Observa-se a mesma figura de linguagem que em: “Mas também o...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Ano: 2014 Banca: FUNCAB Órgão: SSP-SE Prova: FUNCAB - 2014 - SSP-SE - Perito Médico-Legal |
Q2750231 Português

Leia o texto abaixo e responda às questões propostas


Prometi escrever mais sobre a descriminalização das drogas. Começo com uma observação: é complicado liberar a venda e o consumo de drogas em um só país pobre como o Brasil, que em pouco tempo se tornaria – mais do que já é – um entreposto do tráfico internacional. Mas talvez não: se a droga fosse um produto comercializável como qualquer outro, sua circulação para fora do país estaria sujeita a controles alfandegários regulares, centralizados pelo Governo Federal, e não mais pelo crime organizado.


Há um argumento moral contra a legalização. [Mas] não é possível proibir o uso de droga por razões morais com uma mão ao mesmo tempo em que se cultiva a atitude subjetiva típica das drogadições com a outra. É difícil convencer um adolescente de que o uso de drogas vai prejudicar sua vida quando a única porta que a sociedade oferece para sua entrada na vida adulta é a porta do consumo – não de objetos, mas sobretudo de imagens, todas elas associadas a sensações alucinantes, emoções avassaladoras e prazeres transgressivos. Alguns anúncios de automóvel dirigidos a adolescentes não “vendem” as vantagens legais de andar de automóvel. Vendem a velocidade acima dos limites, a farra da galera e o prazer sacana de deixar os outros para trás. Vendem exibicionismo, exclusão (do outro), transgressão e “barato”. Várias propagandas de cerveja, de vodca e das novas Ices vendem, sem nenhum pudor, as alucinações ligadas ao consumo de álcool. Que moral tem uma sociedade assim para coibir a droga?


Outro argumento é de saúde pública. A droga pode matar. O vício pode inutilizar muita gente para os estudos e para o mercado de trabalho. Mas o mercado de trabalho não aproveita nem metade das forças a sua disposição e a rede pública escolar deixa de fora milhares de crianças e jovens que nunca se drogaram. O tráfico emprega e paga bem. A revista Reportagem de janeiro publicou pesquisa do Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (IBISS) mostrando que o tráfico nas favelas do Rio de Janeiro emprega hoje mais de 12 mil jovens de até 18 anos, contra pouco mais de 3 mil ocupados no mercado regular de trabalho. Para essas pessoas que estão sempre sobrando, o tráfico e o crime organizado não são um problema: são a grande solução. E a ilegalidade faz das drogas um produto de luxo, aumentando os lucros e o poder paralelo dos traficantes, além de alimentar as conexões do tráfico com outros setores do crime organizado.


Por fim, a criminalização da droga faz com que outras pessoas, que não o usuário, arquem com as consequências da drogadição nacional. É claro que os abusos no uso das drogas são um problema de saúde pública. Mas são casos-limite. Hoje, morre muito mais gente na guerra do tráfico – inclusive inocentes, crianças e trabalhadores atingidos por balas perdidas – do que de overdose. Há muito mais vidas de brasileiros desperdiçadas nos presídios, de onde poucos saem sociabilizados, do que nas clínicas de recuperação de drogados. O crime e o tráfico no Brasil são problemas de saúde pública. Mas também o alcoolismo, perfeitamente legal. E o abuso de cigarros.



(KEHL, Maria Rita. , Rev. : 31/03/2003, p. 28.)







Observa-se a mesma figura de linguagem que em: “Mas também o alcoolismo, perfeitamente legal.” (§ 4) na seguinte alternativa:

Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: A questão aborda figuras de linguagem, com foco na elipse, importante mecanismo de coesão e economia textual muito cobrado em provas de Língua Portuguesa para concursos.

Regra/Conceito: Pela norma-padrão, elipse é a omissão de um termo facilmente subentendido no contexto da frase. Segundo Cunha & Cintra (“Nova Gramática do Português Contemporâneo”), a elipse ocorre quando “um termo que, pela construção regular, deveria aparecer, é subentendido na oração”. Exemplo clássico: “No armário, só roupas velhas.” (O verbo “havia” está omitido).

Justificativa da alternativa correta (D):
“Em casa, nem sinal de gente.” — Aqui ocorre elipse do verbo haver. O enunciado correto seria: “Em casa, [havia] nem sinal de gente.” A omissão não compromete o entendimento, pois o termo oculto é facilmente percebido.

Analogamente, no trecho “Mas também o alcoolismo, perfeitamente legal.” extraído do texto, está subentendido o verbo “é”: “Mas também o alcoolismo [é] perfeitamente legal.” Dessa forma, as duas frases empregam a elipse de verbo.

Análise das alternativas incorretas:

A) “A vítima teve hemorragia de sangue.”
Pleonasmo vicioso: a palavra “hemorragia” já significa extravasamento de sangue.

B) “Meu tio, não o vejo há anos.”
Inversão sintática (hipérbato), sem omissão de palavras.

C) “O frade estourou de tanto rir.”
Sentido figurado (hipérbole), nenhuma omissão de termo.

E) “Ela era mãe duríssima e branda.”
Oxímoro (antítese extrema), não há elipse.

Estratégia para provas: Sempre que encontrar frases curtas, sobretudo sem verbo expresso, suspeite de elipse. Observe se a frase permanece clara e lógica, mesmo com a omissão.

Resumo: A alternativa D está correta pois também utiliza elipse verbal, assim como o trecho de referência.

Referências: Cunha & Cintra; Bechara – Figuras de Sintaxe (elipse).

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo