Analisando o título e o último parágrafo conclusivo do texto...
A VIDA É COMO A DENGUE
Renato Essenfelder
Os sintomas foram se acumulando rapidamente. No intervalo de dois ou três dias, estavam todos lá: cansaço, depois cansaço extremo. Moleza, fraqueza. Inapetência. Enxaqueca em grau até então desconhecido (pode respirar mais baixo, por favor?) - e já não lembrava nem o que havia almoçado horas antes. Enjoos. Nas semanas anteriores, a dor na coluna havia me levado duas vezes ao PS Ortopédico (Primeiro foram os anti-inflamatórios, depois os analgésicos, depois as bolsas térmicas, depois acupuntura, depois RPG e então, enfim, admitamos: só Deus). Mas só quando surgiu a febre alta, repentina, instantânea, suspeitei realmente.
(...)
Fui acometido por uma certeza fria de que era dengue. A dengue daria sentido a tudo, ao cansaço, à insatisfação, à moleza, à inapetência. À vida, nestes dias. Era dengue. Preparei as malas para ir ao hospital e decretar triunfalmente: estou com dengue. Meus amigos tiveram dengue. Colegas de trabalho tiveram dengue. Matei um mosquito de listras brancas dentro do meu carro esses dias. Tenho todos os sintomas do Google,
digo, da dengue, portanto é saber qual tipo e se vou
sobreviver. O médico contestou. Fez-me pagar um
exame particular, já que os planos de saúde já não
cobrem mais testes de dengue - como se sabe, servem
para todas as coisas de que não precisamos.
Paguei para ver.
Não era dengue. Fiquei desconcertado. O rosário
que daria sentido aos meus sintomas - e a mais do que
isso, aos meus dias - se desfazia.
Não era dengue, era a vida.
Aquela doença que me andava deprimindo,
exaurindo, que na quinta-feira às sete horas da noite
engolfou meu corpo na cama como um oceano de
algodão - era a vida.
Era a vida, que também derruba. A vida, que não
é transmitida por mosquitos, mas por mães, e da qual a
gente só se lembra assim, de vez em quando, quando um
mosquito inocula um falso vírus, quando uma dor trava a
coluna, quando alguém próximo morre.
A vida, que, quando ignorada, volta-se contra nós
de mansinho, com lábios de Monalisa, enfraquecendo
pernas e pés, costas e ombros, turvando a vista e
ricocheteando furiosamente nas paredes do crânio até
que nos apercebamos dela. A vida, cachorro que morde
a mão, cachorro cuja indignação é inexplicável até que
notada.
A vida de minhas retinas tão fatigadas. A vida de
acordar muito cedo, estender-se na rua até tarde, culpar- se pela pouca atenção à família, à mulher, ao cachorro,
às crianças e velhos que morrem sem vida; ao corpo, ao
sono, à cabeça. A vida de São Paulo, Brasil, classe
média, escritor fatigado de 34 anos.
Eu não sei se fez sol ou se choveu, ontem à
tarde. Não lembro o que comi no almoço. Tenho 16
relatórios para esta semana.
A vida é como a dengue.
(Fonte: https://www.estadao.com.br/emais/renatoessenfelder/a-vida-e-como-a-dengue/ - Adaptado)
Gabarito comentado
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Tema central: Interpretação de Texto
Esta questão solicita ao candidato analisar título e conclusão de um texto, exigindo interpretação global e atenção à coerência textual. Segundo a norma-padrão e autores como Evanildo Bechara, interpretar exige buscar o sentido, identificando o fio condutor lógico das ideias expressas e implícitas.
Justificativa da alternativa correta – C
A alternativa C destaca que o indivíduo vive uma rotina cíclica, sem esforço para mudar. Ao analisar o título e o último parágrafo, percebe-se que o texto constrói uma analogia entre a repetição na vida do personagem e a “ciclicidade” de um problema recorrente (como a dengue), indicando estagnação e falta de iniciativa — elementos centrais da ideia principal. Essa leitura é coerente com o conceito de coerência textual (Cunha & Cintra), pois há ligação lógica entre episódios repetitivos narrados e a ausência de transformação no comportamento.
Análise das alternativas incorretas
A) Falsa. A alternativa supõe disposição para mudança após uma consciência adquirida. O texto, porém, sinaliza passividade, SEM indícios de decisão por transformação.
B) Incorreta. Comparar a vida com a dengue é um recurso metafórico para ilustrar repetição, não sinalizando desconhecimento da vida, e sim enfatizando um padrão.
D) Errada. Não há confusão entre vida e dengue, mas sim um paralelo metafórico para demonstrar o ciclo vicioso vivido pelo personagem.
E) Falsa. A leitura sugere tragédia (“acabar com a vida para acabar com a dengue”), mas o texto não sustenta essa radicalidade.
Dicas para provas: Em questões interpretativas, busque sempre:
- Entender os sentidos implícitos, não só o que está escrito de modo literal;
- Verificar se as alternativas exageram ou reduzem o alcance das ideias do texto;
- Atentar para armadilhas de generalização e distorção sem apoio textual.
Conclusão: O gabarito correto é a alternativa C, pois apresenta leitura alinhada à coerência textual e à interpretação crítica exigidas por concursos, essenciais para boa compreensão do texto e sucesso na prova.
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