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Q4328340 Português
TEXTO I

O retorno do limite


A queda de Maduro restabelece uma verdade elementar da política internacional que o mundo tentou esquecer: ordem não nasce do consenso; nasce da capacidade de impor limites quando o consenso fracassa

Ana Paula Henkel
09 jan 2026


    Em dezembro de 1989, sob a presidência de G. W. Bush, tropas americanas cruzaram o Panamá para capturar Manuel Noriega, um ditador transformado em narcotraficante de Estado. Em maio de 2011, já sob Barack Obama, forças especiais dos Estados Unidos entraram em território paquistanês para eliminar Osama bin Laden, o homem mais procurado do mundo. 

    Agora, em janeiro de 2026, a captura de Nicolás Maduro recoloca esse mesmo fio histórico em movimento. Não se trata apenas da queda de um ditador latino-americano, mas do retorno explícito de uma lógica de poder que havia sido suspensa, terceirizada ou disfarçada por décadas: a soberania real exige capacidade de agir – e disposição para fazê-lo. Três presidentes, três operações cirúrgicas, três decisões tomadas sem consulta prévia ao Congresso – e apenas uma delas passou a ser tratada como escândalo institucional. A operação que levou Maduro sob custódia americana não inaugura uma era. Ela encerra um intervalo. 

    A imprensa que hoje se apressa em questionar a legalidade da ação esquece – ou prefere esquecer – um detalhe essencial: o precedente existe. Ele não é obscuro nem controverso. Ele é histórico. Alguns analistas de ocasião decidiram redescobrir a Constituição americana justamente agora, questionando a ausência de consulta prévia ao Congresso como se isso fosse um ato inédito. Não é.

    Noriega e Bin Laden foram capturados ou eliminados sem autorização legislativa prévia. Em nenhum dos dois casos, os Estados Unidos enfrentaram uma crise institucional, nem a Casa Branca foi acusada de “golpismo institucional”. Ao contrário: as ações foram entendidas como exercício legítimo do poder executivo em defesa da segurança nacional. 

    Obama autorizou a operação contra Bin Laden sem consulta prévia e foi amplamente elogiado por isso. A legalidade não foi questionada, a legitimidade menos ainda. O que mudou não foi o procedimento. Foi o presidente. [...] O debate atual não é jurídico. É político. E, mais profundamente, estético. Trump não se encaixa no imaginário moral da imprensa progressista. Logo, seus atos, ainda que idênticos aos de seus antecessores, passam a ser tratados como ameaça institucional. Essa inversão revela mais sobre quem acusa do que sobre quem decide. 

    Nicolás Maduro não era apenas um ditador autoritário à frente de um estado falido. Ele comandava um regime integrado ao narcotráfico internacional, sustentado por redes transnacionais de crime, com proteção ativa de potências adversárias dos Estados Unidos. A Venezuela havia se tornado um nó estratégico em uma teia que ligava o Caribe ao Oriente Médio, passando por Havana, Teerã, Moscou e Pequim. Ignorar isso é fingir que o mundo de 2026 ainda é o de 1996. [...]

A Doutrina Monroe (1823)

    Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe estabeleceu um princípio simples e duradouro: o Hemisfério Ocidental não estaria mais aberto à colonização ou interferência de potências europeias. Em troca, os Estados Unidos se comprometeriam a não intervir nos assuntos internos do Velho Mundo. Não era um gesto imperial, mas defensivo. A jovem república americana afirmava que sua segurança dependia da estabilidade estratégica de seu entorno imediato – uma noção elementar de soberania em um sistema internacional ainda regido pela força. 

    Ao longo dos séculos, a doutrina foi reinterpretada, expandida e, por vezes, instrumentalizada, mas seu núcleo permaneceu intacto: nenhuma grande potência tolera a consolidação de adversários estratégicos em sua vizinhança direta. O que muda não é o princípio, mas o método. Em 2026, a captura de Nicolás Maduro não revive a Doutrina Monroe em sua forma original; ela reafirma sua lógica essencial em um mundo multipolar, no qual a disputa não se dá mais por colônias formais, mas por infraestrutura crítica, influência política e controle indireto de Estados falidos. [...]

     A captura de Maduro não representa assim uma reedição caricata da Doutrina Monroe do século 19. Representa algo mais direto: o reconhecimento de que nenhuma potência pode permitir que seu entorno estratégico imediato se transforme em base avançada de adversários globais. Não se trata de imperialismo. Trata-se de geopolítica elementar.

    China, Rússia e Irã avançaram na América Latina porque puderam. Avançaram porque encontraram vácuos. Avançaram porque, durante anos, os Estados Unidos hesitaram, recuaram ou se limitaram a sanções simbólicas. A Venezuela foi o laboratório mais avançado desse processo. A operação que capturou Maduro é, nesse sentido, um freio de arrumação – tardio, mas inequívoco. [...]

A América Latina: antes e depois

    Antes da captura de Maduro, a América Latina vivia uma fragmentação silenciosa. Governos ideologicamente alinhados a regimes autoritários conviviam com democracias frágeis, enquanto a influência chinesa crescia de forma constante, pouco contestada.

    Depois da operação, o cenário mudou. Não porque todos passaram a apoiar Washigton – não passaram –,mas porque a ilusão de que os Estados Unidos haviam abdicado do hemisfério caiu por terra. A região voltou a ser estratégica. E isso, por si só, já altera comportamentos, discursos e alianças. [...]

    Na Europa, a reação foi previsível: preocupação formal, condenações retóricas, apelos à legalidade internacional. O continente, cada vez mais dependente da proteção americana, vive o paradoxo de criticar aquilo que o sustenta. Na Ásia, o recado foi entendido com mais clareza. Precedentes importam. A ideia de que líderes ou estruturas fora do território americano estão automaticamente protegidos por formalismos jurídicos foi relativizada. 

    O mundo entrou, definitivamente, em uma fase pós-ilusória. A crença de que normas sobreviveriam sem um poder que as apoiasse mostrou-se insustentável. Por tempo demais, o Ocidente confundiu prudência com paralisia, diálogo com abdicação e legalismo com fraqueza. Ao fazê-lo, abriu espaço para regimes que não compartilham seus valores, mas que se beneficiam de suas hesitações. A captura de Maduro marca o momento em que essa ambiguidade estratégica começa a se fechar. Não por nostalgia de um passado imperial, mas por reconhecimento de que a liberdade não se sustenta sozinha – ela exige guardiões dispostos a agir.

    O mundo que emerge após janeiro de 2026 é menos confortável para ditadores, menos previsível para burocracias internacionais e mais exigente para aliados hesitantes. É um mundo em que a aposta na erosão lenta das democracias passa a ter custo real; em que a simetria moral entre regimes livres e regimes autoritários se torna insustentável; e em que o Hemisfério Ocidental volta a ser entendido não como zona neutra, mas como espaço civilizacional.

    A História não voltou por nostalgia. Voltou porque foi chamada, voltou por omissão, por excesso de tolerância, por esquecimento das lições mais básicas do poder. E, desta vez, ela bateu à porta com força suficiente para ser ouvida de leste a oeste.


Fonte: HENKEL, Ana Paula. O retorno do limite. https://revistaoeste.com/revista/edicao-304/oretorno-do-limite/ 
Analise as afirmações abaixo sobre justificativas de uso da Pontuação, antes de julgar o que se pede.

( ) Em “Em dezembro de 1989, sob a presidência de G. W. Bush, tropas americanas cruzaram o Panamá para capturar Manuel Noriega, um ditador transformado em narcotraficante de Estado.” (1º par.), nota-se que as vírgulas foram usadas com o mesmo propósito de isolar Adjuntos Adverbiais deslocados.
( ) Em “Não se trata apenas da queda de um ditador latino-americano, mas do retorno explícito de uma lógica de poder que havia sido suspensa, terceirizada ou disfarçada por décadas: a de que a soberania real exige capacidade de agir – e disposição para fazê-lo.” (2º par.), os dois pontos anunciam uma fala de teor explicativo possuindo natureza catafórica.
( ) Em “China, Rússia e Irã avançaram na América Latina porque puderam.” (10º par.), a vírgula foi usada para separar topônimos que exercem função sintática de Adjunto Adverbial e que se encontram deslocados no período.
( ) Em “Antes da captura de Maduro, a América Latina vivia uma fragmentação silenciosa.” (11º par.) e “Depois da operação, o cenário mudou.” (12º par.), cada vírgula foi usada de forma obrigatória para isolar expressões explicativas no contexto, consideradas essenciais e integrantes da oração.
( ) Em “Na Europa, a reação foi previsível: preocupação formal, condenações retóricas, apelos à legalidade internacional.” (13º par.), os dois pontos foram utilizados a fim de anunciarem uma fala de teor explicativo no contexto; a primeira vírgula marca o deslocamento de um termo na oração; já as outras duas vírgulas separam termos de mesma função sintática.

Considerando-se V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas, pode-se constatar, pela ordem, a seguinte sequência.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: A pontuação deve ser avaliada pela função efetiva de cada segmento, não pela mera repetição do sinal. No trecho “Em dezembro de 1989, sob a presidência de G. W. Bush, tropas americanas cruzaram o Panamá para capturar Manuel Noriega, um ditador transformado em narcotraficante de Estado.”, o segmento final explica “Manuel Noriega”, evidenciando que as vírgulas não têm todas a mesma função. Esse critério orienta o julgamento das afirmações e sustenta a alternativa D.

Tema central: Funções sintáticas da pontuação
Análise das alternativas
A
Errada
Erra a segunda, a terceira e a quinta posições. A segunda é verdadeira porque os dois-pontos anunciam a explicação da lógica de poder. A terceira é falsa porque os países nomeados constituem o sujeito composto, não adjuntos adverbiais de lugar. A quinta é verdadeira porque distingue corretamente a vírgula do adjunto anteposto, os dois-pontos explicativos e as vírgulas da enumeração.
B
Errada
Erra apenas a quinta posição. Em “Na Europa, a reação foi previsível: preocupação formal, condenações retóricas, apelos à legalidade internacional.”, a primeira vírgula separa o adjunto adverbial de lugar anteposto; os dois-pontos anunciam uma enumeração que explica a reação; e as outras vírgulas separam termos de mesma função sintática. Portanto, a afirmação é verdadeira.
C
Errada
Erra as quatro primeiras posições. A primeira é falsa pela presença do aposto explicativo após “Manuel Noriega”. A segunda é verdadeira pelo valor explicativo e prospectivo dos dois-pontos. A terceira é falsa porque “China, Rússia e Irã” funciona como sujeito composto. A quarta é falsa porque as expressões iniciadas por “Antes” e “Depois” indicam circunstância temporal, não explicação, e a obrigatoriedade da vírgula não pode ser generalizada a todo adjunto anteposto.
D
Certa
A alternativa D reúne os cinco julgamentos corretos: 1ª — falsa, porque “um ditador transformado em narcotraficante de Estado” é aposto explicativo de “Manuel Noriega”, e nem todas as vírgulas isolam adjuntos adverbiais; 2ª — verdadeira, pois os dois-pontos anunciam a explicação da lógica de poder mencionada antes, com orientação catafórica, isto é, para o conteúdo seguinte; 3ª — falsa, porque “China, Rússia e Irã” é sujeito composto de “avançaram”, e a vírgula separa núcleos coordenados; 4ª — falsa, pois “Antes da captura de Maduro” e “Depois da operação” são adjuntos adverbiais temporais antepostos, não expressões explicativas; além disso, a vírgula não é indistintamente obrigatória em todo adjunto anteposto, pois os de pequena extensão podem admitir sua omissão; 5ª — verdadeira, porque a vírgula após “Na Europa” separa um adjunto adverbial anteposto, os dois-pontos introduzem o detalhamento da reação e as demais vírgulas separam os elementos dessa enumeração explicativa. Na segunda e na quinta afirmações, “fala” deve ser entendida como segmento explicativo, não como discurso direto. Há ainda uma divergência na segunda afirmação: ela registra “a de que a soberania real exige”, enquanto o texto-base traz “a soberania real exige”; isso não altera o valor explicativo dos dois-pontos.
E
Errada
Erra apenas a primeira posição. A vírgula depois de “Manuel Noriega” introduz o aposto explicativo “um ditador transformado em narcotraficante de Estado”. Logo, é falsa a afirmação de que todas as vírgulas do período foram usadas para isolar adjuntos adverbiais deslocados.
Pegadinha da questão
A primeira afirmação estende a todas as vírgulas a função das iniciais, escondendo o aposto final. A terceira explora a confusão entre designar um lugar e exercer função de adjunto adverbial. A quarta chama circunstâncias temporais de expressões explicativas e generaliza a obrigatoriedade da vírgula. Na quinta, a enumeração também tem valor explicativo, o que confirma, e não invalida, a afirmação.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a afirmação atribuir uma única função a várias vírgulas, confira cada segmento delimitado: um aposto já impede classificá-las todas como marcas de adjuntos adverbiais.
  • Determine a função sintática dos nomes no período: designações de países podem integrar o sujeito, como em “China, Rússia e Irã”, sem indicar circunstância de lugar.
  • Nos dois-pontos, verifique se o conteúdo seguinte explica ou detalha o anterior; esse desenvolvimento pode assumir a forma de enumeração, sem constituir discurso direto.
  • Separe a classificação do termo da obrigatoriedade da vírgula: adjuntos temporais antepostos não são expressões explicativas, e os de pequena extensão podem admitir omissão do sinal.

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Comentários

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as duas expressões destacadas são adjuntos adverbiais deslocados:

  • “Em dezembro de 1989” → adjunto adverbial de tempo;
  • “sob a presidência de G. W. Bush” → adjunto adverbial de circunstância/tempo ou contexto.

As vírgulas são empregadas para isolar esses termos adverbiais deslocados, que interrompem a sequência natural da oração.

✅ Gabarito: CERTO.

Creio que esse gabarito está errado.

A primeira vírgula encerra o adjunto adverbial de tempo deslocado.

As duas vírgulas seguintes isolam a expressão intercalada.

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