Um professor de Língua Portuguesa e Literatura do Ensino Méd...

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Q4152846 Literatura
Um professor de Língua Portuguesa e Literatura do Ensino Médio abordará, em uma de suas aulas, o ensino da leitura do texto literário. Para isso, ele apresenta o seguinte trecho de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, a fim de observar questões como ritmo e estilo.

[...] os olhos do homem parecem sãos, a íris apresenta-se nítida, luminosa, a esclerótica branca, compacta como porcelana. As pálpebras arregaladas, a pele crispada da cara, as sobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia. Num movimento rápido, o que estava à vista desapareceu atrás dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro, e as lágrimas, rompendo, tornaram mais brilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos. Isso passa, vai ver que isso passa, às vezes são nervos, disse uma mulher. [...] A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não, não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Fica aqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade.
SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995 (adaptado).

A partir da situação apresentada, é uma alternativa possível para o professor
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O enunciado pedia observar ritmo e estilo, e o fragmento apresenta pontuação e sintaxe não convencionais que orientam a leitura do texto.

Tema central: pontuação e efeito de sentido
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao deslocar o foco para descrição detalhada, linguagem formal e hipérboles como base de um suposto caráter realista. A base não sustenta esses elementos como eixo decisivo do fragmento, e o traço formal dominante, útil para a proposta de observar ritmo e estilo, é a pontuação e a sintaxe autorais com efeito narrativo.
B
Certa
A alternativa B está certa porque identifica que a subversão da pontuação é deliberada e tem função narrativa, estética e estilística. No fragmento, esse recurso contribui para produzir fluxo e confusão, coerentes com a cena de cegueira e desorientação. Além disso, o trecho permanece inteligível, o que confirma tratar-se de escolha expressiva, e não de falha.
C
Errada
A repetição de frases está presente, mas o efeito atribuído está errado. Expressões como “estou cego, estou cego”, “venha, venha” e “não vejo, não vejo” intensificam urgência, aflição, insistência e tensão, não um ritmo lento.
D
Errada
A alternativa erra no ponto central ao afirmar que a pontuação fora da norma padrão compromete a compreensão. A base afirma o contrário: apesar da sintaxe e da pontuação marcadamente autorais, o leitor acompanha quem fala, a progressão da cena e o sentido global do episódio.
Pegadinha da questão
A confusão explorada foi tratar a pontuação fora do padrão escolar como erro ou obstáculo de compreensão, quando no fragmento ela funciona como recurso consciente de construção de sentido.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão pedir ritmo e estilo, procure primeiro o procedimento formal mais visível no próprio trecho e relacione-o ao efeito de sentido produzido.
  • Não confunda desvio em relação à norma escolar de pontuação com falha: verifique se o texto continua inteligível e se o arranjo formal produz efeito narrativo.
  • Avalie repetições pelo contexto: elas podem marcar urgência, tensão e oralidade, e não necessariamente lentidão.
  • Evite escolher alternativas que trocam a análise interna do fragmento por rótulos amplos sem apoio decisivo no texto.

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