O grau do adjetivo em “Eu, principalmente, estava encabula...
Leia o texto a seguir para responder a questão.
Um coelho
Todo mundo sabe: uma agência de publicidade comemorou a Páscoa oferecendo um coelho vivo a 20 personalidades do Rio de Janeiro. Mas o que ninguém sabe é que só depois da Páscoa o meu coelho conseguiu me encontrar.
Dentro de uma gaiola, o coelho era pesado e assustadiço. Chamava-se Osvaldo — Osvaldo Coelho. No primeiro dia fiquei algumas horas com aquele bicho orelhudo à minha mercê, num restaurante. Providenciei cenouras para Osvaldo e pensei que não havia novidade alguma em tudo aquilo, pois até Hollywood já havia feito um filme mostrando um coelho num bar. O filme era Meu amigo Harvey e James Stewart, o protagonista.
Quando chegou a madrugada conduzi Osvaldo para o meu lar. Apresentei-lhe o meu melhor amigo, Nelsinho Mota, que é um passarinho inteligente e terno, mas Osvaldo teve medo de Nelsinho e vice-versa. Decidi, então, que a cada um caberia um aposento especial. Nelsinho ficaria na sala e Osvaldo no escritório. [...]
Minha cozinheira foi a primeira pessoa a perceber o absurdo da situação. Não se pode viver com um coelho dentro de um apartamento — disse ela. “Azar, azia, azeite”, respondi. “Não se pode viver de maneira alguma. O coelho é apenas uma demonstração particularmente cruel dessa evidência”.
Passaram-se dois dias: simplesmente fiquei dois dias sem voltar para casa, na esperança de que o coelho e a cozinheira entrassem em algum acordo. Mas o lar é uma coisa a que estamos tão habituados que sempre acabamos voltando a ele. Voltei fatigado, deitei me, e na manhã seguinte me pus a assoviar enquanto aparava a barba. Ao café, a cozinheira disse:
— E o coelho?
— Não sei. Não tenho jogado no bicho
— Estou falando é no nosso coelho. (Ela disse “nosso” coelho! O malandro já pertencia à minha família).
— Ah... O Osvaldo? — disse eu. — Façamos o seguinte: passemos a navalha no pescoço dele e jantemos civet de lapin! Coelho esquartejado!
— É pecado comer bicho que tem nome cristão — sentenciou ela. E estava certíssima: a minha saudosa galinha, Amélia, morreu de velha; ninguém ousou prepará-la ao molho pardo.
Eis senão quando o próprio Osvaldo tomou uma atitude singular. Depois de roer a gaiola e de devorar o Canto número dois, de Lautreamont — deixando intacto o Canto número um, que está impresso nas páginas anteriores — ele se esgueirou pelo corredor e, na sala, ficou ouvindo a nossa conversa. Aliás, o nosso silêncio: quando o vimos, a cozinheira e eu nos calamos. Eu, principalmente, estava encabuladíssimo, pois acabava de sugerir uma navalhada no pescoço dele.
A intuição feminina prevaleceria. A cozinheira mais que depressa abriu a porta da rua e sorriu maliciosamente na minha direção. O coelho, com as orelhas eretas, contemplou longamente a liberdade. Depois, por sua vez, se precipitou para fora.
Fechamos a porta e suspiramos. O mais e o menos outra vez se equilibravam em nossas vidas: menos um problema, mais um remorso.
OLIVEIRA, J. C. Domingo. In: Caderno B, Jornal do Brasil. Rio de
Janeiro, 1969. Disponível em
<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/16674/um-coelho>.
Gabarito comentado
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Tema central: Grau dos adjetivos em Língua Portuguesa (morfologia). A questão pede o reconhecimento do grau do adjetivo "encabuladíssimo" na frase "Eu, principalmente, estava encabuladíssimo".
Justificativa da alternativa correta — B) superlativo absoluto sintético:
O grau superlativo absoluto sintético se caracteriza pela formação de uma nova palavra através do acréscimo dos sufixos "-íssimo", "-érrimo" ou "-ílimo" ao adjetivo, indicando a intensificação máxima de uma qualidade sem comparação direta. Assim, "encabuladíssimo" deriva de "encabulado" + "-íssimo", exprimindo que o falante estava muito envergonhado, sem comparação com outro ser ou grupo.
Segundo Evanildo Bechara, (Moderna Gramática Portuguesa): “O superlativo absoluto sintético exprime, de modo absoluto, o grau elevado de uma determinada qualidade.”
Análise das alternativas incorretas:
- A) Superlativo relativo: Essa forma compara um ser a um grupo, usando expressões como “o mais encabulado da turma”. Não é o caso da frase.
- C) Superlativo absoluto analítico: É expresso com o advérbio (ex: “muito encabulado”). A frase não emprega essa estrutura, mas sim sufixo.
- D) Comparativo de igualdade: Demandaria comparação explícita, como “tão encabulado quanto...”. Não ocorre na frase.
- E) Comparativo de superioridade: Exige estrutura “mais encabulado que...”. Também ausente.
Como identificar rapidamente: Observe o final do adjetivo: os sufixos “-íssimo”, “-érrimo”, “-ílimo” indicam superlativo absoluto sintético. Atenção a essa dica, pois pegadinhas comuns envolvem a troca entre as formas sintética e analítica!
Exemplo para fixar: "Feliz" → “felicíssimo” (superlativo absoluto sintético) | “muito feliz” (superlativo absoluto analítico)
Bibliografia de referência:
Bechara, E. Moderna Gramática Portuguesa. Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo.
Resumo: “Encabuladíssimo” é superlativo absoluto sintético.
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Comentários
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1. Grau normal
➡️ Indica apenas a qualidade, sem comparar nem intensificar.
Exemplo:
- A sala está limpa.
- Ele é feliz.
2. Grau comparativo
➡️ Compara a qualidade entre dois seres.
Tem três tipos:
- De igualdade: tão... quanto / como
- → Ela é tão inteligente quanto o irmão.
- De superioridade: mais... que / do que
- → O filme é mais interessante que o livro.
- De inferioridade: menos... que / do que
- → O quarto está menos arrumado que o outro.
3. Grau superlativo
➡️ Indica uma qualidade em grau muito alto.
- Absoluto: intensifica a qualidade de um único ser
- Analítico: usa advérbio → muito bonito, extremamente cansado
- Sintético: usa sufixo → belíssimo, fortíssimo, encabuladíssimo
- Relativo: compara um ser com um grupo
- De superioridade: Maria é a mais inteligente da turma.
- De inferioridade: Pedro é o menos atencioso da equipe.
Alternativa correta: B — superlativo absoluto sintético.
- Encabuladíssimo é a forma intensificada do adjetivo encabulado.
- O sufixo “-íssimo” indica superlativo absoluto sintético, ou seja, ele mostra que a pessoa estava muito encabulada, sem comparar com ninguém.
Se fosse “muito encabulado”, seria superlativo absoluto analítico. Se fosse “mais encabulado que...”, seria comparativo de superioridade.
É chamado de sintético porque o grau máximo da qualidade é expresso por meio de um sufixo, formando uma só palavra.
GABARITO: B
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