo e modo precisam ser compatíveis entre si.
  • Desconfie de locuções verbais longas quando uma forma simples expressaria melhor o valor pretendido.
  • Não elimine uma alternativa só porque a forma parece rara; primeiro confirme se a flexão está correta.

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Comentários

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VERBO CONVIR:

eu convim
tu convieste
ele conveio
nós conviemos
vós conviestes
eles convieram
Devem ter digitado errado "valer-se" na hora de passar a prova, só pode ser!
Estão corretos o emprego e a forma dos tempos verbais na seguinte frase: Não conveio a Rubem Braga aceitar a suposta fatalidade de ser um gênero "menor", pois decidiu valerse da crônica como veículo de alta expressão literária. Alternativa correta letra "C".

a) O leitor que vir... Que vier! Verbo no futuro do subjuntivo.

b) O grande cronista falava do que lhe prouver... Lhe provera! Verbo no pretérito mais que perfeito do Indicativo.

c) Verbo convir, já foi conjugado pelo colega acima.

d) Desafortunado o leitor que não reter... Retem. Verbo no presente do Indicativo.

e) eu tenho dúvida nessa letra... O verbo advir, poderia ser empregado no futuro do pretérito do indicativo? Adviria...

Quem puder ajudar?

Força gente, chegaremos lá!

Todos temos adversidades, por isso mesmo não podemos desistir!

A. O leitor que vir vier a percorrer crônicas do velho Braga estará sabendo atestar o valor de permanência dessas páginas.

VIR

Futuro do Subjuntivo

B. O grande cronista falava do que lhe aprouver aprouvia, confiante na riqueza da matéria oculta de cada cena, de cada fragmento da vida cotidiana com que se depare.

APROUVER (Aprazer) - VER

Pretérito Imperfeito do Indicativo

C. Não conveio a Rubem Braga aceitar a suposta fatalidade de ser um gênero "menor", pois decidiu valer-se da crônica como veículo de alta expressão literária.

CONVIR - VIR

Pretérito Perfeito do Indicativo

D. Desafortunado o leitor que não reter retiver das crônicas de Rubem Braga as lições de poesia e de estilo, que o escritor soubesse ministrar a cada texto.

RETER - TER

Futuro do Subjuntivo

E. Da obra de Rubem Braga advira adviera um prestígio que o gênero da crônica jamais gozara anteriormente, considerada que fosse como simples leitura de entretenimento.

ADVIR - VIR

Pretérito Mais-que-Perfeito do Indicativo

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